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segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Suassuna inspira “Crendices...Quem Disse?”


Marcela Benvegnu

As comemorações dos 454 anos da cidade de São Paulo, que começam na próxima sexta-feira, dia 25, prometem shows de música, performances, exposições, séries de concertos e apresentações de dança. Entre os grupos está a Companhia de Danças de Diadema, que apresenta “Crendices...Quem Disse?”, — um dos mais recentes e premiados trabalhos da companhia — em três apresentações, na Galeria Olido. A entrada é gratuita.
A coreografia de Ana Bottosso — com contribuição do elenco — foi apoiada no romance “A Pedra do Reino”, do dramaturgo Ariano Suassuna. O texto surgiu como inspiração para a Companhia dar início à pesquisa e criação coreográfica. Tendo como eixo central de estudo trechos do romance, o grupo aborda em forma de movimento as crendices populares que habitam o dia-a-dia do povo brasileiro; crenças do passado de cada um, textos do autor, além de causos, tragédias, alegrias e curiosidades.
A linha de movimentação coreográfica é apoiada em gestos e símbolos que trazem como principal referência as danças africanas e religiosas, como o candomblé e a umbanda, que se fundem de forma harmônica à dança contemporânea. No decorrer do processo de criação da montagem, o grupo percebeu que muito pouco se fala sobre as crenças que residem nos indivíduos e que é preciso dar importância à cultura raiz — e suas possibilidades de leitura por meio da arte contemporânea — para que ela se torne um portal aberto para construção da identidade do próprio brasileiro.
Com iluminação do talentoso Ari Buccione, o espetáculo conta com trilha sonora especialmente composta. Assinada pelo Grupo Pedra Branca, a música traça um diálogo real com a coreografia, abordando a idéia de que a cultura brasileira é como um rico mosaico, no qual se encaixam todas as outras formas e manifestações culturais. A obra mescla músicas e instrumentos de raiz com elementos sonoros contemporâneos como, theremin, alaúde árabe, cítara, tabla, samissen, udu africano, chocalhos indígenas e outros.
Aos que passarem por São Paulo na semana que vem, vale assistir ao espetáculo. Ainda bem que a dança não ficou de fora das comemorações do aniversário, jamais poderia, tendo em vista que a secretaria de cultura do Estado deva lançar no próximo mês uma nova companhia estadual de dança. Tudo ainda é muito secreto, mas é possível prever que a direção será de Iracity Cardoso.

PARA VER — "Crendices...Quem disse?”, com a Cia. de Danças de Diadema. Dias 25 e 26, às 20h e dia 27, às 19h, na Galeria Olido (av. São João, 473), na Sala Paissandu. A entrada é gratuita e os ingressos devem ser retirados com uma hora de antecedência.

Crédito: David Virgílio

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Crítica / Quixotes da dança


Marcela Benvegnu

Quixotes do Amanhã”, coreografia de Fernando Machado para a Cia. de Dança de Diadema, que foi apresentada no Sesi Piracicaba no domingo, 28, começa antes mesmo de a cortina se abrir. O bailarino Ton Carbones está colocado no canto da platéia. Ele é uma espécie de menino de rua, que vê no dia seguinte a esperança de um mundo melhor. Cidadão do tempo. Quixote do amanhã. No proscênio, copos de plástico amassados chamam a atenção. É o lixo. Proposta de concepção da companhia para esta montagem que por sinal é bem trabalhada e sai da reciclagem convencional da dança contemporânea.

Quando a cortina se abre, a dança se revela. É possível assistir a uma fluida movimentação que se abdica da junção de passos para dar ênfase a uma forma de linguagem que mistura a dança contemporânea ao teatro coreográfico. O palco aberto — sem o uso das coxias — serve de cenário para uma cidade onde o homem é tratado como bicho, que caça para sobreviver. Na sutil poesia de Quixote está o subtexto de que é preciso respirar ar puro, quem sabe ar que dança, e que consegue dançar em meio ao lixo que ocupa todo o espaço.

Os bailarinos são bem preparados. Mostram sincronicidade e força na execução. Porém, é Fernanda Bueno quem chama atenção. Não é pelo nu, que executa em um momento do espetáculo — por sinal um nu de costas muito bem colocado —, mas sim pela força e vigor físico com que interpreta a coreografia musicada ao vivo por Loop B, com iluminação do talentoso Ari Buccione.

Com direção de Ana Botosso, o trabalho provoca uma reflexão que vai além do mau direcionamento do lixo provocado pela inconsequência do homem. Estaríamos nós todos no lixo? Qual o lugar da dança na contemporaneidade? Não basta acreditar, talvez seja preciso dançar.

DIÁLOGOS IM(POSSÍVEIS) — Após o espetáculo foi proposta uma conversa com os bailarinos e com Machado. A trupe falou um pouco sobre o processo de composição da coreografia, a criação da companhia e o belo trabalho que desenvolvem como arte-difusores. Infelizmente as poucas pessoas da área da dança piracicabana que assistiram ao espetáculo não ficaram para o bate-papo. Se pensam que perderam somente um monte de palavras, se enganam. Perderam dança. Talvez o Fantástico ou mesmo o Domingo Legal fossem mais importantes. Ainda bem que acabou o espaço. Não é preciso dizer mais nada.

Foto: Arnaldo Torres

Thank you, Dance!

by Judy Smith "