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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Joinville: contagem regressiva


Marcela Benvegnu

Tenho que admitir. Morri por dentro em não ir ao Festival de Dança de Joinville no ano passado. Sinto falta de ouvir e cantar: "Dança Joinville, dança o meu coração, a vida é um palco, movimento emoção/ As flores da cidade, vão dançar com você/ Vem para Joinville, nós queremos te ver/ Para dançar, dançar, dançar e ser feliz/ Festival de emoções, do meu país. / Para dançar, dançar, dançar e ser feliz/ Festival de emoções, do meu país". Garanto que quem está lendo esse post está cantando essa música agora lembrando do Centreventos lotado e todos com os celulares na mão fazendo uma coreografia de luzes e vozes. Um só corpo de 5 mil pessoas.

Minha história com o Festival é muito particular. Fiz aula, dancei, fui como crítica por alguns anos e depois como professora. É como se no mês de julho eu me sentisse totalmente preenchida pela dança. Enfim, esse ano, em julho estarei lá.  Fato.

Mas o objetivo deste post não é contar a minha história, e sim anunciar que as inscrições para os cursos e oficinas já estão abertas. Quando eu tinha meus 18 anos eu fazia contagem regressiva para poder me inscrever. Era como ganhar um presente conseguir uma vaga nos cursos de jazz. Esgotavam-se em horas. 

Esse ano os números são expressivos: 26 cursos, 1700 vagas (sendo 720 para o balé clássico),  48 turmas, 32 professores. Foram liberadas 70% das vagas, o restante é liberado em junho, quando saem os resultados da mostra competitiva, meia ponta e palcos abertos. Assim todos podem ter a chance de fazer aulas.

Entre os professores da 29 edição, destacam-se: Paulo Vinícios, Ilara Lopres, Neyde Rossi, Carla Bublitz, S´rgio Marshal, Cristina Helena, Jair Moraes, Toshie Kobayashi, Andrea Bérgallo, Priscila Teixeira, Pedro Kraczuk e Bóris Storojokov (balé clássico); Marly Tavares, Erika Novachi e Edy Wilson (jazz dance); Flávio Salles e Christiane Matallo (sapateado), e outros. 

Confira tudo em www.festivaldedanca.com.br e faça a sua inscrição e para quem ainda não sabe, o Festival acontece de 20 a 30 de julho. 

O que se vive em Joinville, só se vive lá. Aproveitem.

domingo, 6 de setembro de 2009

Redação Crítica de Dança / Joinville 2009


Segue abaixo algumas críticas publicadas pelos meus alunos no curso de Redação Crítica de Dança que foi ministrado durante do Festival de Dança de Joinville, em julho deste ano! O pessoal teve contato com a crítica durante três intensos dias e o resultado foi muito interessante. Temos excelentes textos aqui. Obrigada queridos!
Marcela Benvegnu
Alunos!!!! Críticos!!! Produtores de pensamento!!!!
Serenade, com a SPCD



Crítica de VANESSA AMARAL
Encanto e sentimento em noite de gala despertados por Serenade
“Exuberante”. Talvez esta seja a palavra que descreva a atuação da São Paulo Companhia de Dança em Serenade, na noite da última segunda-feira, 20 de julho de 2009. A Companhia apresentou-se no Centreventos Cau Hansen na noite de gala do 27º Festival de Dança de Joinville. No elenco constavam bailarinos das cinco regiões do Brasil e também da Argentina.
Com uma execução e leveza invejável exigida pela coreografia de George Balanchine (1904-1983), sobre a música de Tchaikovsky (1840-1893), a remontagem de Bem Bates encantou o público trazendo algo diferente dos ballet’s habituais.
Serenade não possui uma seqüência de fatos lógicos, Balanchine explorou questões formais impostas pela modernidade, estabelecendo uma relação radical entre som e movimento, sua proposta era esclarecer aos jovens bailarinos a distinção entre bailado em sala de aula e dança no palco.
Mantendo esta relação com sala de aula, o figurino composto por collants e saias longas de tule (também chamadas de tutus românticos) apresentou-se de forma simples e fiel a rotina de sala de aula de diversos bailarinos e bailarinas. Este, contudo dialoga harmoniosamente com o movimento e a marcante luz em fundo azul, que dançava graciosamente junto à Companhia.
Em geral sobre a Companhia é impossível não citar e parabenizar a harmonia presente no palco, que pôde ser facilmente percebida pelo público, pois os bailarinos se entregam e vivem o que dançam como um só corpo. Como resposta, recebem não somente aplausos, lágrimas e sorrisos do público, mas também admiração e respeito por tal obra executada por uma Companhia tão jovem e tão fiel ao que comprometem fazer. Deixando de herança a todos nós, um desejo e curiosidade de apreciar o que ainda está por vir.




Crítica de ANETTE LUBISCO

As rupturas e dissonância provocadas por Les Noces
Na noite de 20 de julho de 2009, as 20 h, no Centreventos Cau Hansen dentro do 27º Festival de Dança de Joinville apresentou-se dentro de sua noite de gala a “São Paulo Companhia de Dança”, apresentando em seu programa também Lês Noces. Lês Noces é um trabalho coreográfico onde se vê presente rupturas e dissonâncias.
A proposta coreográfica se deu a partir da união da coreógrafa bielorussa Bronislava Nijinska e do compositor e musico Igor Stravinsky.
Nijinska criou a movimentação para Lês Noces mostrando movimentos dançados com influência de ritual do casamento da Rússia antiga. Além de imagens vividas pela coreógrafa durante a Revolução da Rússia antiga, as inspirações do gestual moderno dos movimentos de danças folclóricas russas ajudaram na sensação de transmitir aspectos relacionados a rupturas sob que o trabalho se oferece. A mais conhecida criação da russa NIjinska, alia a tradição do balé as vanguardas modernistas do inicio do século XX reforçando a idéia de ousadia que Lês Noces perpassa.
Stravinsky compôs e escreveu a musica em quatro cenas explorando o clima solene dos rituais dos casamentos russos, onde os casais eram determinados pelos pais. A riqueza rítmica da musica oferecida de Stravinky e o teor dramático do trabalho provoca a dissonância refletida por todo momento na obra dançada, onde os integrantes/bailarinos passam a ser vozes coreográficas complementadas com harmonia do movimento e musica, ressoando como num todo. A arrojada musica de Stravinsky funde o folclore russo com modernas rupturas musicais
O figurino é visto sem a ostentação de cor, lembrando roupas do dia-a-dia dos camponeses russos. Les Noces é dançado também por mulheres onde Nijinska coloca a importância do uso da sapatilha de ponta, pois ela queria restituir silhueta alongada que se vê nos ícones russos e noutras imagens tradicionais da igreja Bizantina.
O cenário é feito por Gontcharova – russa – e artista plástica de pesquisa abstrata e que buscou perpetuar a arte popular russa.
O Lês Noces foi dançado pela 1ª vez em 1923 e em Paris e para a remontagem deste trabalho para o “São Paulo Companhia de Dança” foi chamado um “remontador” – bailarino que conhece profundamente a peça e que repassem estes movimentos com fidelidade – a portuguesa Márcia Palmerini.
O “São Paulo Companhia de Dança” foi lançado em janeiro de 2008, por iniciativa do governo do Estado de São Paulo, ocupado por elenco de 40 integrantes e que possui sem duvida resultados interessantes em tão pouco tempo de existência. Lês Noces traz a ousadia e sofisticação desta Companhia de Dança que desponta no mercado cultural mostrando a importância de programas com produção de alta qualidade técnica e artística.



Crítica de KARINA BORJA DE SOUZA
Simplicidade e Beleza



Simplicidade e beleza é como se pode definir o espetáculo da São Paulo Companhia de Dança apresentação ontem no 27º Festival de Dança de Joinville. A Noite de Gala foi enriquecida com as apresentações de "Les Noces" e "Serenade".
"Les Noces" uma criação da bailarina russa Bronislava Nijinska (1891 - 1972), música de Igor Stravinsky (1882 - 1971) e com figurinos e cenários assinados por Natalia Goutcharova (1881 - 1962).
O balé nos remete a antiga rússia onde todos os bailarinos se igualavam num só corpo, com movimentos fortes e próprios, nos trazendo um casamento de camponeses onde o matrimônio era um ato acordado pelos pais.
Delicados movimentos fecha a noite trazendo "Serenade" de George Balanchine (1904 - 1983) e música de Tchaikovsky (1940 - 1893). A suavidade transparecia na luz azul e nos figurinos esvuaçantes nos elevando e nos envolvendo com doces sensações. E essa obra-prima era apenas para mostrar aos alunos a distinção entre bailado em sala de aula e a dança no palco.
Foi uma noite que permeou entre o forte e o suave, o brutal e o delicado, e esse trabalho nos mostra o que uma companhia, mesmo sendo formada há pouco mais de um ano, tem a limpeza em sua assinatura e a dedicação dos bailarinos e remontadores levando aos que assistem a tristeza e a alegria em, apenas, alguns minutos de diferença.

Crítica de NILDA NAZARÉ PEREIRA OLIVEIRA

Os sentimentos que a dança pode despertar


Na Noite de Gala do 27º Festival de Dança de Joinville pudemos assistir a apresentação da São Paulo Companhia de Dança, que trouxe duas das coreografias de seu repertório: Les Noces e Serenade. A apresentação ocorreu no Centreventos Cau Hansen, para uma platéia de, aproximadamente, 4.500 pessoas.
A coreografia Les Noces retrata um casamento camponês, na Rússia do início do século XX, quando os noivos eram escolhidos pelas famílias e só se conheciam no dia do casamento. A obra foi criada em 1923, por Bronislava Nijinska (Minsk, 8 de janeiro de 1891 — Los Angeles, 21 de fevereiro de 1972). Trata-se de um Ballet em quatro atos: a Bênção da Noiva, a Bênção do Noivo, a despedida da Noiva da casa dos pais e a festa de casamento.
Os cenários austeros, que retratam casas camponesas, com suas paredes nuas pintadas de bege, o figurino em tons de bege e marrom e a forte música de Stravinsky (Oranienbaum, 17 de Junho de 1882 – Nova York, 6 de Abril de 1971), dão um tom extremamente sombrio, e refletem todo o sofrimento de uma jovem que não deseja realizar aquele casamento, da forma como era de costume.
Serenade, de George Balanchine (São Petersburgo, 22 de Janeiro de 1904 – Nova Iorque, 30 de Abril de 1983), foi criada sobre a Serenata em Si Maior para Cordas, Opus 48 de Tchaikovsky (Kamsko-Wotkinski Sawod, 7 de maio de 1840 - São Petersburgo, 6 de novembro de 1893), em 1935, e é o oposto, se assim podemos dizer, de Les Noces. Trata-se de uma coreografia leve e suave, que dialoga perfeitamente com o figurino em tons de azul, e saias de tule esvoaçantes, que, em conjunto com a iluminação também azul, reproduzia uma cena às vezes parecendo o mar, outras o céu.
Os bailarinos executaram as duas coreografias numa harmonia muito grande, demonstrando grande interação, o que é surpreendente para uma Companhia criada há tão pouco tempo, a São Paulo Companhia de Dança foi criada há pouco mais de um ano e meio, em janeiro de 2008.
Entretanto, o que mais chamou a atenção na apresentação da Noite de Gala foi o tipo de sentimento que uma coreografia de dança pode despertar.
Certamente o público do Festival é diferenciado, são pessoas que vivem e valorizam a dança, a elite da dança no país e, mesmo neste público, pode-se observar um sentimento de angústia, sofrimento e nostalgia evocados por Les Noces, refletido nas palmas reticentes e manifestações contidas, completamente contrárias ao que ocorreu em Serenade, quando a platéia explodiu em aplausos e manifestações de euforia.
Para quem afirma que em Ballet Clássico “é tudo igual”, vale a pena assistir a essas duas coreografias, para perceber os sentimentos que a dança pode despertar.



Crítica de MICHELLE CAMARGO
Quem precisa de príncipes e fadas?
Seguindo a tradição de alto padrão dos trabalhos apresentados na Noite de Gala, o 27º Festival de Danças de Joinville trouxe ao palco duas obras primas da dança clássica: Les Noces, de Bronislava Nijinska e Serenade, de George Balanchine, ambos primorosamente interpretados pela São Paulo Cia de Dança.
Acreditar que apenas príncipes e fadas emocionam e encantam o público do Festival é equivocadamente privar-se do despertar de novas emoções que a dança é capaz de proporcionar.
Em Les Noces, a intensidade da música de Stravinsky aliado à narrativa do balé traduz o sentimento de um período difícil na Russia, porém a força dos movimentos e a performance dos bailarinos da São paulo Cia de Dança trazem à tona o olhar de encantamento e admiração característicos do público dos prícipes e das fadas.
Já em Serenade, este olhar se reconhece na inteligência de Balanchine, que de forma delicada, poetiza o cotidiano de mais uma de suas belíssimas criações e no corpo da São paulo Cia de Dança, acolhe o olhar hipnotizado da platéia.
Se os príncipes e as fadas não estiveram presentes no palco da Noite de Gala do 27º Festival de Joinville, isso já não mais importa. Levamos para casa a descoberta de que emocionar-se é preciso, basta abrir bem os olhos, a mente e o coração!
Crítica de CAMILA EMBOAVA
Serenade. Ah, e então?
Serenade, criada em 1935, foi a primeira obra que George Balanchine (1904-1983) coreografou para os alunos de sua escola, a School of American Ballet. O coreógrafo pretendia ensinar a seus alunos a diferença entre a movimentação de aula e os bailados de palco, daí nota-se as inclinações de corpo, os braços mais leves, a movimentação menos rígida e acadêmica que acabou por “inaugurar” o balé neoclássico.
Ontem, o público do Festival de Dança de Joinville pôde ver no palco principal a remontagem de Serenade dançada pelos bailarinos da São Paulo Companhia de Dança.
Para que Serenade acontecesse, a companhia contou com a orientação do bailarino e professor belga Bem Huys, que dançou no New York City Ballet durante anos e ensinou tanto a coreografia e musicalidade aos bailarinos quanto a luz e o figurino aos técnicos.
O balé começa com 17 bailarinas no palco espalhadas de uma forma não-convencional e bela. O primeiro gesto da obra foi baseado em uma das bailarinas, que protegia o rosto do sol quando o coreógrafo chegou na sala. O balé inteiro acontece com intervenções de movimentações que simbolizam algum fato ocorrido durante os ensaios. A bailarina que chega atrasada e procura seu lugar, a bailarina que cai durante o ensaio, as moças limpando o suor. A obra diz sobre o cotidiano das bailarinas de Balanchine.
Durante o espetáculo fico imaginando o tamanho da comoção que a apresentação de Serenade causa aqui, em Joinville, onde grande parte do público tem envolvimento com a dança. Quantas meninas da platéia devem ter se reconhecido no atraso de uma das bailarinas? Quantas se identificaram com o “choro” de uma das alunas de Balanchine representado em cena?Assim como a queda da bailarina e o sol na janela das salas de dança, o balé Serenade é atemporal.
A musicalidade é impressionante, nenhum acorde parece ter sido desperdiçado, fica a impressão de que dança e música co-existem, Serenade foi feito para a música de Tchaicovsky (1840-1893) e é evidente que não existiria sem ela. Mas depois de ver Serenade no palco fica difícil imaginar que a música exista sem a coreografia. A iluminação azul e o figurino claro dialogam perfeitamente com a movimentação e são essenciais para fazer o mundo de Serenade existir. O balé tem uma dramaturgia inerente, cravada. E chega. Chegou em mim, chegou nas amigas que assistiram do meu lado, chegou até aos pré-adolescentes que não paravam de se mexer e conversar enquanto a São Paulo dançava Les Noces e que na metade de Serenade pareciam absorvidos.
A performance da São Paulo Companhia de Dança estava sublime. A movimentação rápida dos pés, as inclinações, a intenção de movimento, o vento de Balanchine estiveram muito dentro daqueles corpos que se organizavam no espaço e na música entre giros, saltos e braços de um jeito leve, deslizante, sutil e preciso.
A noite de ontem, pela riqueza da apresentação, me lembrou um poema inglês da época do romantismo, chamado A Flor Azul. Azul, como Serenade.
E se você dormisse? E se você sonhasse? E se em seu sonho você fosse ao paraíso e lá colhesse uma flor bela e estranha? E se, ao acordar, você tivesse a flor entre as mãos? Ah, e então?
Crítica de ANDRÉ LIBERATO
3 em 1

Que a SPCD é um projeto estridente, porém muito competente da secretaria de cultura do estado de São Paulo nós já sabíamos. Que Balanchine (1904-1983), russo de nascença radicado nos EUA, foi o grande inaugurador do neoclassicismo na dança nós também sabíamos. Que Joinville é o maior festival de dança do mundo segundo o próprio Guinness book, além de sabido, é também motivo de orgulho para todos nós que torcemos por uma dança mais disseminada e valorizada.

Bem, a soma de toda essa grandiosidade reunida deve servir para nos ensinar muitas coisas, uma delas, a que considero principal, é o caráter didático que Serenade imprime a um festival cujo carro-chefe ainda é o balé. Me explico melhor: assistir um clássico de Balanchine em Joinville é muito importante para que as diversas academias espalhadas pelos quatro cantos do Brasil, aqui reunidas, possam perceber um pouco da origem daquilo que estão fazendo, aprimorando, assim, seus próprios trabalhos. Afinal, Balanchine representa um divisor de águas na história do balé e, sem dúvida, é extremamente responsável pela visão que temos hoje da bailarina clássica.
Outro fator importante é a confirmação da possibilidade de termos no Brasil uma companhia clássica de alto nível técnico e investimento suficiente (que não é pouco) para manter essa qualidade.
Ainda que o projeto esbarre inevitavelmente numa tendência em supervalorizar os modelos estrangeiros, é inegável que o trabalho da SPCD tem se mostrado muito sério e capaz de elevar a dança ao status de maior prestígio na nossa sociedade.
Quanto ao trabalho em si, a obra de Balanchine me parece muito ousada quando vista imersa numa época em que o balé se apoiava em excesso nas narrativas lineares e nos recursos miméticos, mesmo considerando que o panorama americano, onde foi criada a obra, já se mostrava moderno desde as primeiras investidas de Lincoln Kirstein (1907-1996) na criação de um balé nacional.

A fruição estética de Serenade, apoiada na bela música de Tchaikovsky, e reforçada pela luz e figurinos nos leva a sonhar com a possibilidade de leveza daqueles corpos, numa tentativa de apreender seu espírito e trazê-lo para os tempos difíceis que vivemos. É claro que isso só é possível gaças a alta qualidade técnica dos bailarinos e do trabalho rigoroso de remontagem da obra.

Faço aqui um parênteses: a entrada do primeiro bailarino (a obra é um culto à figura feminina), o seu figurino e gestual diferenciado, quebra a construção cresente a que o espetáculo se encontrava no momento de sua entrada. Retomando a idéia de balé de ação de Noverre (1727-1810) que sugeria uma dança composta por inúmeros “quadros” em sequência, o novo que se estabelecia com a presença masculina contrapôs com o restante de tal maneira, como seria colocar uma Tarsila ao lado de um Iberê na mesma sala de exposição. No entanto, esse elemento não é grande o bastante para retirar a beleza e encantamento da obra.

É por tudo isso que considero o encontro entre a SPCD, Balanchine e Joinville de extrema valia para entendermos melhor esse ofício da dança que tanto amamos, mas que sofre com a ausência de conhecimento do passado que poderia auxiliar (e muito!) na construção de um caminho mais sábio no futuro.



Crítica de LEILA PATRÍCIA TORRES

Ousadia e leveza na Noite de Gala do Festival de Dança de Joinville



Como seria acompanhar um ensaio de bailarinos em sua rotina diária? a bailarina chegando atrasada, enxugando o suor ou protegendo seu rosto de uma fresta de luz? quem sabe até mesmo presenciar a queda de uma bailarina
no ensaio? Todos esses elementos, que passam às vezes despercebidos pelo público, estão diluídos em Serenade que retrata cada movimento com muita poesia e leveza.

Serenade é de autoria do coreógrafo George de Balanchine (1904 - 1984), e música de Tchaikvisky (1840 - 1893), a coreografia foi criada inicialmente para os alunos da School of American Ballet, e partiu de exercícios que tinham a intenção de mostrar aos alunos a diferença entre o bailado em sala de aula e a dança no palco. Serenade teve sua primeira apresentação em 1934 com alunos da escola, e sua estréia profissional deu-se em março de 1935.

Serenade não possui cenário ou objetos cênicos, apenas a luz azul que cria uma atmosfera atemporal e celestial. O figurino é simples, de saias longas de tule que trazem a estética do ballet romântico. A apresentação
de Serenade na Noite de Gala foi marcada pela ousadia tanto pela grandeza do espetáculo ser encenado por jovens bailarinos quanto pela própria São Paulo Companhia de Dança que também é muito jovem, foi lançada em janeiro de 2008, pela Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, a direção artística é de Iracy Cardoso e Inês Bogéa.

A SPCD montou o espetáculo com a ajuda do professor belga Ben Huys, indicado pelo Balanchine Trust que ensinou a coreografia original aos bailarinos: os movimentos, a colocação de cada um no espaço do palco, a
musicalidade e as intenções dramáticas. Enfim, a beleza do espetáculo impressiona pela simplicidade e leveza, saímos do espetáculo leves e felizes em saber que ainda se investe recursos financeiros e apoio governamental ao clássico.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

No aquecimento

Crédito: Agência Espetaculum
Legenda: ‘Alice’, espetáculo apresentado pelo grupo Gaia no ano passado, em Joinville

Marcela Benvegnu

O mês de julho ainda parece estar longe, para aqueles que esperam fevereiro chegar para curtir o Carnaval. Porém, os bailarinos interessados em participar das mostras competitivas do 27º Festival de Dança de Joinville, que será realizado de 15 a 25 de julho, em Joinville, já precisam calçar as sapatilhas. Sim, porque o envio de material e o cadastro de projetos já começou, e como todo mundo sabe, um trabalho mal ensaiado, sem proposta, ou mesmo fora dos padrões, não é aprovado para o evento.
Na Mostra de Dança Contemporânea podem participar companhias profissionais de dança de todo o país ou do exterior, com trabalhos inéditos, ou não. A mostra também tem o objetivo de valorizar e difundir trabalhos de artistas, grupos e companhias profissionais de dança, enfatizando a diversidade de linguagens e perspectivas de criação e pesquisa na produção contemporânea. A programação é composta por espetáculos e workshops destinados a coreógrafos e bailarinos inscritos nos demais eventos do festival. Porém, aqueles que quiserem enviar seus trabalhos, tem que correr. As inscrições terminam no dia 2 de fevereiro.
A escolha dos projetos que integrarão a mostra será realizada em fevereiro pelo Conselho Artístico do Festival, formado por Airton Tomazzoni (RS), Eliana Caminada (RJ), Sandra Meyer (SC) e Sueli Machado (MG), com a participação de jurados convidados.
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PALCO PRINCIPAL — A verdadeira vedete dos bailarinos que participam do Festival de Dança é o palco do Centreventos Cau Hansen, que recebe a mostra competitiva nos estilos do balé clássico de repertório, balé clássico, dança contemporânea, jazz dance, dança de rua, danças populares e sapateado. O regulamento para o envio do material dos grupos — e isso inclui o Festival Meia Ponta, para crianças — já está disponível no site do evento (festivaldedanca.com.br) e os grupos têm até 30 de março para preencher o formulário e encaminhar os trabalhos para a seleção. O documento oficial para a inscrição, seletiva e, depois, para o festival, é o RG ou o passaporte, no caso de bailarinos estrangeiros.
A principal novidade este ano é que os bailarinos poderão acompanhar cada etapa do processo de inscrição pela internet, o que permite corrigir a tempo eventuais problemas e evitar a desclassificação. Outro diferencial é que a partir deste ano, só serão aceitos trabalhos gravados em DVD. A orientação da coordenação do festival é que os responsáveis pelos grupos fiquem atentos às exigências do regulamento. Pequenos detalhes podem ser motivo de desclassificação do grupo.
Um fator importante é que as coreografias inscritas na mostra competitiva, ou no Festival Meia Ponta, também podem ser avaliadas para participar dos Palcos Abertos. Para isso, basta o responsável pelo grupo informar na ficha de inscrição que há esse interesse.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Metro quadrado que dança

na foto: Tatiana Leskova e alunos da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil

Marcela Benvegnu

O Festival de Dança de Joinville terminou há pouco mais de 20 dias. Muito se ouviu e leu sobre os grupos premiados, companhias com propostas inovadoras, bailarinos que se revelaram. A mídia deu grande destaque para todos esses assuntos, porém, pouco se leu sobre os bastidores, sobre as pessoas que realmente fazem acontecer e, sobretudo, sobre os grandes nomes da dança que passam dias ministrando aulas para uma nova geração.
Eles estão por todos os lados, mas se encontram mesmo nas festas, que acontecem depois da Noite de Abertura, da Noite de Gala, ou da Noite dos Campeões. Esse ano, na celebração pós- Noite de Gala — depois da apresentação do “Dom Quixote”, com a Escola do Teatro Bolshoi no Brasil e os solistas russos — oferecida pelo governador Luiz Henrique da Silveira, alguns desses nomes estiveram presentes.
Nas festas é que se encontra o metro quadrado mais dançante do festival. Isso porque os nomes não vivem soltos por aí. Um exemplo é Tatiana Leskova, 88, figura a parte na história da dança brasileira. Carinhosamente chamada de Dona Tânia, ela anda pelo corredores do Centreventos Cau Hansen como se estivesse em uma Olimpíada. Seus passos rápidos, são assim como sua voz. Ela fala o que pensa, a hora que quer independente se isso agrade ou não às pessoas. Autêntica e divertida. Vale a pena observá-la.
Mais do que acessível é Sylvio Lemgruber, coreógrafo do Dança dos Famosos e do balé do Faustão. Lemgruber prova com poucas palavras que todos podem dançar e que ele faz isso por amor. Nos dois últimos anos ele foi a Joinville para dar aula nos Palcos Abertos, e com o trabalho de popularização em dança, fez uma multidão de fãs e novos adeptos.
Pelo encontro também é possível ver uma Silvia Soter — crítica de dança de O Globo — solta e se deliciando com os hits da banda convidada. Roberto Pereira, crítico do Jornal do Brasil, conversa com um, com outro. Seu olhares não perdem nada. Imprescindível lembrar de Kika Sampaio e Christiane Matallo, uma dupla forte e imbatível do sapateado; Caio Nunes e Fernanda Batah Chamma, com a efervescência do jazzdance; Boris Storojikov e seu balé russo impecável, e outros.
Há dois anos toda a imprensa do festival era convidada para o ‘meeting’. Desde o ano passado o encontro passa perto do segredo. Convidados fingem que não são convidados. Quem sabe da festa e não foi convidado, finge que ela não acontece. Inexplicável essa seleção mais do que seleta. Vale dizer que em anos anteriores a ‘nata da dança’ comparecia em mais peso, porém, mesmo com esses percalços, o reduto de convidados ainda torna o evento o metro quadrado mais dançante (e importante) do país.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

A gala de Natalia Osipova

Crédito: Amir Sfair Filho

Marcela Benvegnu
De Joinville


Dança não é uma questão de gosto. Talvez de técnica, ou mesmo estética. Seu caminho não passa (e não deve passar) pelo “eu gosto”, “eu não gosto”, “eu acho”. Esse não é o papel dos críticos. O papel desses profissionais é o de fazer o próprio sentido da crítica, quebrar a obra em pedaços e apontar novos e claros caminhos. Esse nariz de cera (termo denominado pelos editores para dizer o que não é preciso dizer) se torna necessário aqui. Isso porque depois da apresentação da grande suíte do balé de repertório “Dom Quixote” (1869), de Marius Petipa na Noite de Gala, do 26º Festival de Dança de Joinville muito “se achou” da montagem.

Com remontagem de Valdimir Vasiliev — bailarino do século pela Unesco — a história do balé, um dos mais famosos do mundo, se passa na Espanha, quando Kitri e Basílio enganam o arrogante e rico Gamach, noivo da heroína, com quem Lorenzo, seu pai, a força se casar. Com a ajuda de Dom Quixote, nobre cavalheiro, e Sancho Pança, seu fiel escudeiro, Kitri e Basílio se casam numa grande festa em Barcelona.

Natalia Osipova e Andrey Bolotin, primeiros solistas do Teatro Bolshoi de Moscou foram os protagonistas da noite, interpretando respectivamente, Kitri e Basílio. O entrosamento da dupla nos pas-de-deux (no programa grafado errado como pás-de-deux) era nítido. Ele dono de uma técnica de pés e giros chama atenção ao lado de intérpretes brasileiros que são submetidos ao mesmo programa de ensino: o método Vaganova. Isso porque é russo, tem corpo russo, alimentação e cultura daquele país. Aqui, temos um corpo brasileiro adaptado à técnica russa. Não e nunca seremos iguais.

Natalia é uma excelente intérprete, dona de uma técnica particular para seus poucos 21 anos. Os prêmios e medalhas em festivais internacionais justificam isso. Em cena ela dá show quando é hora de girar. Foram 21 piruetas descendo o palco em diagonal e o mesmo número de fouetés duplos, sendo que cinco foram triplos. Sua pouca idade também é percebida na interpretação. Sua Kitri tem feições de adolescente, mas isso não a faz perder o vigor. Vigor ela tem de sobra. Parece que a música espera seus movimentos serem executados e não ao contrário.

A dupla é um assunto à parte da noite de gala. O espetáculo contou também com a participação de alunos, ex-alunos, professores e da Companhia Jovem da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil. Antes de qualquer citação é bem lembrar que eles são uma escola e não podem ser julgados por aquilo que não são. Eles não são profissionais. E assim foi o espetáculo. Uma escola se apresentando na Noite de Gala, que já recebeu em seu palco grandes estrelas. A turma estava bem ensaiada, impecáveis, na verdade. Mas nada que fuja dos padrões. Nada que a platéia já não tenha visto. O colírio fica por conta de Yasmim de Almeida, que interpretou Mercedes, e de Stephanine Ricciardi, que foi a rainha das Dríades. Talentos promissores, de uma escola que tem como missão projetá-los.

O cenário da montagem também chamou atenção. Em tons pastéis e com figuras aquareladas, se destacou em meio aos cenários convencionais de "Dom Quixote" que se está acostumado a ver. Bom gosto.

Os figurinos também poderiam ter dado mais ao balé. Mais brilho poderia enriquecer a peça e valorizar algumas cenas. A parte em que as crianças se apresentam poderia ter sido suprimida ou mesmo diminuída tendo em vista que era uma suíte – uma grande suíte de 1h40 – totalmente remodelada. Afinal Noite de Gala, tem que ser de gala do começo ao fim.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

A grande força de ‘Quixote’

Crédito: M. Logvinov
Natalia Osipova e Ivan Vasiliev em ‘Dom Quixote’

Marcela Benvegnu


Bolshoi quer dizer grande e grande espera-se que seja a Noite de Gala do 26º Festival de Dança de Joinville, no dia 20 de julho, quando sobe ao palco do Centreventos Cau Hansen, Natalia Osipova e Ivan Vasiliev, primeiros solistas do Teatro Bolshoi de Moscou, para interpretarem a grande suíte do balé de repertório “Dom Quixote” (1869). Em cena também estarão alunos, formandos do ano de 2007, professores e bailarinos da Cia. Jovem da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil (ETBB). A edição do evento acontece entre os dias 16 e 26 de julho.

A história do balé, um dos mais famosos do mundo, se passa na Espanha, quando Kitri e Basílio enganam o arrogante e rico Gamach, noivo da heroína, com quem Lorenzo, seu pai, a força se casar. Com a ajuda de Dom Quixote, nobre cavalheiro, e Sancho Pança, seu fiel escudeiro, Kitri e Basílio se casam numa grande festa em Barcelona.

Com remontagem de Valdimir Vasiliev — reconhecido como o melhor bailarino do mundo, título concedido pela Academia de Dança de Paris, e bailarino do século pela Unesco — o “Dom Quixote” que os intérpretes executam será fiel à remontagem original de Marius Petipa. Em entrevista exclusiva ao Jornal de Piracicaba no ano passado, Vasiliev disse que não ensinou aos estudantes apenas os detalhes técnicos dessa ou aquela cena do balé, mas também deu a cada um papel de ator, explicando as personagens que deveriam representar ali. O coreógrafo trabalhou na montagem no ano passado, em Joinville.

Para acompanhar e dirigir o espetáculo em Joinville vem ao Brasil a ex-solista do Teatro Bolshoi, Nina Speranskaya, que se despediu dos palcos em Joinville, no ano de 2001, quando dançou “A Morte do Cisne”. Nina foi professora da ETBB.

SOLISTAS — Assim como na noite de abertura do evento (dia 16) os olhos estarão voltados para a linda solista Cecília Kerche, na interpretação de Odile/Odete em “O Lago dos Cisnes”, pelo Theatro Municipal do Rio de Janeiro, na Noite de Gala não será diferente: o foco da platéia de mais de 5.000 pessoas cai sobre os solistas Natalia e Vasiliev. Natalia, bailarina de traços delicados e força expressiva, se formou na Escola Coreográfica de Moscou, e é a primeira solista do Teatro Bolshoi. Este ano ganhou o prêmio de melhor bailarina do National Dance Awards Critics Circle e entre seus principais papéis destacam-se as personagens título de “Cinderela”, “Giselle”, “Sílfide”, além de Gamzatti, em “La Bayadère”, e Kitri em “Dom Quixote”.

Vasiliev iniciou seus estudos de balé em Dnepropetrovsk, na Ucrânia, e concluiu em Minsk, capital da Bielorússia. Está no Teatro Bolshoi desde 2006. Entre seus prêmios estão o Grand Prix em Varna, em 2006, e o Prêmio Spotlight Award, em 2008. Algumas de suas melhores atuações foram como o Ídolo de Ouro, de “La Bayadère”; Colas, de “La Fille Mal Gardeé”, e Basílio, de “Dom Quixote”. Mais informações www.festivaldedanca.com.br.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Jubileu equilibrado


Marcela Benvegnu

De um passo de formiga surgiu um grande império. Assim podemos chamar o Festival de Dança de Joinville, um evento feito em sua maioria por alunos de escolas de todo o Brasil e mundo, que esperam as férias de julho para poderem respirar a arte da dança. Ainda bem que isso existe e é possível acontecer em um país como o nosso, onde as injustiças e desigualdades estão tão evidentes.
Em seu Jubileu de Prata seria impossível não destacar como os grandes trunfos da 25ª edição: a Noite de Abertura e a Noite de Gala. Assistir a performance de Mikhail Barysnikov com a sua Hell´s Kitchen Dance, em “Years Later”, de Benjamim Millipied e “Come In”, de Aszure Barton foi um grande privilégio. As negociações que duraram mais de dois anos valeram à pena.
Unir talentos que já passaram pelo festival e hoje dançam em companhias internacionais foi outra empreitada - assinada pelo talentoso João Wlamir, do Theatro Municipal do Rio de Janeiro - , que deu certo, para abrilhantar a Noite de Gala. Mesmo com o caos aéreo que se instala no país, tudo deu certo.
O nível coreográfico desta edição esteve equilibrado. Excelentes trabalhos de dança contemporânea e sapateado contrastaram com coreografias de jazz insustentáveis. Não houve muitas surpresas – a não ser o bailarino Carlos Wellington Bezerra Gomes, de longe o mais completo desta edição.
Pena que os Seminários em Dança, uma proposta nova e interessante não aguçou a vontade de muitos bailarinos. As conferências e ocorrências dos três dias de duração, nos quais se apresentaram diversos pesquisadores proporcionou a pouco mais de 70 pessoas, uma reflexão sobre o que é pensar a dança, sua memória, história e movimento. Que este seja o primeiro, de muitos outros seminários. Nele se revela uma função do festival, informar para formar. O primeiro passo já foi dado, no ano que vem tudo estará caminhando, ou melhor, dançando. Que julho chegue rápido novamente.

Que jazz é esse?


Marcela Benvegnu

Apesar de na noite competitiva de quinta-feira, os locutores não terem explicado o significado do estilo do jazz dance, que concorria na categoria conjunto sênior e júnior e dividiu a noite com o balé clássico de repertório (variação feminina sênior, masculina avançada e conjunto avançada) é preciso começar por aqui. Pois a definição desta forma de dança, talvez seja capaz de clarear o olhar do espectador.
A expressão jazz dance nos remete a imagens de ritmos, bamboleios, corpos livres e improvisações de extrema liberdade. É uma dança negra que com o passar do tempo começou a se adaptar às características técnicas conhecidas na época derivadas dos bailes africanos e já modificadas pelos brancos. O jazz tem como principais características uma dança que usa o isolamento de partes do corpo que se movem separadamente seguindo o mesmo ritmo – swing-; movimentos rítmicos sincopados; uso da polirritmia - combinação do corpo em vários ritmos diferentes e o uso correto do centro de gravidade deste corpo que dança.
A noite foi pontuada por trabalhos interessantes, como “Dream Girls”, de Fernanda Araújo, para o Laboratório da Dança de Santa Bárbara D´Oeste. Seu cenário – que ainda bem que fugiu das saias e panos – foram quatro espelhos, que dançavam com as bailarinas (que usavam sapatos de salto, estilo chorus line) e que eram multiplicadas em cena. “Um Cangaço Diferente”, de Iolanda Hanh, de Camboriu, para o Grupo de Dança Kaiorra também inovou. Ao som de uma colagem musical com Elba Ramalho e Zé Ramalho o grupo estava muito bem ensaiado e eles foram capazes de dançar até sentados em uma escada.
Não há como negar que a noite de anteontem foi melhor do que quando as coreografias da categoria avançada se apresentaram, mas o jazz ainda pode muito mais. O estilo sempre emocionou o público do Festival de Dança de Joinville, sempre fez o coração das pessoas baterem mais forte, mas isso não vem acontecendo este ano. Vale a pena refletir sobre que jazz é esse para a próxima edição.
Na outra bateria, o balé clássico de repertório, se viu trabalhos virtuosos, porém, como haviam muitos trabalhos selecionados, a primeira parte da competição foi muito longa e contabilizou 2h20 de duração. Quando começou a bateria dos conjuntos – a mais longa de todas – o público já estava cansado e com frio, tanto que muitas pessoas foram embora durante o intervalo. Mas entre “congelados” e cansados foi possível aplaudir a Companhia do Conservatório (RJ), uma das mais premiadas nesta edição do festival, com a impecável “Raymonda”, de Marius Petipa (1822-1910), remontada por Jorge Teixeira. O grupo que concorreu na categoria conjunto avançada tinha um cenário bem adaptado, intérpretes sintonizados e uma solista pra lá de exuberante.

No ritmo do popular


Marcela Benvegnu

O musicólogo e pesquisador de danças populares, o argentino Carlos Veja disse certa vez que “nada é mais universal que o folclore; nada mais regional que o folclore”. De fato ele tinha razão. É no folclore e na particularidade de cada movimento, figurino ou música de dança popular, que as tradições aparecem e dialogam com a contemporaneidade. Na noite de quarta-feira, que compreendeu na primeira parte as competições de balé clássico (duo júnior e sênior, solo feminino sênior, solo masculino, trio e conjunto avançado) e na segunda parte, trabalhos de danças populares (conjunto júnior e sênior) foram elas que inovaram.
De longe o melhor da noite na bateria foi o de Joinville (SC), com a coreografia “A Rússia Aos Nossos Olhos”, de Liliana Vieira Körn. Ao som de “Night on Bald Mountain”, de Modest Mussorgshy, o grupo formado por 25 meninas revelou uma sincronia de movimentos perfeita. Não havia diferenças de movimento entre nenhuma bailarina e o figurino, em tons de vermelho e branco, levou ao palco um brilho maior.
O Grupo de Dança da Academia Corpo Livre foi um dos que também recebeu uma menção honrosa, com “Joinville Nossa História, Nossa Dança”, também de Liliana no Festival Meia Ponta, anteontem. Vale dizer que o grupo só apresentou trabalhos bem ensaiados e com uma pesquisa coreográfica interessante, que preza pela popularização das danças que já trazem esse nome.
O gênero tem origens diversas. Mas o essencial é que o corpo brasileiro, com a sua forma de dançar, musicar e, sobretudo, coreografar lhe confere traços singulares. Sob composição de Ronan Hardman denominada “The Celtic Tiger”, a Academia Sheila´s Ballet mostrou essas características. Com “New Irish”, de Helga e Sheila Santos, a escola de Piedade (SP) fez jus ao título de seu trabalho e levou ao palco do Centreventos Cau Hansen intérpretes que abusaram da sincronicidade. Vestidas com roupas pretas – cada uma usava um modelo diferente – que se assemelhavam aos punks modernos, o grupo foi capaz de apresentar uma versão diferente daquilo que sempre vimos como Irish Step Dancing, mais conhecido como sapateado irlandês.
Em noite de balé clássico muitas coreografias destoavam da categoria, era uma dança moderna aqui, muita dança contemporânea acolá. Porém, o que era mesmo balé clássico feito com muita criatividade foi “Shishumki – Mudança de Vida”, solo de Jean Alex, para a pequena Yumi Hayasaka. Dançando com dois leques vermelhos, a bailarina foi muito bem trabalhada por Alex, que soube usar qualidades como, sua bela linha de pernas e pés bem trabalhos, a favor da coreografia.
Na bateria de balé clássico conjunto categoria avançada se apresentaram nove escolas. É possível pontuar excelentes peças como, “Vozes da Primevera”, de Henrique Talma com remontagem de Jorge Teixeira para a Companhia do Conservatório do Rio de Janeiro, que mostrou um elenco bem entrosado e o Ballet Aracy de Almeida, com “All Blue”, também de Alex, que além de ter marcado o cenário da dança brasileira com sua interpretação de “Caminho da Seda”, de Roseli Rodrigues se mostra um coreógrafo maduro, a altura do Raça Cia. de Dança de São Paulo, que o projetou.
Outro trabalho marcante foi, “Os Coringas”, de Renata Pacheco. Executado pelo Balé da Cidade de Santos, o que se viu, já era esperado. O numeroso elenco – 17 bailarinas – pareciam um único corpo em cena tamanha perfeição de seus movimentos. O figurino típico de um coringa deixou o palco colorido e a montagem de Renata foi tão bem estruturada que quase não se percebeu que a música era uma das mais famosas do repertório de “La Bayadere”, do russo Leon Minkus (1826-1917).

Corpo aprisionado


Marcela Benvegnu

A história de Sebastiana de Mello Freire, conhecida como dona Yayá, mulher da elite paulistana diagnosticada como doente mental e cuja casa foi parcialmente transformada em hospital psiquiátrico privado - pois ela permaneceu isolada no recinto de 1919 a 1961 – é retratada de forma muito pertinente em, “O Banho” (2004), pela bailarina e coreógrafa Marta Soares, do Marta Soares - Grupo de Dança Teatro, de São Paulo.
O trabalho apresentado na Cidadela Cultural Antartica, na segunda-feira, integrou a última apresentação da Mostra de Dança Contemporânea do Festival de Dança de Joinville, tendo em vista que o espetáculo da Cia. Borelli, que deveria ter se apresentado ontem, foi cancelado.
“O Banho” é uma instalação coreográfica. Assim que os espectadores entram no espaço proposto com uma série de projeções em movimento, que foram gravadas na casa de dona Yayá, em São Paulo e enfatizam o reflexo do corpo e da memória, percebem que são transportados para outra atmosfera. Uma banheira branca antiga, cheia de água quente é o foco do trabalho. É dentro dela que Marta desenvolve sua pesquisa.
A coreografia não é vista de forma convencional, pois não existem cadeiras. Nos primeiros minutos da apresentação, ninguém ousa se aproximar de seu corpo nu, porém, aos poucos, quando todos já sentem o confinamento, a relação se transforma. As pessoas quase grudadas na banheira refletem juntas sobre a passagem do tempo, a vida e a morte.
O corpo de Marta imerso na banheira delira, se fere, se comprime, se revolta e tenta se libertar de uma história própria. É interessante notar que no chão, as marcas dos sapatos em contato com a água traçam caminhos que desenham novas possibilidades de exploração. “O Banho”, pela própria função da arte, causa à primeira vista estranhamento, mas depois, se consolida como uma grande obra.


A vez das placas de metal


Marcela Benvegnu

Na noite fria (e chuvosa) de quarta-feira, quem subiu ao palco do Centreventos Cau Hansen para se apresentar nas baterias de sapateado (júnior, sênior e avançado) e balé clássico de repertório (variação feminina júnior e grand pas-de-deux avançado) na Noite Competitiva pode se esquentar. Os aplausos foram calorosos e as coreografias, parecem ter atingido o ápice da competição.
No sapateado, também conhecido como tap dance a noite foi da estreante Companhia Feeling de Dança, de São José dos Campos, com a coreografia “Breaking Rules”, de Charles Renato, que tem história no festival, mas esse ano resolveu apostar trazendo sua própria escola. A ousadia deu certo. Ao som de “Heartburn” de Alicia Keys o trabalho inserido na categoria avançada, propõe um bom duelo de sapateadores e trabalha muito bem a técnica e não só a plasticidade cênica.
Renato tem uma característica forte e expressiva, que já pôde ser vista em trabalhos anteriores. Mas é interessante observar como o jovem se insere no contexto do trabalho como coreógrafo-intérprete. Em cena ele se coloca no mesmo nível e posição que seus alunos, ninguém tem uma importância maior no palco do que o resultado. Um excelente caminho para mais uma trajetória de sucesso.
Ainda no avançado o Studio de Sapateado Juliana Garcia (Ribeirão Preto), de Juliana Garcia trouxe novamente a música brasileira ao palco do Centreventos. Em cena “Pentagrama”, assinado pela própria Juliana, revela a delicadeza de “Garota de Ipanema”, de Vinícius de Moraes e Tom Jobim por meio de intérpretes que sapateiam entre elásticos brancos que fazem referência direta a pentagrama da partitura musical.
Outro trabalho interessante e da categoria júnior, foi “De Volta aos Anos 70”, de Vera Passos. O cenário com fotos da próprias alunas que revelaram um figurino típico de época e um bom nível técnico a fizeram a melhor da categoria.
Os trabalhos foram bons, porém, há alguma ressalvas. “Happy Feet”, que não precisa de apresentações, não é um filme que traz grandes surpresas musicais. Mano, o pingüim sapateador dá vida às canções do filme porque atrás de sua doçura está Savion Glover, um dos maiores sapateadores da atualidade. Talvez fosse mais interessante deixar essas composições para a interpretação de Mano (Mumble ou Glover, como preferirem). A repetição cansa e é preciso criar.
Outro ponto importante é rever o nome de alguns trabalhos. Em certas coreografias não se faz referência ao título proposto com o que se vê em cena. Mais difícil ainda é quando nem o nome da coreografia tem relação direta com o figurino. Apesar da noite ser do jeans e da legging, presente na maioria das montagens, esse trabalho de junção de linguagens, uma conversa entre, título, figurino e movimentação não aconteceu de forma muito entrosada.
Na noite que também foi dos clássicos de repertório e da chuva, pois haviam goteiras no palco, o Balé Jovem do Centro Cultural Gustav Ritter, de Goiânia, apresentou “Grand Pas Classic”, de Gsovsky, sem decepcionar. Os bailarinos Dhaniel Amaral Vieira Barros e Marília Cardoso Lício estava entrosados e ela, dona de uma boa técnica de sustentação mostrou como os ensaios valeram à pena.
Porém a noite foi de “Talismã”, de Marius Petipa (1822-1910), com remontagem de Jorge Teixiera para a Companhia do Conservatório, do Rio de Janeiro. Os bailarinos Flávia Gomes de Oliveira e Carlos Wellington Bezerra Gomes foram impecáveis. Flávia trouxe ao palco a leveza desta montagem de Petipa, com braços delicados, pernas altas e alongadas e excelente interpretação. Gomes levou o público ao delírio. Além de não errar nenhum dos mais de 35 giros que executou com perfeição, se mostrou um partner competente que dá segurança a bailarina. De fato, uma noite memorável.

Movimento nas palavras


Marcela Benvegnu


Poesia, dança e romance. Assim é “Tudo O Que Se Espera”, coreografia do talentoso Clébio de Oliveira – também integrante da Cia. de Dança Débora Colker, do Rio de Janeiro – para a companhia que leva seu nome e que foi apresentada na terceira noite da Mostra de Dança Contemporânea do Festival de Dança de Joinville, no Teatro Juarez Machado, no domingo.
O trabalho, livremente inspirado no romance “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos começa ao passo que os espectadores procuram seus lugares no teatro. Em cena quatro bailarinas se locomovem ao som do acordeon tocado ao vivo pelo instrumentista Antônio Fidélis em um palco coberto por 10 mil folhas sulfite brancas, que fazem o papel das cartas recebidas e das que jamais foram escritas por Ramos. O movimento das palavras em silêncio, revela a espera, a saudade e os destinos incertos.
A movimentação é delicada e ao mesmo tempo precisa. Sutilezas como o toque de um pé em outro para que as bailarinas caminhem no tempo correto, ou uma respiração que marca o início de uma nova seqüência deixa o trabalho mais poético. Sua relação fragmentada e interdependente, mescla a dança contemporânea com as danças brasileiras, ao som de composições de Sivuca, Comadre Florzinha, Quinteto Armonial e outras.
“Tudo O Que Se Espera” foi premiada como a melhor coreografia de 2006 em votação online no “Jornal do Brasil” (RJ) e deixa claro, que Oliveira, bem sucedido em solos autorais como “Uma Barata Só Faz Verão” (2001) e “Valkíria Junia da Silva”, (2002), encontrou sua própria identidade coreográfica.

A “boa” fúria da platéia


Marcela Benvegnu


As poltronas tremeram. O coração acelerou e o público gritou tanto, que quase não se ouviu o anúncio dos trabalhos de dança de rua conjunto avançada que iriam se apresentar no palco do Centreventos Cau Hansen, na noite de domingo. Essa era a atmosfera do espaço, afinal, foi à vez da dança da sincronia, da emoção, do ritmo e das batidas entrar em cena. No palco: a rua de diversas maneiras; cada uma com sua marca, explosão e vontade de mostrar a cara de sua tribo. Sabe-se que a dança de rua é uma manifestação que surgiu na época da grande crise econômica dos Estados Unidos, em meados de 1929, quando os músicos e dançarinos que trabalhavam nos cabarés ficaram desempregados e foram para as ruas fazer seus shows. No Brasil, esse movimento foi popularizado em 1991, pelo Dança de Rua do Brasil, de Santos, e de lá para cá, só se vê progresso, inovação e conceito. De fato, dançar vem sendo um verbo bem conjugado por essas trupes.
Na noite de domingo, os trabalhos "da terra", como "Enquanto Houver Dança Haverá Esperança", de Juliana Ramos, da Companhia Joinvillense de Dança de Rua e "Raízes", de Nilberto Lima de Souza, do grupo Fúria das Ruas, ambos de Joinville (SC), foram os mais aplaudidos da noite. Não foi à toa. Juliana levou ao palco uma boa pesquisa de movimentos e figurinos - os intérpretes usavam meias listradas da cor da blusa - que fazia bem aos olhos. (Só não valeu uma intérprete arrumar os cabelos em cena.)
Souza inovou no cenário. No lugar dos usuais grafites, "Raízes" apresentou como pano de fundo uma paisagem urbana em tons pastéis que se assemelhava às ruas do subúrbio de Nova York. Em meio aos prédios e pontes, uma placa indicava um bailarino em movimento; ali era o espaço da dança. Uma forma inteligente de abordar a contemporaneidade aliada a seqüências bem trabalhas que priorizaram sincronia e velocidade.
Vale dizer que os trabalhos de dança de rua apresentados na segunda parte da noite fizeram com que o Centreventos ficasse lotado mesmo com a chuva que caia na cidade. Só havia espaço para aplausos e flashes. Infelizmente, na primeira parte da competição destinada às apresentações das coreografias de dança contemporânea, (solo feminino e duo sênior, solo feminino e trio avançado) centenas de cadeiras ficaram vazias. Onde estava o público?
O coreógrafo Ricardo Sheir, com “Não Existe o Lugar...”, pelo Grupo Corpo Livre, de Valinhos (SP), na categoria de dança contemporânea trio avançada, mostrou um trabalho que usou muito bem o espaço cênico do palco e tem em seu contexto uma poética evidente. O mesmo aconteceu com, “Sussuros”, da Cia de Dança do Teatro Alberto Maranhão, de Natal (RN), assinada pelo coreógrafo-intérprete Tomás Quaresma. Contudo, não foi uma noite de grandes surpresas no gênero. Tomara que para 2008, alguns professores pesquisem mais sobre o verdadeiro sentido da dança contemporânea, que vai muito, mais muito além de uma seqüência de aulas transformada em pseudocoreografia com trilha sonora impactante.


Sonho consagrado


Marcela Benvegnu


Sonho, em seu sentido etimológico é um conjunto de idéias, imagens, fantasia, visão e aspiração; um substantivo perfeito para definir a Noite de Gala do 25º Festival de Dança de Joinville, que em 2007 completa seu Jubileu de Prata, com cara de ouro. A noite foi de estrelas de primeira grandeza, que marcaram o palco do festival em sua história e hoje levam a dança brasileira para o mundo.
Digirida por João Wlamir, diretor assistente do Balé do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, “Especial 25 anos – Grandes Nomes da Dança” cumpriu seu propósito. Emocionou uma platéia que emudecida, pôde sonhar acordada o filme da vida real de um bailarino.
Ao som do hino do festival, que dispensa apresentações, Cícero Gomes, melhor bailarino da 23ª edição do Festival e solista do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, entra pela platéia, vestido com um uniforme de escola balé – esses que os bailarinos andam pela Feira da Sapatilha - para dar início ao espetáculo. A cortina se abre e uma sombra chinesa revela-os se aquecendo. Daí, não se poupam emoções.
Ammanda Rosa e Irlan Santos, considerados os melhores bailarinos do festival no ano passado abriram a noite com “Chamas de Paris”, seguidos de Mariana Dias, solista do corpo de baile do Leipzig Ballet, da Alemanha, acompanhada de seu partner Martin Chaix com “Au’ Revoir à L’Amour”, de Chaix; Fernanda Oliveira, que hoje é bailarina principal do English Nacional Ballet, de Londres e Fabian Raimair, executaram “Perpetuum Mobile”, de Christopher Hampson, ao som de Sebastian Bach.
Para fechar a primeira parte do programa, a suíte de “O Corsário”, com “Le Jardim Animée”, ficou a cargo da Escola Estadual de Danças Maria Olenewa e o grand pas-de-deux foi intepretado por Márcia Jacqueline (primeira bailarina do Theatro Municipal do RJ) e Bruno Rocha, solista do Het Nacionale Ballet, de Amsterdam.
A hora do intervalo, não valeu somente para a platéia. Ele também aconteceu no palco. Pela sombra chinesa era possível ver Gomes, que tem diversas entradas durante o espetáculo com o hino do festival executado ao piano, se maquiando; o palco sendo limpo e montado pela técnica. É a dança da rotina, que recomeça quando Gomes executa a variação do Bobo da Corte de, “O Lago dos Cisnes”.
Em “LAC”, um pas-de-deux, que também faz referência à “O Lago dos Cisnes”, na releitura de Sandro Borelli, os bailarinos Andrea Thomioka e Israel Alves, ambos do Balé da Cidade de São Paulo, revelam a dança contemporânea ao espectador. E em noite de festa, a Escola do Teatro Bolshoi no Brasil não poderia deixar de estar. Eles apresentaram, “Dança Russa” (de “O Quebra-Nozes), com Carla Braum, Denise Hoefle e Erick Swolkin.
Rodrigo Guzmán e Andreza Randisek, primeiros bailarinos do Balé de Santiago, do Chile trouxeram a suíte de “A Megera Domada” ao palco, antecedendo o pas-de-deux de, “Adão e Eva”, em “A Criação” – interpretado na íntegra pelo Ballet do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, na abertura do Festival do ano passado – com coreografia de Uwe Scholz, por Mariana e Chaix.
A consagração atinge o ápice com William Pedro, solista do Béjart Ballet Lausanne, na Suíça, em “Und So Weiter”, de Maurice Béjart e com Vitor Luiz e a impecável Cecília Kerche, ambos primeiros bailarinos do Municipal do RJ, na suíte de “Dom Quixote”. É inegável dizer que dançar no palco do Festival de Dança de Joinville é um sonho realizado para centenas de bailarinos que passaram aqui durante esses 25 anos. Hoje, voltar como convidado em uma data tão especial é a pura consagração.


A margem da luz


Marcela Benvegnu


Foi o conto “A Terceira Margem do Rio”, do mineiro Guimarães Rosa, que serviu de inspiração para o talentoso Renato Vieira – que está completando 35 anos de carreira este ano - criar, “Terceira Margem”, coreografia que foi apresentada na noite de sábado, na Mostra de Dança Contemporânea do Festival de Dança de Joinville, pela Renato Vieira Companhia de Dança, do Rio de Janeiro.
Contemplado com o Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna, o trabalho tem a luz como fio condutor do movimento. O design assinado por Binho Schaefer direciona, conversa, oculta e ilumina o bailarino. É a luz quem transforma o ambiente, molda o rio, cria a atmosfera de um silêncio que se perde no movimento e permite que tudo aconteça em um lugar onde não é lugar e onde um homem embarcou em uma canoa que ele mesmo construiu.
A movimentação é plástica e revela formas interessantes de explorar o corpo, assim como os figurinos assinados por Desirée Bastos e os espaços do cenário idealizado por Sergio Marimba. De um lado do palco uma parede negra - que em uma determinada cena serve de chão para os bailarinos - com quatro luzes embutidas fecha as coxias, de outro, o espaço vazio e ao fundo da caixa preta, cinco portas, sendo uma de cada tamanho por onde os bailarinos aparecem e desaparecem de cena.
A cada entrada uma surpresa. A cada mudança de luz, um novo movimento feito pela trupe formada por Alex Senna, Soraya Bastos, Jean Gama, Laura Ávila e Thiago Sancho, que dançam sim em alguns momentos, “sua própria margem”, ao som de composições de Keith Jarret e Miles Davis, na trilha sonora montada por Nino Carlo.


Dança de formação


Marcela Benvegnu




A platéia do Festival de Dança de Joinville, não é somente formada por bailarinos. No meio das arquibancadas, cadeiras plásticas e estofadas existem amantes da dança e centenas de pessoas, que em um espetáculo como o da noite de sábado, têm seu primeiro contato com a arte do movimento. Para um bailarino, falar em pas-de-deux e balés de repertório é tão natural quanto comer arroz e feijão, mas para o público nem sempre é assim.
Quando assistimos a um espetáculo de dança e ele transforma informação em formação temos a certeza de o trabalho foi bem cumprido. E esta 25ª edição do festival tem feito isso de uma forma muito coerente. Não somente pelo vídeo educativo de platéias, mas também por dizer de onde vêm e quais as principais características do estilo em cena durante as apresentações da mostra competitiva. Uma inovação digna do Jubileu de Prata.
Sem dúvida, a noite de sábado - na qual concorreram grupos nas baterias de balé clássico de repertório (pas-de-deux júnior, conjunto sênior e variação feminina avançada) e dança contemporânea (conjunto avançada) - coroou o coreógrafo Eduardo Menezes, da Art & Dança, de Canoas, (RS) como uma das grandes revelações do festival. Mais uma vez ele mostrou um trabalho focado na pesquisa de movimentos e linguagem coreográfica com, “Mixo Corpóreo”, na categoria de dança contemporânea.
Menezes levou ao palco do Centreventos Cau Hansen, 13 excelentes intérpretes, sendo que todos usavam dreads brancos no cabelo e vestiam um figurino de roupas casuais assinado por Ana Paula Scheffre. Vale dizer que “Figurado”, de Edson Fernandes, pelo Avançado do Studio Luciana Junqueira, de Ribeirão Preto também mostrou um bom trabalho. Uma de suas bailarinas, Roseli Zanardo, chama atenção, onde quer que esteja colocada.
E a noite que também foi dos balés de repertório, essenciais para qualquer bailarino e também para que todos possam ter referências dos trabalhos que alguns dos maiores coreógrafos do mundo foram capazes de construir, mostrou boas bailarinas, cujos coreógrafos ainda precisam prestar um pouco mais de atenção nas remontagens. Balés de repertório têm por obrigação serem fiéis as suas montagens originais, caso contrário, se tornam outras coreografias.
Quem teve uma nítida evolução como bailarina do ano passado para cá, quando ainda no Festival Meia-Ponta dançou “Pássaro Azul”, de Marius Petipa foi Isabela Bombassei Pires. Dona de pernas longas, braços bem trabalhos e movimentos muito bem finalizados, a garota que deu vida à “A Escrava e o Mercador”, pelo Pavilhãozinho, de São Paulo, ainda vai dar o que falar.
Nos conjuntos, o equilíbrio da boa técnica e adaptação ficou por conta do Grupo Juvenil da Fundação das Artes de São Caetano do Sul (SP), com “Sonho de Dom Quixote”, de Petipa e do Ballet Adriana Assaf, com “O Corsário”, também de Petipa. Enfim, parece que na terceira noite competitiva, finalmente as sapatilhas saíram do aquecimento.


As formas de Quick

Marcela Benvegnu

Rodrigo Quik, que dá nome à Quik Companhia de Dança de Minas Gerais, que apresentou a coreografia “Formas e Linhas”, na Mostra de Dança Contemporânea, na última sexta-feira, mostrou que os traços de Rodrigo Pederneiras - coreógrafo residente do Grupo Corpo, de Belo Horizonte, – ainda fazem parte do seu repertório de possibilidades coreográficas.
Não poderia ser diferente, tento em vista que Quick integrou o Grupo Corpo por mais de dez anos, assim como sua assistente coreográfica, a bailarina Letícia Carneiro. Os traços de Pederneiras aparecem de forma clara no trabalho, marcado pela música repetitiva de O Grivo, por conta da movimentação geométrica e pela quebra acentuada dos quadris.
O cenário instigante é construído e modificado durante a coreografia. Uma espécie de cubo, com linóleo branco e elásticos com roldanas que se prendem cada hora em um canto ou diagonal, ajuda os quatro bailarinos da companhia, também formada por Kika Brant e Sandra Santos, a moldarem o trabalho.
A movimentação contemporânea se multiplica ao passo que os elásticos ganham o palco no solo de Quik e mesmo nos duos e trios da montagem. “Formas e Linhas” desenha no espaço gestos simétricos e assimétricos que se repetem a todo o tempo. A dança contemporânea se transforma em matemática é preciso refletir para entender a pesquisa histórica sobre o pós-cubismo, que inclui estudos sobre a arquitetura da Bauhaus, as pinturas de Malevich, Mondrian, Kandinsky, desenhos de Vladimir Tatlin, além de revisões da dança de Merce Cunningham e Rudolf Laban.
De fato, é preciso refletir bastante.

Linguagens em movimento


Marcela Benvegnu

Aceita essa dança? Esta é uma das frases do vídeo de educação de platéias que é exibido durante as noites competitivas do Festival de Dança de Joinville. Não é preciso dizer que a película é muito bem produzida e toca em pontos muito importantes, porém, o público parece ainda não entender o seu lugar como um bom espectador. Na segunda noite competitiva, o silêncio das primeiras coreografias de dança contemporânea solo masculino categoria avançada parecia atrapalhar parte da platéia presente no Centreventos Cau Hansen.
Isso porque em meio às coreografias ouviam-se gritos, risadas e mais gritos. A situação causava certo desconforto para quem estava no palco apresentando o resultado de meses de ensaio. É triste pensar (perceber e constatar) que uma platéia formada em sua maioria por bailarinos, não seja capaz de respeitar a própria classe. Será essa a melhor forma de aceitar a dança?
Melhor falar dela. O primeiro trabalho da noite foi "Visceral", com o Ballet Ana Araújo de São José dos Campos (SP), executado pelo talentoso Devidson Santos de Farias. A coreografia de Ana Araújo aliou projeções em vídeo aos movimentos fortes, bem executados e colocados em cena, às composições de Louis Armstrong, Vries e Hooper.
Quem também prendeu o olhar do público foi o coreógrafo-intérprete Eduardo Menezes, com sua “Dança Tocada”, pela Art & Dança de Canoas (RS) e Lincon Vieira Soares, com “Desalinhar”, pela Cia. Lincon Soares, de Florianópolis (SC), que misturou dança de rua com dança contemporânea. De fato a noite de sexta-feira foi pontuada por boas idéias e trabalhos de pesquisa, que revelam a multidisciplinaridade da linguagem da dança contemporânea hoje. Esse é o caminho.
Também na competição do dia estavam os esperados grupos de dança de rua conjunto (júnior e sênior). O que chamou atenção foi a forma como as garotas dominaram o palco. O Grupo de Dança Gahp, de Blumenau (SC), que apresentou um trabalho pertinente à categoria júnior e a Sky Cia. de Dança, de São José dos Pinhais (PR), que ainda precisa prestar mais atenção com as formas de concepção, tinham seu elenco todo formado por meninas.
Como era de se esperar, a grande atração da noite foi o Grupo de Dança Millennium, de Itajaí (SC), com seu impecável, “Movin’ Soul”, de Thurbo Braga. O grupo muito bem entrosado mostrou uma dança forte e sincronizada, que soube se colocar em cena. Os desenhos coreográficos foram estudados cuidadosamente e trouxeram ritmo a coreografia. Braga tem se revelado um excelente coreógrafo, daqueles que deixam um gosto de quero mais. Até o agradecimento foi digno de aplausos, porque o agradecimento de alguns trabalhos...
É bom dizer que o agradecimento é parte final da coreografia e que ela só termina quando os bailarinos saem do palco. Como diz o famoso ditado, “para bom entendedor, meia palavra basta”.


Poética do espaço


Marcela Benvegnu

Baseado em fatos e sonhos reais. Assim é o inteligente “Isadora.Orb, A Metáfora Final”, apresentado por Andrea Jabor e Rick Seabra, do Rio de Janeiro, no Teatro Juarez Machado na primeira noite da Mostra de Dança Contemporânea. O trabalho, fruto da tese de mestrado em desenho industrial de Seabra, na qual ele propõe a criação de um módulo espacial (The Isadora Module) para abrigar artistas a bordo da Estação Espacial Internacional, vai muito além de um trabalho de dança, teatro ou narrativa. Enquanto o público ainda se acomoda no teatro, a canção, “Cheek to Cheek”, de Fred Astaire, deixa implícito que tudo o que se sonha pode ser possível no espaço. De um lado do palco, Andrea comanda o som, e de outro, Seabra cria o videografismo por meio de câmeras dispostas em lugares estratégicos na cena. Um diálogo perfeito entre vários corpos, imagens e movimentos se forma ao vivo no espaço.
O Módulo Isadora: Um estudo Multifuncional para Artes na Estação Espacial Internacional é mesmo uma idéia brilhante. Ricky e Andréa não somente criam novos espaços, mas os preenchem com dança e vídeo. Eles “vão para o alto e avante” como se propõem e deixam clara a liberdade de Isadora (por conta da bailarina Isadora Duncan) em órbita.
Com uma câmera e um aparato de editores de imagens, Seabra constrói com Andrea um espetáculo que passeia por diferentes apoios na dança - como cotovelos e cabeça - e também por imagens de Picasso, Kandinsky e outros artistas, que se moldam ao corpo e ao figurino da intérprete durante a execução.
A grande poética da pesquisa não aparece em somente um trecho da montagem, ela é e está no todo. Pode ser encontrada nos pequenos textos que aparecem nas projeções, na delicadeza em que uma espaçonave ou mesmo um foguete comandado por Seabra sai pela tela e ganha o mundo, na primeira canção escrita no espaço pelo cosmonauta Yuri Romanenko, na movimentação de Andrea, na réplica da única obra de arte que existe na Lua e em diversos outros momentos. Se depender de Isadora.Orb, a arte como uma ferramenta para a ocupação do homem no universo já é totalmente possível.

No aquecimento


Marcela Benvegnu

A primeira noite da mostra competitiva da 25ª edição do Festival de Dança de Joinville, que compreendia trabalhos de balé clássico de repertório (conjunto júnior, grand pas de deux sênior e variação masculina júnior e sênior) e jazzdance conjunto avançada, não foi das mais impactantes. Talvez porque os bailarinos ainda estejam aquecendo as sapatilhas para a maratona da dança que ainda tem muito que emocionar.
O Corpo de Baile Juvenil da Escola de Arte Veiga Valle de Goiânia (GO) foi o primeiro e único a concorrer na categoria de balé clássico de repertório conjunto, com o 1º ato de “Giselle”, de Jules Perrot e Jean Coralli. A coreografia executada pelas bailarinas não deixou a desejar. Elas eram graciosas e tinham pés bem trabalhados, mas poderiam fazer mais. A primeira noite de competição pedia mais.
“Harlequinade”, de Marius Petipa, concorrente do balé clássico de repertório variação masculina sênior foi o grande ápice da noite. O solista André Guilherme Oliveira dos Santos, do Pavilhão D, de São Paulo, fez uma execução perfeita. Além de ser dono de uma técnica apurada, o intérprete é muito expressivo, o que fez com que a platéia se encantasse por ele.
A técnica de Leusson Bento Pereira Muniz, da Cep Ballet Basileu França, também de Goiânia merece ser elogiada. Concorrendo com “Carnaval em Veneza”, de Michel Fokine na categoria de clássico de repertório variação masculina júnior, o bailarino chama atenção por suas piruetas precisas e pela sua musicalidade.
Pode-se dizer que os grand pas-de-deux foram bem executados. Porém, os olhares se voltaram para dois grandes trabalhos, a impecável “Raymonda”, de Luiza Marques de Oliveira e Everton da Conceição, pelo Pavilhão D e para “Chamas de Paris”, de Vainonen, do Conservatório Brasileiro de Dança do Rio de Janeiro (RJ) dançado por Helenilson da Silva Ferreira e Thayara Teixeira Lima do Nascimento. A dupla estava entrosada, é dona de uma excelente técnica de giros e tem bela finalização de movimentos.
Em uma noite de apresentações de balés de repertório se instaura uma questão, já recorrente em festivais de dança: Quem são seus remontadores? Sem a perspicácia desses profissionais, o repertório pode se transformar em uma outra coisa muito distante da forma de preservação da obra. O que se vê em cena é mérito desses coreógrafos, que infelizmente em Joinville não se pode nomear.
E aqueles que esperavam que o jazzdance avançado aparecesse com força total no palco Centreventos, se decepcionaram. Ele entrou e saiu tímido, não com relação aos cenários das coreografias - que demoravam muito para serem montados - , mas sim em sua pesquisa coreográfica. Os movimentos muitas vezes foram apagados por figurinos ou arranjos de cabeça que chegavam a deformar o movimento. Convenhamos que não é preciso abusar de tantas plumas ou cenários, vale mais a pena se preocupar com a concepção.
Quem mais chamou atenção na primeira noite foi, “Tambores Que Vem do Norte... Inebriam Minha Alma”, de Érica Novachi. Talentosa coreógrafa do Galpão 1, de Indaiatuba (SP), Érica conseguiu unir uma movimentação pertinente ao gênero, bailarinos fortes e bem ensaiados à linda composição (“Gates of Istambul”) de Lorena Macknnet com a percussão de Dalga Larrondo. No mais, se viu de tudo, showbiss dos circuitos off-off (mais off) Broadway, panos que tentavam se transformar em movimento e muita, muita dança contemporânea.

Thank you, Dance!

by Judy Smith "