segunda-feira, 28 de julho de 2008

"Tap Bass" é lançado em Joinville


Marcela Benvegnu


Aqueles que assistiram ao espetáculo “da Corda pro Pé” nos últimos quatro anos e sempre perguntaram sobre o repertório, não têm mais do que reclamar. A sapateadora, musicista, cantora e coreógrafa Christiane Matallo e o contrabaixista Gilberto de Syllos resolveram registrar em CD, vários dos sucessos do espetáculo. O resultado foi “Tap Bass”, que foi oficialmente lançado no Brasil durante o 26º Festival de Dança de Joinville. O trabalho inédito consagra-se como o primeiro CD para sapateado no Brasil e esteve à venda no stand da Só Dança, na Feira da Sapatilha.

“Tap Bass foi nosso primeiro trabalho e ponto de partida do espetáculo “da Corda pro Pé”. Meu trabalho como sapateadora e bailarina, sempre foi voltado à pesquisa do movimento que gera som. Assim como a montagem, este CD é dança para se ouvir, e por isso de certa forma, volta às origens”, fala Christiane. “Tap Bass’ é muito elucidativo ao universo da dança e também da música, principalmente ao do contrabaixo”, completa de Syllos, que assina a direção musical do CD.

No repertório do CD figuram oito músicas: o tema de “Flintstones” (baixo, voz, sax tenor, sapateado e trompete); “Sambateado” (baixo e sapateado), “Cotovelo” (baixo e sapateado); “Maracangalha”, (baixo, sapateado e sax tenor); “Solando” (solo de Christiane Matallo – sapateado); “Carinhoso” (solo de Gilberto de Syllos – contrabaixo); “Tocando Baixo” (baixo e sapateado), e um remix de “Flintstones, com Dj Neo.

“Acho importante ressaltar que os temas ‘Flintstones’ e ‘Maracangalha’, nos quais toco sax tenor e sapateio simultaneamente, trazendo a fusão das linguagens do sapateado (dança) e música. O instrumento é extensão do meu corpo, faço um diálogo entre sapateado e sax tenor”, fala a sapateadora. De Syllos ressalta músicas de sua autoria como "Sambateado" e "Tocando Baixo". O termo Sambateado foi criado por Christiane Matallo para unir o samba e o sapateado. A fusão pôde ser vista no carnaval de 2008, na ala Sapateia São Paulo, no desfile da Mocidade Alegre.

ENTRE CORDAS E PÉS – Para Christiane “Tap Bass” é uma proposta de estudo contínua. “Me permite encontrar inúmeros caminhos para desenvolver a rítmica do sapateado. Alguns momentos mais no padrão rítmico proposto do gênero musical trabalhado, em outros, quebrando-o completamente; horas fazendo contraponto; horas dentro da linha melódica. Os arranjos das músicas de autoria do Gilberto (de Syllos) são bem complexos e não seguem uma quadratura simétrica, o que mais uma vez eu tive que estudar as partituras musicais para que o trabalho tivesse um efeito e resultado não somente coreográfico como obra, mas como música”, fala. “Além de ‘Tap Bass’ ser o primeiro CD de sapateado no Brasil, as peças apresentam os ritmos brasileiros na sua essência. Isso também fez parte dos DVDS "A Arte de Sapatear com Christiane Matallo" (2007), nos quais assino a direção musical”, fala o contrabaixista.

A principal idéia de “Tap Bass” é fazer com que o ouvinte encontre no sapateado um instrumento musical, sem a necessidade do aspecto coreográfico. “Desta forma aguçamos o interesse das pessoas irem ao nosso espetáculo "da Corda pro Pé"”, fala Gilberto. “É o sapateado para se ouvir, porém, quebrando alguns paradigmas. O sapateado está intimamente ligado ao jazz, porém no CD temos outros gêneros musicais como samba, baião, ijexá e pop. O CD é para todos, sendo que cada um irá degustá-lo de forma diferente”.

A gala de Natalia Osipova

Crédito: Amir Sfair Filho

Marcela Benvegnu
De Joinville


Dança não é uma questão de gosto. Talvez de técnica, ou mesmo estética. Seu caminho não passa (e não deve passar) pelo “eu gosto”, “eu não gosto”, “eu acho”. Esse não é o papel dos críticos. O papel desses profissionais é o de fazer o próprio sentido da crítica, quebrar a obra em pedaços e apontar novos e claros caminhos. Esse nariz de cera (termo denominado pelos editores para dizer o que não é preciso dizer) se torna necessário aqui. Isso porque depois da apresentação da grande suíte do balé de repertório “Dom Quixote” (1869), de Marius Petipa na Noite de Gala, do 26º Festival de Dança de Joinville muito “se achou” da montagem.

Com remontagem de Valdimir Vasiliev — bailarino do século pela Unesco — a história do balé, um dos mais famosos do mundo, se passa na Espanha, quando Kitri e Basílio enganam o arrogante e rico Gamach, noivo da heroína, com quem Lorenzo, seu pai, a força se casar. Com a ajuda de Dom Quixote, nobre cavalheiro, e Sancho Pança, seu fiel escudeiro, Kitri e Basílio se casam numa grande festa em Barcelona.

Natalia Osipova e Andrey Bolotin, primeiros solistas do Teatro Bolshoi de Moscou foram os protagonistas da noite, interpretando respectivamente, Kitri e Basílio. O entrosamento da dupla nos pas-de-deux (no programa grafado errado como pás-de-deux) era nítido. Ele dono de uma técnica de pés e giros chama atenção ao lado de intérpretes brasileiros que são submetidos ao mesmo programa de ensino: o método Vaganova. Isso porque é russo, tem corpo russo, alimentação e cultura daquele país. Aqui, temos um corpo brasileiro adaptado à técnica russa. Não e nunca seremos iguais.

Natalia é uma excelente intérprete, dona de uma técnica particular para seus poucos 21 anos. Os prêmios e medalhas em festivais internacionais justificam isso. Em cena ela dá show quando é hora de girar. Foram 21 piruetas descendo o palco em diagonal e o mesmo número de fouetés duplos, sendo que cinco foram triplos. Sua pouca idade também é percebida na interpretação. Sua Kitri tem feições de adolescente, mas isso não a faz perder o vigor. Vigor ela tem de sobra. Parece que a música espera seus movimentos serem executados e não ao contrário.

A dupla é um assunto à parte da noite de gala. O espetáculo contou também com a participação de alunos, ex-alunos, professores e da Companhia Jovem da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil. Antes de qualquer citação é bem lembrar que eles são uma escola e não podem ser julgados por aquilo que não são. Eles não são profissionais. E assim foi o espetáculo. Uma escola se apresentando na Noite de Gala, que já recebeu em seu palco grandes estrelas. A turma estava bem ensaiada, impecáveis, na verdade. Mas nada que fuja dos padrões. Nada que a platéia já não tenha visto. O colírio fica por conta de Yasmim de Almeida, que interpretou Mercedes, e de Stephanine Ricciardi, que foi a rainha das Dríades. Talentos promissores, de uma escola que tem como missão projetá-los.

O cenário da montagem também chamou atenção. Em tons pastéis e com figuras aquareladas, se destacou em meio aos cenários convencionais de "Dom Quixote" que se está acostumado a ver. Bom gosto.

Os figurinos também poderiam ter dado mais ao balé. Mais brilho poderia enriquecer a peça e valorizar algumas cenas. A parte em que as crianças se apresentam poderia ter sido suprimida ou mesmo diminuída tendo em vista que era uma suíte – uma grande suíte de 1h40 – totalmente remodelada. Afinal Noite de Gala, tem que ser de gala do começo ao fim.

sábado, 12 de julho de 2008

Panorama vai até domingo

Crédito: Caddah

Marcela Benvegnu

Se você ainda não assistiu nenhum espetáculo da oitava edição do Panorama Sesi de Dança, que acontece no Teatro do Sesi Paulista, em São Paulo, acelere. Hoje, às 21h, é a vez de “Vi-Vidas”, com a Sonia Mota Danças (Colonia-Alemanha) e amanhã, de “Bull Dancing”, de Marcelo Evelin. No domingo, às 19h, o trabalho será reapresentado e finaliza o projeto. O Panorama, que começou no dia 3 de junho, compreende nove coreografias dançadas por sete companhias. Nomes consagrados como Sônia Mota, Marcelo Evelin, Sonia Soares, J.Garcis e Cena 11 e as revelações, Lu Brites e Juliana Moraes estão entre os selecionados. A entrada é gratuita.
“Vi-Vidas’’ é um espetáculo de dança-teatro que aborda a questão do feminino nas culturas patriarcais. Dirige um foco para o comportamento pseudo-liberal da mulher na sociedade moderna, investigando e analisando o corpo, gestos e movimentos desta em três culturas distintas: a islâmica, a cristã e a sincretista. Deste ponto de vista observa a mulher muçulmana, a européia, a brasileira e a quarta, que é uma pluralidade de raças.
O trabalho é a primeira parte de uma trilogia sobre o feminino na sociedade contemporânea composta ainda por “QaaDriDuuo” e “Tristeza & Josefine”. Sônia Mota exerceu um papel decisivo na cena da dança contemporânea brasileira nas décadas de 60 e 70. Desde 1989 mora em Colônia, Alemanha e é professora de dança em várias companhias e escolas de Lisboa, Viena, Weimar, Leipzig, Heidelberg, Arnheim, Konstanz e Bonn.
Amanhã e domingo será possível assistir “Bull Dancing”, que toma como ponto de partida a manifestação folclórica do Bumba meu Boi. O auto adquire contornos de sátira, comédia e tragédia enquanto narra a morte e ressurreição de um boi. A coreografia revisita as origens desse rito popular a partir de uma desconstrução dos elementos folclóricos originais. No espetáculo o corpo serve como metáfora para esse boi sagrado e profano em cada um de nós.
Evelin é coreógrafo, diretor e intérprete. Vive e trabalha na Europa desde 1986, atuando na área da dança e do teatro físico. É criador residente do Hetveem Theater, em Amsterdam, com sua cia., Demolition inc. Ensina improvisação e composição na Escola Superior de Mímica de Amsterdam.
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CURADORA — A oitava edição do Panorama Sesi de Dança, pela primeira vez com a curadoria da coreógrafa, diretora e atriz Renata Melo, focaliza o trabalho de coreógrafos autorais. São artistas que criam uma escrita própria, que desenvolvem uma maneira autêntica, autoral de existir em cena, imprimindo sua marca nesses trabalhos. São artistas comprometidos com a evolução da arte, criando linguagens, rompendo regras, expandindo fronteiras. Em suas obras, forma e conteúdo se fundem num processo instigante, profundo, no qual um desafia o outro a explorar seus limites de criação.
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PARA VER — Panorama Sesi de Dança 2008. No Teatro do Sesi (avenida Paulista, 1.313). Hoje e amanhã, às 20h, e domingo, às 19h. Entrada gratuita. Mais informações (11) 3146-7405.

De lá para cá


Marcela Benvegnu

Reestréia hoje no Teatro Copa Airlines, em São Paulo, “De um Lugar para o Outro”, espetáculo multimídia que mescla linguagens de dança, circo, teatro e vídeo. Protagonizado pela Cia. Cênica Nau de Ícaros, com direção de José Possi Neto e coreografia de Miriam Druwe, o trabalho foi contemplado pelo Programa Municipal de Fomento à Dança para a Cidade de São Paulo e pelo Prêmio Estímulo de Dança da Secretaria de Estado da Cultura. A temporada se estende até o dia 27 de julho.
A montagem mistura elementos contemporâneos a ícones, entidades e lendas da cultura popular brasileira, e tem como figura central Exu, o orixá do movimento e da comunicação, na história de um viajante com traços cômicos que passa por todo o espetáculo, ora dentro das cenas, ora como observador, e vai incorporando e imitando o que vê.
O trabalho é o resultado das investigações de dança contemporânea da Nau de Ícaros, que por meio de uma experiência sensorial e poética convida o público a ter contato e criar um novo olhar para o universo dos ritos e símbolos de algumas festas e danças da cultura popular brasileira, principalmente em seus aspectos fantásticos e contemporâneos. “É um ritual dançado. Um circo teatralizado. O exercício estóico, exaustivo, dedicado, criativo e apaixonante do ator-bailarino, do acrobata, do ginasta, do artista de circo”, fala Possi Neto.
“No decorrer deste processo, vislumbramos a necessidade de retratar este universo das tradições populares, que hoje se encontra distanciado do cotidiano da vida urbana, mas que é parte inerente da formação deste corpo brasileiro, dentro de uma perspectiva artística atual, pertinente e contemporânea. ‘De um Lugar para o Outro’ é um espetáculo no qual a dança permite a integração de outras artes a fim de expandir, dentro de suas pesquisas e questionamentos, as formas de expressar os elementos das manifestações populares”, afirma Marco Vettore, diretor artístico do grupo.
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PARA VER — “De um Lugar para o Outro”, com a Cia. Nau de Ícaros. Reestréia hoje, às 21h, no Teatro Copa Airlines — Shopping Eldorado (avenida Rebouças, 3.970), em São Paulo. A temporada vai até 27 de julho e o espetáculo pode ser visto de quinta-feira a sábado, às 21h, e aos domingos, às 20h. Ingressos custam R$ 50 (quintas e sextas-feiras), R$ 25 (meia-entrada) e R$ 60 (sábados e domingos), R$ 30 (meia-entrada). Mais informações (11) 4003-2330.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

A grande força de ‘Quixote’

Crédito: M. Logvinov
Natalia Osipova e Ivan Vasiliev em ‘Dom Quixote’

Marcela Benvegnu


Bolshoi quer dizer grande e grande espera-se que seja a Noite de Gala do 26º Festival de Dança de Joinville, no dia 20 de julho, quando sobe ao palco do Centreventos Cau Hansen, Natalia Osipova e Ivan Vasiliev, primeiros solistas do Teatro Bolshoi de Moscou, para interpretarem a grande suíte do balé de repertório “Dom Quixote” (1869). Em cena também estarão alunos, formandos do ano de 2007, professores e bailarinos da Cia. Jovem da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil (ETBB). A edição do evento acontece entre os dias 16 e 26 de julho.

A história do balé, um dos mais famosos do mundo, se passa na Espanha, quando Kitri e Basílio enganam o arrogante e rico Gamach, noivo da heroína, com quem Lorenzo, seu pai, a força se casar. Com a ajuda de Dom Quixote, nobre cavalheiro, e Sancho Pança, seu fiel escudeiro, Kitri e Basílio se casam numa grande festa em Barcelona.

Com remontagem de Valdimir Vasiliev — reconhecido como o melhor bailarino do mundo, título concedido pela Academia de Dança de Paris, e bailarino do século pela Unesco — o “Dom Quixote” que os intérpretes executam será fiel à remontagem original de Marius Petipa. Em entrevista exclusiva ao Jornal de Piracicaba no ano passado, Vasiliev disse que não ensinou aos estudantes apenas os detalhes técnicos dessa ou aquela cena do balé, mas também deu a cada um papel de ator, explicando as personagens que deveriam representar ali. O coreógrafo trabalhou na montagem no ano passado, em Joinville.

Para acompanhar e dirigir o espetáculo em Joinville vem ao Brasil a ex-solista do Teatro Bolshoi, Nina Speranskaya, que se despediu dos palcos em Joinville, no ano de 2001, quando dançou “A Morte do Cisne”. Nina foi professora da ETBB.

SOLISTAS — Assim como na noite de abertura do evento (dia 16) os olhos estarão voltados para a linda solista Cecília Kerche, na interpretação de Odile/Odete em “O Lago dos Cisnes”, pelo Theatro Municipal do Rio de Janeiro, na Noite de Gala não será diferente: o foco da platéia de mais de 5.000 pessoas cai sobre os solistas Natalia e Vasiliev. Natalia, bailarina de traços delicados e força expressiva, se formou na Escola Coreográfica de Moscou, e é a primeira solista do Teatro Bolshoi. Este ano ganhou o prêmio de melhor bailarina do National Dance Awards Critics Circle e entre seus principais papéis destacam-se as personagens título de “Cinderela”, “Giselle”, “Sílfide”, além de Gamzatti, em “La Bayadère”, e Kitri em “Dom Quixote”.

Vasiliev iniciou seus estudos de balé em Dnepropetrovsk, na Ucrânia, e concluiu em Minsk, capital da Bielorússia. Está no Teatro Bolshoi desde 2006. Entre seus prêmios estão o Grand Prix em Varna, em 2006, e o Prêmio Spotlight Award, em 2008. Algumas de suas melhores atuações foram como o Ídolo de Ouro, de “La Bayadère”; Colas, de “La Fille Mal Gardeé”, e Basílio, de “Dom Quixote”. Mais informações www.festivaldedanca.com.br.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

A Dança da Vida - Crítica de "Adeus China"



Marcela Benvegnu

À primeira vista, “Adeus, China — O Último Bailarino de Mao” (Editora Fundamento), de Li Cunxin, parece ser um livro cuja temática principal é a dança, e que tem como objetivo contar a saga do autor, um garoto que sai da pequena Qingdao, na China, para conquisar o mundo. Mas a verdade é que o texto vai muito além desta pequena — e bem pequena — impressão.
A publicação é um exemplo concreto de determinação, esforço, superação, dor e conquista, que é capaz de emocionar em suas poucas 400 páginas. Sim, porque quando se fecha a contracapa, se quer saber mais. Talvez esteja aí o brilhantismo da poética de Cunxin, que escreve de dentro da dança e consegue tocar qualquer leitor.

A narrativa tem ritmo próprio, bem mais veloz que uma série de piruetas — o ponto forte de Cunxin — e é toda permeada por lendas que costumam ser contadas pelos chineses. A principal delas, que inclusive permeia o livro e a vida do bailarino, é O Sapo no Poço. O texto conta a história de um sapinho que vivia em um poço fundo. Certa vez, outro sapo que vivia do lado de fora o convidou para brincar. O sapinho não pôde aceitar porque não conseguia sair dali, e sabia que seu pai já tinha tentado pular para fora do poço a vida toda. O resultado? O sapinho passou a vida inteira preso, tendo o mundo de fora apenas como um sonho.

Cunxin comprova que a lenda não é verdadeira. O menino, que aprendeu a idolatrar Mao, passou fome, dividiu o Kang (cama) com mais seis irmãos e só tinha roupas remendadas, não só saiu de sua realidade. Ele a transformou e se revelou um dos maiores nomes da dança mundial. Cunxin poderia ter escolhido qualquer profissão, mas a dança o escolheu. Ele optou por sair do poço.
Na publicação, o encontro com a realidade da China torna-se inevitável. A fome, os pés enfaixados das mulheres, o casamento combinado, os filhos, as comunas. A triste e dura vida de um povo, que ainda sofre com a Revolução Cultural que um dia tanto amou, é retratada em detalhes.

O único — único mesmo — porém fica por conta das imagens. O livro não traz nenhuma foto de Cunxin depois que ele se torna o ‘queridinho’ do Ocidente, o primeiro bailarino do Ballet de Houston, e o amigo de grandes estrelas do cinema mundial. Só na capa é possível vê-lo pequeno, aos 11 anos, quando foi um dos escolhidos para entrar na Academia de Dança de Pequim. A solução é imaginar suas conquistas e dançar com suas palavras. “Adeus, China — O Último Bailarino de Mao” é um livro para qualquer um reescrever sua própria história.

No mundo de Kandinsky

Crédito: Rodrigo Netto

Marcela Benvegnu

O ponto, a reta e a curva são alguns dos personagens inspirados no artista plástico russo Wassily Kandinsky (1866-1944) que estão no palco do infantil “Lúdico”, espetáculo que encerra sua temporada domingo, dia 22 de junho, no Centro Cultural São Paulo — sala Jardel Filho. A concepção e coreografia é da renomada Miriam Druwe, que assina a direção junto com Cristiane Paoli Quito. No dia 28 de junho, a companhia fará uma apresentação extra no Teatro Humboldt.
Contemplado pelo 3º Fomento Municipal à Dança, “Lúdico” propõe de forma colorida e poética um passeio pelo universo da criação de uma obra de arte. Cores e formas se agitam em busca de um lugar. No espetáculo, a reta, a curva e o ponto são personagens que têm características e personalidades próprias. A curva, estilosa, assanhada e sinuosa tem um temperamento e mobilidade corporal que lembra a serpente, é elástica, pode ceder e evitar, porque é capaz de desviar.
O ponto é o início de tudo e por ser o princípio, a tela branca foge dele, porque ela se acha linda assim, e tenta convencer a todos que sendo o mais simples dos elementos é cheia de graça, mas também cheia de expectativa. Já a reta é determinante, mandona, indica caminhos (corporais), tem certeza que é uma junção de pontos (o que é verdade). O círculo preto, circunspecto, sisudo, é meditativo e diz, va-ga-ro-sa-men-te: “Aqui estou”. O círculo vermelho, por sua vez, é troada e relâmpago, apaixonado, irradia para todos os lados e roda, roda, roda. O criador (ou pintor) ao se deparar com a reta, os círculos, o ponto, a curva e a tela, é engolido pela obra. Qual o resultado? Dança.
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MONTAGEM — Há tempos Miriam Druwe alimentava uma paixão pela obra de Kandinsky. Pintor reconhecido pelas cores e formas de suas obras, ele teve contato muito cedo com a música, aos 8 anos. Essa pequena incursão pelas aulas de piano e violino lhe deu noções fundamentais de harmonia e evolução, que depois foram utilizadas em suas pinturas. Como base para todo desenvolvimento e criação de “Lúdico”, Miriam pesquisou no livro “Do Espiritual Na Arte (1912), a primeira grande obra teórica sobre pintura. Nela, o pintor desenvolvia uma investigação filosófica sobre as cores e as formas, às quais conferia valores psicológicos e morais, e as comparava com a música, que, apesar de sua imaterialidade, era capaz de fazer vibrar a alma.
A partir dos elementos pesquisados, Miriam percebeu que o caráter lúdico sempre esteve à sua porta, assim juntou sua paixão pelo pintor russo, cercou-se de profissionais premiados e competentes das artes e percebeu que pela primeira vez em sua carreira falaria às crianças. Assinada por Fabio Cardia, a trilha sonora do espetáculo foi especialmente composta para a montagem.

PARA VER — “Lúdico”. Até domingo, às 16h, no Centro Cultural São Paulo (rua do Vergueiro, 1000). Entrada gratuita. Mais informações (11) 3383-3400.

Thank you, Dance!

by Judy Smith "