quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Em "Mané Gostoso", a dança e a música do Nordeste


Marcela Benvegnu

Genuinamente nacional, o espetáculo “Mané Gostoso”, que será apresentado hoje no Sesc Piracicaba, às 21h, é resultado da união entre as raízes brasileiras interpretadas pela coreografia do Ballet Stagium e pela música do Quinteto Violado. A obra leva o mesmo nome de um brinquedo infantil — que tem as pernas e os braços movimentados por meio de cordões — e propõe uma leitura moderna da cultura popular do Nordeste. A montagem homenageia um dos maiores ícones da música brasileira, o pernambucano Luiz Gonzaga (1912-1989) e comemora os 35 anos do Ballet Stagium e do Quinteto Violado.

“Mané Gostoso” foi coreografado por Décio Otero em 2007 e tem direção teatral da bailarina Marika Gidali, que ao lado de Otero, fundou o Ballet Stagium em 1971. “O Stagium tem um namoro antigo, de mais de 20 anos com o Quinteto Violado. Queríamos muito fazer este espetáculo. Artisticamente é um momento muito feliz para os dois grupos”, conta Marika, recentemente homenageada com o prêmio nacional Jorge Amado de Literatura e Arte e com medalha de ordem do mérito cultural, do Ministério da Cultura, por conta da representatividade de seus trabalhos na área de dança.

Em cena, 14 bailarinos executam coreografias de dança contemporânea, nas quais é possível notar certo virtuosismo — característica reconhecível da companhia — e entrosamento. “O ponto mais atrativo da peça é a energia e a beleza que transmitimos, seja pela música ou pela dança. Estudamos muito o indivíduo nordestino para a composição”, revela Marika. “O resultado são dois grupos que têm a mesma finalidade e buscam o erudito na cultura regional.”

Além da companhia de dança, o Stagium desenvolve projetos voltados à rede de ensino. Entre eles destacam-se, Stagium vai às Escolas, que objetiva a realização de espetáculos temáticos nos espaços escolares; Escolas vão ao Teatro, que proporciona aos alunos idas a teatros para assistirem aos espetáculos do repertório da companhia e o Projeto Joaninha, trabalho no qual a dança é um canal para a descoberta de potencialidades e que ajuda na formação da identidade pessoal e coletiva de quase 300 alunos, entre crianças e adolescentes.

DANÇA MUSICADA — O Quinteto Violado nasceu em Pernambuco e traçou um novo caminho para a MPB desde sua fundação. Diante da indecisão do cenário da música nacional, após a irrupção do movimento tropicalista, o Quinteto apresentou uma proposta fundamentada nos elementos musicais da cultura regional, por meio de trabalhos de pesquisa e da própria vivência de cada um dos seus integrantes. Conseguindo extrair das mais simples manifestações populares à sua essência rítmica e melódica, a trupe criou uma nova concepção, cujo traço fundamental é a interação entre o erudito e o popular.
O Quinteto Violado tem direção musical de Toinho Alves (contrabaixo e voz) e é formado por Dudu Alves (teclado), Marcelo Melo (violão e voz), Roberto Medeiros (percussão e bateria) e Ciano Alves (flauta). Em “Mané Gostoso” o grupo executa “Vida”, de Alves; “Hino da Ceroula”, de Milton Bezerra de Alencar; “Assum Preto”, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga; “Dona Aninha”, de Toinho Alves e Roberto Santana; “Sete Meninas”, de Toinho Alves e Dominguinhos; “P’ronde Tu Vai?” e “Forró de Mané Vito”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas e “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.

SERVIÇO — “Mané Gostoso”, com o Ballet Stagium e Quinteto Violado. Hoje, às 21h, no ginásio de eventos do Sesc Piracicaba. Ingressos custam R$ 3 (trabalhador do comércio), R$ 6 (usuários matriculados, estudantes, maiores de 60 anos, menores de 18 anos e professores da rede pública) e R$ 12 (inteira). Data, horário e local foram enviados pelos organizadores. Mais informações: (19) 3434-4022.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Carnaval dos Animais


Marcela Benvegnu

"Carnaval dos Animais" é uma das mais famosas coreografias de Luiz Arrieta, considerado por muitos críticos e especialistas um gênio da dança contemporânea. Apesar de ter sido composta em 2000, a montagem só estreou no ano passado e pode ser vista no palco da Galeria Olido, em São Paulo, hoje, amanhã às 20h e domingo, às 19h. O espetáculo tem duração de uma hora e entrada é gratuita.

“Carnaval dos Animais” trata da explicação do processo da composição da obra coreográfica com música homônima de Camille Saint Saëns (1835-1921), abordando cada parte (ou animal), seguida da apresentação da coreografia completa com figurino, adereços e iluminação. Tudo acompanhado da exposição das fotografias da obra já registradas pelo fotógrafo especializado em dança Antonio Carlos Cardoso — que também é coreógrafo e dirigiu o Balé do Teatro Castro Alvez, em Salvador — , que interpreta o do trabalho do ponto de vista do diafragma.

A divisão do espetáculo é clara. A introdução é a marcha real do leão, seguida de galinhas e galos, hemíones, tartarugas, elefante, canguru, aquário, personagens com longas orelhas, cuco no fundo do bosque, viveiro de aves, pianistas, fósseis, cisne e final.

Arrieta é um nome forte na dança mundial. Apesar de ter nascido na Argentina, foi em terras brasileiras que construiu seu nome e imagem. Foi bailarino de algumas das mais importantes companhias do mundo, como Ballet de Joaquín Pérez Fernández (Buenos Aires), Ballet Stagium, Balé da Cidade de São Paulo, Associação de Ballet do Rio de Janeiro e Hessiches Sttadtheater em Wiesbaden, Alemanha.

Trabalhou com coreógrafos de peso como Víctor Navarro, Oscar Araiz, Sonia Mota, Tatiana Leskova, Décio Otero, Christian Uboldi e Celia Gouveia.Em mais de 100 criações coreográficas trabalha com os mais variados temas e gêneros musicais, junto a diversas companhias do mundo. Entre as principais destacam-se, o Balé da Cidade de São Paulo, Grupo Andança, Cia. de Dança Cisne Negro, Ballet Ópera Paulista, Primeiro Ato, Meia Ponta Cia. de Dança, Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Ballet Teatro Guaíra, Ballet del Teatro San Martín, Ballet Nacional de Cuba, Ballet’s San Juan, Ballet de Grand Thèâtre de Genève e outros.

Balé é coisa de homem


Marcela Benvegnu

Quem disse que balé clássico dançado nas pontas dos pés não é coisa para homens? O Les Ballets Trockadero de Monte Carlo, que o diga. A companhia formada por bailarinos profissionais, masculinos, especializados na gama do repertório clássico e originais do estilo russo, chega a São Paulo, no dia 18 de setembro, para uma única apresentação, às 21h, no Teatro Sérgio Cardoso.

Fundado em 1974 por um grupo de entusiastas da dança clássica, com a finalidade de realizar uma paródia das formas tradicionais do balé clássico de maneira travestida, o Les Ballets é sucesso de crítica e público em todo o mundo.O conceito original do Les Ballets Trockadero de Monte Carlo não foi modificado desde a sua criação.

A comédia é atingida a partir do exagero das circunstâncias da narrativa da dança clássica, dos acidentes e da incongruência das coreografias. O fato de os homens executarem todos os papéis — o peso de um homem equilibrando-se precariamente nas pontas dos pés e pretendendo ser cisne, sílfide, ninfa das águas, princesa romântica e mulher vitoriana — engrandece, ao invés de ridicularizar, o espírito da dança clássica.

No ano passado, após uma temporada que assinalou recordes de venda em Londres, a companhia recebeu o prêmio de excelência em dança pela Associação dos Críticos de Dança de Londres. Em 2007, como resultado do êxito obtido em apresentações em Roma e Milão, a companhia recebeu o cobiçado Massina/Positano Award, em Positano, Itália.

Desde a sua estréia em 1974, a companhia apresentou-se em mais de 30 países e 300 cidades. Atualmente vêm empreendendo temporadas mais longas, incluindo visitas recentes, por várias semanas, a Amsterdam, Barcelona, Berlim, Buenos Aires, Caracas, Colônia, Hamburgo, Lisboa, Lyon, Moscou, Paris, Singapura, Sydney, Viena e Wellington.Artigos publicados em revistas como Variety, Oui, The London Daily Telegraph, assim como um ensaio fotográfico de Richard Avedon para a Vogue, fizeram com que a companhia se tornasse mundialmente conhecida. O que fizeram nos últimos 32 anos é o que os espera no futuro: inovação, comédia e desmistificação de mitos. O balé é mesmo para todos.

PARA VER — Les Ballets Trockadero de Monte Carlo. Dia 18 de setembro, às 21h, no Teatro Sérgio Cardoso. O valor dos ingressos ainda não foi divulgado. Data, local e horário foram enviados pelos organizadores. Mais informações (11) 6163-5087.


Sempre Balanchine

Marcela Benvegnu

George Balanchine (São Petersburgo, 1904 - Nova York, 1983) foi um dos maiores coreógrafos do mundo. Certamente o mais musical e também um dos mais conhecidos internacionalmente. Foi o responsável por dar um toque contemporâneo à dança clássica, que por muitos foi entendido como estilo neoclássico.

Sua dança totalmente nova e ousada para época — em meados de 1924 — foi criada a partir dos estilos dos balés clássicos francês, italiano e russo. Balanchine começou a dançar aos 10 anos e se formou aos 17, pela Escola de Bailado do Estado Soviético.

Estreou como coreógrafo em 1923, com um pequeno grupo de bailarinos entre os quais estava Alexandra Danilova (1903-1997), que posteriormente dançou pelo Marinsky Ballet, Ballets Russes e Ballet Russe de Monte Carlo.

No ano seguinte, durante uma turnê internacional de sua companhia, apelidada de “Os Bailarinos do Estado Russo”, fugiu com os bailarinos para o ocidente. Foi quando ingressaram na Companhia de Sergei Diaghilev (1872-1929) — criador dos Balés Russos — e ele coreografou “La Pastorale”, “Jack in the Box” e “Triumph of Neptune”.

Com a morte de Diaghilev, Balanchine tornou-se o primeiro coreógrafo do Ballet de Monte Carlo e, a convite de Lincoln Kirstein (1907-1996), partiu para os Estados Unidos em 1933, para fundar a Escola de Ballet Americano (School of American Ballet). Desde então, numa sucessão de trabalhos e aventuras que culminou com a fundação do New York City Ballet, Balanchine passou a liderar o bailado na América do Norte, juntamente com Kirstein.

A produção de seus tranalhos ultrapassa 80 obras, sendo que as mais significativas são “Serenade”, “Le Baiser de la Fée”, “Ballet Imperial”, “Night Shadow”, “Theme and Variations” e “Quatro Temperamentos”.Considerado o mestre do bailado abstrato com base de inspiração na música, Balanchine chegou a influenciar coreógrafos como William Dollar, John Taras e Todd Bolender.

Como diretor artístico, além de coreógrafo, menosprezava o cenário e os figurinos — em parte por razões financeiras — em parte devido às suas concepções sobre a relação entre a música e o movimento. Balanchine teve poucos intérpretes homens, deixando o balé principalmente para as mulheres. Suas coreografias sempre mostram movimentos diferentes, com muitas torções de tronco e quadris. Hoje, seus trabalhos são remontados em todo o mundo.

Dança dos quatro cantos


Marcela Benvegnu

Viver da arte da dança, trabalhar com os mais renomados coreógrafos da atualidade e, sobretudo, ser um grande bailarino. Esse é o sonho de vários alunos de escolas de dança brasileiras, que pode se tornar realidade. Prova real poderá ser vista no palco do Teatro Municipal “Dr. Losso Netto”, hoje, às 21h, quando acontece a “Gala Internacional — Um Brinde a Piracicaba”, espetáculo com direção de Camilla Pupa — que em 2007 completa 25 anos de carreira —, que reúne bailarinos das mais importantes companhias de dança do Brasil e exterior, além da Oficina da Dança de Piracicaba. Os ingressos estão esgotados. O evento tem apoio do Jornal de Piracicaba.

Antes da apresentação, às 19h30, acontece no mesmo espaço a entrega do Troféu de Mérito Cultural Fabiano Rodrigues Lozano e das medalhas de Mérito Cultural para personalidades que contribuíram para o desenvolvimento da cultura piracicabana ao longo do ano. Camilla foi premiada com a medalha Iris Ast, na categoria dança.

Um dos destaques de “Gala Internacional” é o bailarino Denis Piza, que cresceu em Piracicaba e hoje é solista da Companhia Niedersächischen Staats Ballet, de Hannover, Alemanha. Piza poderá ser visto na coreografia de abertura, “Dom Quixote”, com Marcela Lacreta, da Oficina da Dança e no encerramento, em “Corsário”, com Ivy Amista, solista do Bayerisches Staatsballet — Ballet da Ópera de Munique, ambas coreografias de Camilla após Marius Petipa (1822-1910).

Entre os bailarinos ainda destacam-se profissionais do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Grupo Corpo de Belo Horizonte, Camilla Ballet, Miami City Ballet School, Heinz-Bosl-Stiftung-Ballet, Ballet de Monterrey, Pacific Dance Arts, Cia. Theater Philharmonie Thüringen e outros. O que talvez poucos saibam é que esses bailarinos não foram convidados para a apresentação somente por serem talentosos e integrarem grandes companhias. Todos, de forma direta ou indireta, foram alunos de Camilla. “Fiquei muito feliz porque todos atenderam prontamente ao meu convite para dançarem em Piracicaba. Eles estão de férias no Brasil e estão aqui hoje por amor”, fala a diretora, que mora em Piracicaba, tem uma escola de dança (Camilla Ballet) em São Paulo e ministra aulas na Oficina da Dança.

Conhecida no cenário da dança brasileira como uma das maiores exportadoras de talentos, Camilla acredita que a lição mais importante desta noite é mostrar a todos como é possível fazer dança de qualidade e proporcionar emprego aos bailarinos brasileiros. “Nosso bailarinos são muito talentosos e integram as maiores companhias de dança do mundo. A receita disso é um bom profissional, um trabalho bem dirigido e muita disciplina. Desta forma a dança continuará crescendo como arte em todo o mundo.”

REPERTÓRIO — “Gala Internacional” vai além de uma apresentação de dança tradicional. O espetáculo pode ser considerado um convite à história da dança por trazer ao palco alguns dos mais famosos balés de repertório, como “Suíte de Dom Quixote”, “La Bayadére” e “O Corsário”, de Petipa; “Águas Primaveris”, de Asaf Messerer; “Esmeralda”, de Jules Perrot (1810-1892), e “Cisne Negro”, de Lev Ivanov (1950-1980). Além destas coreografias, “Desejo”, de Éder Braz; “Flocos de Neve”, de Tatiana Stamado; “Winds”, do piracicabano André Malosá — que foi bailarino do Le Jeune Ballet de France, em Paris —, “Vortex”, de Alvin Ailey (1931- 1989), e “Who Cares?”, de George Balanchine (1904-1983) completam o programa.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Sapateia, Brasil!


Marcela Benvegnu

Intercâmbio, troca, formação e informação. Essas são algumas das qualidades que envolvem o Festival Internacional de Sapateado de Campinas, organizado pela sapateadora e instrumentista Christiane Matallo desde 2000, que a partir deste ano passa a se chamar Brasil International Tap Festival e acontecerá nos dias 30 e 31 de agosto e 1º e 2 de setembro de 2007 na cidade de Jaguariúna, a 16 quilômetros de Campinas.O evento traz profissionais com linguagens e frentes de trabalho diferentes para a construção e fundamentação do pensamento crítico do bom profissional ligado à arte do sapateado. O objetivo do evento é o de promover um encontro entre alunos e professores que participam de aulas, apresentações, tap jam sessions, exibição de filmes, bate-papos, entre outras particularidades.Este ano o festival recebe grandes artistas, como Jason Samuels Smith (USA), o único coreógrafo a ganhar um prêmio Emmy depois do coreógrafo de Fred Astaire e atualmente o melhor sapateador americano; Derick Grant (USA), diretor do “Imagine Tap”, espetáculo que reuniu nos palcos de Chicago, no ano passado, uma trupe dos mais renomados e talentosos sapateadores; Aaron Tolson (USA), co-diretor de “Imagine Tap”; Corinne Karon (USA), única sapateadora a se apresentar em todos os continentes do mundo e fazer uma performance na Antártida.Entre os professores brasileiros estão Dalga Larrondo, um dos únicos percussionistas do mundo a dominar a técnica do zarb, tambor utilizado na música clássica iraniana, e Christiane Matallo, considerada pelo jornal “The New York Times” como a “Carmen Miranda do sapateado” e a única brasileira a ministrar aulas no Tap City, o maior evento de sapateado dos Estados Unidos, por dois anos consecutivos.Além das aulas que acontecem durante todo o dia, as noites são reservadas para outras atividades. Na quinta-feira, dia 30, acontece a exibição de filmes lendários do sapateado americano, seguida de bate-papo; na sexta-feira, dia 31, uma jam session com a banda Gilberto de Syllos e no sábado, às 21h, no Centro Cultural de Jaguariúna, uma apresentação de grupos amadores, profissionais e estrelas convidadas.Todos os cursos custam R$ 400. Ainda restam algumas vagas e as inscrições podem ser feitas pelo site www.christiane-matallo.com.br e também pelo telefone (19) 3255-8323. O apoio é da Só Dança e da Prefeitura de Jaguariúna.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

O novo corpo do Corpo

Marcela Benvegnu

Contaminado pela contemporaneidade da música de Lenine, o coreógrafo residente do Grupo Corpo, de Belo Horizonte, Rodrigo Pederneiras, reconstruiu seu vocabulário coreográfico para montar “Breu”, a nova coreografia da companhia que pode ser vista até domingo no Teatro Alfa, em São Paulo. Isso para quem já comprou ingressos, porque eles se esgotaram em questão de dias. Em “Breu”, Pederneiras abandona seus movimentos característicos — que evidenciam sua gramática corporal — para construir um corpo que dança com as texturas da urbanidade de nossos tempos.
O Corpo não dramatiza. Em sua maneira de “dizer” faz do corpo um suporte para desafiar a cordialidade, o diálogo e as normas. De um canto do palco, a imobilidade dos bailarinos antecipa as quedas que marcam o percurso coreográfico. Neste trabalho, há ainda mais peso e uma concentração de movimentos na faixa logo acima do chão. Rasteiros, os corpos são movidos pelos ombros, tornozelos, calcanhares e, vez ou outra, erguidos, ainda que inertes, pela compaixão (ou culpa) de um companheiro. Mas a redução do excesso provoca rupturas dos laços sociais e afetivos. Talvez essa horizontalidade seja a marca mais profunda de “Breu”, afinal Pederneiras é o maior amante de movimentos longilíneos e de quebras de quadris da dança contemporânea brasileira.
A organização da cena revela um espaço multifacetado, complexo, onde corpos disputam o direito de ordenar suas próprias trajetórias. Bailarinos, que a princípio parecem se mover sem nenhuma ordem, sabem exatamente para onde vão e porque vão. É quando o choque se faz inevitável e o novo trabalho se revela uma dissertação sobre o enfrentamento e a falta de capacidade de se comunicar.
Da imobilidade à queda, da inquietude à inércia, é por onde caminha “Breu”, um dos mais comuns retratos contemporâneos do ambiente ao mostrar o comportamento das pessoas dominadas pelo tempo, pelo individualismo e pela violência. O corpo do Corpo está no limite.
Na mesma noite, o público pôde rever “Sete ou Oito Peças Para um Balé” (1994). A partir de oito temas musicais surgidos da parceria inédita entre o instrumentista e compositor norte-americano Philip Glass e o grupo instrumental mineiro Uakti, Rodrigo Pederneiras constrói uma obra onde a partitura de movimentos emerge irretocável pela genialidade da forma.


Crédito da foto: José Luiz Pederneiras

Thank you, Dance!

by Judy Smith "