sexta-feira, 27 de março de 2009
Duato e Scheir: os novos da SPCD
Marcela Benvegnu
A São Paulo Companhia de Dança nasceu mostrando resultados. Mesmo sem sede fixa, com uma nova audição realizada para completar o elenco e projetos que envolvem professores e nomes da dança (o Figuras da Dança e o Corpo-a-Corpo, são exemplos disso), ela continua na estréia de trabalhos. Gostem ou não, talvez a companhia seja a única no país com um repertório tão grande e importante em pouco mais de um ano de existência. Aos olhos dos outros, cabe saber como esse tempo (e dinheiro) foi aproveitado e se a gramática corporal desses novos bailarinos já está mais evidente nas criações.
Considerações à parte, a São Paulo Companhia de Dança, dirigida por Iracity Cardoso e Inês Bogéa, estréia a partir desta semana, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, duas novas montagens, “Gnawa” (2005), de Nacho Duato (1957), e “Ballo” (2009), de Ricardo Scheir (1961), para marcar a abertura de sua temporada 2009. As coreografias se unem a “Serenade”, de George Balanchine, e “Les Noces” (1923), de Bronislava Nijinska (1891-1972) — trabalhos apresentadas pela São Paulo Companhia de Dança no ano passado — em dois programas.
Os trabalhos do primeiro programa, que vai de hoje a domingo, têm em comum a relação com rituais. “Les Noces”, parte da trivialidade, um casamento tradicional de camponeses russos, para criar uma geometria de movimentos que aliou a tradição do balé às vanguardas modernistas do início do século 20. Já “Gnawa”, de Duato, diretor da Compañía Nacional de Danza, da Espanha, é inspirada no universo étnico e religioso de uma confraria mística muçulmana do norte da África. De origem sub-saariana, os gnawa incorporam cantos às suas práticas espirituais, e Duato adota como base do trabalho, canções dessa comunidade.
No programa dois — de 2 a 5 de abril — “Serenade” (1935), de George Balanchine (1904-1983), criada inicialmente para os alunos da School of American Ballet, encontra ecos na nova criação de Scheir, “Ballo”, com música original de André Mehmari (1977). A composição teve como ponto de partida o tema de um madrigal de Claudio Monteverdi (1567-1643), “Ballo Delle Ingrate” (“Baile das Ingratas”). Na peça, Mehmari apresenta variações que remetem a diversos momentos da história da música e, assim, propõe um diálogo do antigo com o novo, do moderno com o arcaico. Da mesma forma, Scheir busca referências na obra de Monteverdi para tratar das relações humanas e de questões importantes para o homem de todos os tempos.
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PARA VER— São Paulo Companhia de Dança. Temporada 2009. “Les Noces” e “Gnawa”. Até 29 de março. “Serenade” e “Ballo”, de 2 a 5 de abril. De quinta-feira a sábado, às 21h, e aos domingos, às 19h, no Teatro Sérgio Cardoso (rua Rui Barbosa, 153). Ingressos custam entre R$ 10 e R$ 20. Data, local e horários foram enviados pelos organizadores. Mais informações (11) 3288-0136.
terça-feira, 24 de março de 2009
Cia. Druw apresenta ‘Corpoético’ no Municipal
Marcela Benvegnu
Em cena, o corpo é levado pelo jogo do acaso estruturando um estado de plena composição lírica. A movimentação cria ambientes, situações, imagens e dinâmicas baseadas nas poesias. Na união de todos esses contornos instala-se “Corpoético”, espetáculo de dança contemporânea da Companhia Druw, de São Paulo, que sobe ao palco do Teatro Municipal “Dr. Losso Netto”, hoje, às 20h. Antes, às 10h, na Sala 2 do Municipal, o grupo ministra um workshop. As entradas para as atividades são gratuitas.
Com direção da consagrada Miriam Druwe, a coreografia busca a linguagem poética no corpo que dança. “É a busca de um estado de prazer pleno em brincar com a construção da palavra corporal, guiado por simples impulsos”, fala Miriam. “Todas as nossas emoções e vivências ficam registradas no nosso corpo e refletem no outro uma experiência. Essas relações nos permitem criar imagens internas. É como se eu estivesse tranqüila por fora e fosse invadida por um turbilhão de pensamentos. Chamo esse processo de dinâmicas internas, que variam de um estado para o outro. O trabalho foca isso”, aponta a coreógrafa.
A montagem, que também usa recursos multimídia, permite que o público possa ter a experiência de olhar o corpo de diferentes ângulos. “Temos algumas projeções e em alguns momentos filmamos partes do nosso próprio corpo. São cenas que o público não vê. Estados desse corpo que dança. Uma outra história com todas as suas possibilidades”, fala Miriam.
O trabalho reflete também de forma lúdica e divertida sobre a questão do corpo feminino que se sujeita aos rigores de uma moda que o afasta cada vez mais de sua essência e vive o caos de querer ser outro corpo. “O cabelo que se pinta, alisa, enrola. Os seios que crescem, as rugas do tempo, o aumento do peso, ou seja, um corpo perdido de sua autêntica poesia”, completa a coreógrafa que divide o palco com Adriana Guidotte e Tatiana Guimarães.
Inspirado em “Corpo-Tempo-Espaço”, de Cecília Meirelles, e “Necrologia dos Desiludidos de Amor”, de Carlos Drummond de Andrade, “Corpoético” é um trabalho de 2006, que retornou aos palcos no ano passado. “Montei em 2006 logo depois de ter meu segundo filho. O tive com 40 anos e tenho uma menina de 19 anos. Sempre achei que teria outro filho. Era uma sensação. ‘Corpoético’ trabalha essas sensações que se instalam no nosso corpo e vão sendo transformadas com o tempo”, fala Miriam. “Agora somos os mesmos corpos em cena, modificados pelas nossas imagens, pelo tempo e por outros registros. É interessante vivenciar isso novamente”, revela Miriam.
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WORKSHOP — Expansão do Movimento com Cia Druw é o nome do workshop que o grupo ministra hoje, às 10h, na Sala 2 do Municipal. O objetivo da aula é possibilitar ao corpo que ele desenvolva qualidades de movimentos que contribuam de forma efetiva na formação do bailarino intérprete-criador. A estrutura é baseada em estudos práticos da arquitetura desse corpo em movimento, no tempo e no espaço, de forma a ampliar o repertório do bailarino. “O estudo técnico aqui se refere às possíveis evoluções que esse corpo seja capaz de executar de forma segura e consciente, ampliando seu domínio e potencializando sua expansão”, fala a coreógrafa.
COREÓGRAFA — Miriam Druwe é uma importante coreógrafa da cena contemporânea brasileira. Integrou como intérprete algumas das principais companhias nacionais, como o Balé da Cidade de São Paulo, Cisne Negro Cia. de Dança, República da Dança e Cia.Terceira Dança. Trabalhou com coreógrafos de renome como Luiz Arrieta, Ana Mondini, Vitor Navarro, Vasco Wellemcamp, Gigi Caciulenou e Phillip Tallard. Participou como intérprete dos espetáculos “Mucho Corazon”, “Alma em Fogo” e “O Bailado do Deus Morto”, de José Possi Neto, e coordenou diversos projetos na área de dança e literatura. Já coreografou para a Distrito Cia. de Dança, de Ribeirão Preto; Cia Stacatto, de São Caetano, entre outras
Quanto pesa o público?
Marcela Benvegnu
A Cia. Corpos Nômades estréia hoje, às 21h, no O Lugar — sede do grupo — em São Paulo, o espetáculo “Hotel Lautréamont — Os Bruscos Buracos do Silêncio”, que foi contemplado pelo 4º Programa Municipal de Fomento à Dança. Com coreografia e direção de João Andreazzi, a montagem explora todo o espaço cênico do local de forma itinerante e participativa. A entrada é gratuita.
No hotel o público é recebido por camareiras e encaminhado à pesagem, onde os bailarinos, com grandes rabos de cavalo, estão de prontidão. A somatória do peso da platéia é utilizada em cena posteriormente e toda a coreografia traz um universo surreal e instigante ao público que assiste o trabalho caminhando pelo espaço e bem perto dos intérpretes. Frases saem das bocas das personagens de variadas formas: ora roendo unhas, pelo microfone, ou soprada boca a boca. Formas de animais surgem na cena, unindo corpos e expressões. As cores, a iluminação e a sonoplastia trazem um ar sombrio de antigos hotéis, como os que o Conde de Lautréamont costumava se hospedar para escrever suas histórias.
João Andreazzi e a Cia. Corpos Nômades se inspiraram na obra de Isidore Ducasse, que adotou o pseudônimo de Conde de Lautréamont para escrever “Os Cantos de Maldoror” — escrito entre 1868 e 1869. Nascido no Uruguai, o autor morreu misteriosamente em 1870, desconhecido, aos 24 anos, em Paris. No elenco do trabalho estão Aldiane Dela Costa, João Andreazzi, João Pirahy, Mariana Mantovani, Ricardo Silva e Tiago Teles. Para a montagem a companhia teve assessoria poética e dramatúrgica de Claudio Willer.
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PROCESSOS —Todos os trabalhos da Cia. Corpos Nômades buscam experimentar as amplas possibilidades de atuação cênica corporal, envolvendo múltiplas linguagens além da própria dança contemporânea, como teatro, vídeo-arte, música, literatura e instalações performáticas. O objetivo da companhia é atuar na formação, criação e na difusão das artes cênicas contemporâneas. Em nove anos anos de atuação a Corpos Nômades recebeu alguns prêmios significativos como o da Associação Paulista de Críticos de Arte 2000, Funarte — EnCena Brasil 2002, Rumos Itaú Cultural Dança 2003, Prêmio Estímulo à Dança 2004, Associação Paulista de Críticos de Arte 2005, 1º Programa Municipal de Fomento à Dança de São Paulo 2006, Funarte Klauss Vianna 2007 e 4º Programa Municipal de Fomento à Dança de São Paulo.
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PARA VER — “Hotel Lautréamont — Os Bruscos Buracos do Silêncio”, com a Cia. Corpos Nômades. Estréia hoje, às 10h, em O Lugar (rua Augusta, 325), no Centro, em São Paulo. A temporada vai até o dia 26 de abril. Às sextas e sábados, 21h, e aos domingos, às 20h30. A entrada é gratuita. Mais informações (11) 3237-3224 ou www.ciacorposnomades.art.br.
sexta-feira, 13 de março de 2009
Stacattosp estréia “Dispnéia 33 33 33”
Marcela Benvegnu
Depois de assistir ao espetáculo “Suíte Funk” em Piracicaba este final de semana e descobrir um pouco mais sobre as relações da dança contemporânea com outras esferas, que tal ir a São Paulo para assistir “Dispnéia 33 33 33”, de Fernando Machado, com Stacattosp Cia. de Dança, no Centro Cultural São Paulo? A montagem, que fica em cartaz no espaço até o dia 29 de março, às sextas e sábados, às 20h30, e aos domingos, às 19h30, dialoga dança contemporânea com poesia. A entrada é gratuita.
Em “Dispnéia 33 33 33”, as palavras podem ser bonitas, feias, cheias de signos, significantes ou significados, novas ou velhas, de acordo com a interpretação subjetiva do espectador. Poesia e dança numa métrica perfeita desenvolvida por movimentos executados de forma milimétrica. O escopo de fundo é, por derradeiro, um corpo fragilizado que criou poesia que inspirou a dança de outros corpos. É poesia mobilizando corpo, corpo gerando poesia-dança. A trilha sonora do espetáculo foi especialmente composta pelo músico Loop B, que recentemente compôs trilha para a Companhia de Dança de Diadema.
Fundada em 2001, por um grupo de mulheres formadas pela Fundação das Artes de São Caetano do Sul, a companhia se mudou para São Paulo em 2006, e a contar com a direção de Fernando Machado. O coreógrafo atuou como intérprete na Druw Cia. de Dança, Grupo Caleidos, Cia. de Danças de Diadema (de 1997 a 2008) — na qual foi também professor e coreógrafo — Raça Cia. de Dança, Watt’s Cia de Dança.
No elenco da obra estão Paula Sanchez, Aline Proetti, Maitê Molnar, Paula Sanchez, Silvia Martins e Vanessa Pinto. O espetáculo conta com a participação especial de Philippe Iwantschuk.
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Suíte Funk: retrato da rua
Marcela Benvegnu
O retrato da rua em forma de dança urbana. A fórmula conhecida do hip-hop aliada à sofisticação e pesquisa dos movimentos de dança contemporânea. Uma “Suíte Funk” protagonizada pela Companhia Urbana de Dança, do Rio de Janeiro, que retrata, em diversos ritmos de rua, a rotina das vidas de seus integrantes que vivem nas favelas e subúrbios da cidade. Apresentado na 25ª Bienal de Dança de Lyon em 2008, o trabalho chega aos palcos piracicabanos amanhã e domingo, às 20h, no Sesi Piracicaba. “Suíte Funk” é um dos 13 espetáculos selecionados para integrar o circuito Viagem Teatral 2009 do Sesi São Paulo, promovido pela entidade em todo o Estado. A entrada é gratuita.
Coreografado e dirigido Sonia Destri, a montagem mistura passos de hip hop, funk, capoeira e samba, sem abandonar a contemporaneidade. Para ela, o objetivo da apresentação é mostrar o Rio de Janeiro de um ponto de vista múltiplo, de quem vive nos subúrbios, nas favelas, na linha de risco. “Suíte Funk é uma construção fragmentada, um olhar dos integrantes da companhia sobre a cidade em que cresceram, ao som dos ritmos da rua”.
O trabalho nasceu por conta de algumas pesquisas de investigação do corpo da coreógrafa. “Quando nos apresentamos em Lyon em 2006, recebemos o convite para 2008. Assim eu deveria montar um novo trabalho. Em 2007 recebi um prêmio de residência coreográfica do Sesc, e ainda estava em busca de uma idéia. Foi quando eu coreografei um baile funk para o filme ‘Maré Nas Histórias de Amor’. Achei que a idéia poderia vir do funk, que é uma coisa clássica e ao mesmo tempo violenta do Rio de Janeiro. Achei que era um retrato interessante”, aponta a coreógrafa.
Porém, com o passar do tempo ela encontrou dificuldade. “Eu queria falar do universo de uma manifestação cultural e, sobretudo, carioca, mas achei que tinha que trazer um pouco do universo da dança contemporânea para eles. Assim o trabalho virou uma suíte. E enquanto eu não tiver patrocínio para criar outras coisas, continuarei falando do Rio de Janeiro. Não é algo bairrista, mas é onde lido com um universo íntimo e isso facilita a minha vida. É uma zona de conforto grande para a minha dança”, fala Sonia.
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FORMAS DE OLHAR
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A Companhia Urbana de Dança é formada por um grupo de jovens moradores de áreas populares na capital fluminense. Na companhia, os integrantes têm contato com um espaço de expressão artística, socialização e formação, no qual suas experiências e idéias são incorporadas como material de criação. O currículo do grupo acumula diversas participações especiais em filmes, programas de TV, campanhas publicitárias e desfiles como Fashion Rio e Fashion Recife.
“A minha relação com a companhia, que já tem cinco anos, surgiu de forma natural. Ela foi estabelecida com negros da favela, que ensaiavam comigo depois das 23h, quando tínhamos uma sala livre para ensaios. No começo eu não sabia o que ia acontecer, mas depois que eu vi o resultado não pensei duas vezes em continuar. Não abro mão deles. As pessoas são preconceituosas e eu quero provar para essa rapaziada que eles fizeram uma escolha bacana. Que a dança pode mesmo transformar a vida deles e que eles têm que ser grandes protagonistas da história e não somente dos textos bonitos, que falam de uma relação de pertencimento que eles declamam em ‘Suíte Funk’”, revela a coreógrafa.
Sonia vem de uma escola de dança eclética. Fã da coreógrafa alemã Pina Bausch e do coreógrafo francês Maurice Béjart (1927-2007), com experiências em teatro e TV — ela foi diretora do núcleo de dança da TV Manchete — Sônia descobriu essa dança urbana na Europa. “Eu dava aulas de dança contemporânea na Alemanha e conheci um americano que me mostrou uma movimentação desconhecida do movimento hip-hop de periferia. Era algo mais urbano. E eu brinquei com isso por um tempo, acabou que entrou no meu corpo. A dança urbana me deu leveza, felicidade e a contemporânea o amor”, revela.
A coreógrafa conta que os jovens da companhia — André Feijão, Clayton Hilário, Cleber Hilário, José Amilton Junior, Junior, Miguel Fernandes, Raphael Russier Felipe, Ruy Chagas Junior e Tiago Souza — sempre estiveram abertos aos movimentos propostos por ela. “Quando eles vêem a palavra entrar no corpo, muda tudo. Quero que eles saiam da favela, que tenham outros olhares. Para mim todos são indivíduos da sociedade, com nome e sobrenome”, finaliza.
Além de Lyon, a companhia já se apresentou no Museu Quai Branly, na França; Recontres Choréographique de Carthage, no Festival Internacional de Biarritz, e na Semana do Brasil no Teatro de Chelles, em Paris.
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SERVIÇO — Viagem Teatral 2009 apresenta “Suíte Funk”. Amanhã e domingo, às 20h, no Sesi Piracicaba (avenida Luiz Ralph Benatti, 600), na Vila Industrial. A entrada é gratuita e os ingressos devem ser retirados com uma hora de antecedência. A classificação é livre e a montagem tem duração de 50 minutos. Data, local e horário foram enviados pelos organizadores. Mais informações: (19) 3421-2884.
domingo, 8 de março de 2009
Meu olhar sobre "Tieta do Agreste"
Marcela Benvegnu
Antes de tudo isso não será uma crítica. Isso porque defendo que crítica é crise, quebra de obra em pedaços, e que passa muito (mas muito) longe de gosto ou opinião. (Falaremos muito de crítica, critérios e afins no curso de Redação Crítica de Dança, que eu vou ministrar no 27º Festival de Dança de Joinville, que acontece de 15 a 25 de julho, este ano). Confesso que é mais do que complicado explicar isso para as pessoas. A maioria acha que crítica é opinião. O que falarei em poucos parágrafos abaixo será simplesmente a minha opinião, coisa inédita nesse espaço.
Fui ao Municipal assistir "Tieta do Agreste - O Musical" ontem, dia 7 de março. A minha expectativa era grande. Fiz uma matéria que me movimentou por dentro jornalisticamente ("O Amado Brasil", que está abaixo deste post), uma matéria que eu tive tempo de produzir, pensar, e quando temos isso, de fato, o trabalho fica melhor do que o pá-pum. Depois produzi outro texto sobre os bastidores... figurinos e tal. Tudo bem divertido. Sendo assim, o musical seria para mim o fecho dessa tríade, de ouro.
Eu tinha uma visão privilegiada do palco. Antes das cortinas se abrirem sabia que os desenhos coreográficos poderíam ser vistos (e analisados) com perfeição e que eu iria devorar aquele musical. Estou acostumada a ir em espetáculos em SP, nos últimos anos foram poucos os musicais ou espetáculos de dança de grandes companhias que eu não assisti. E confesso que "Tieta" vindo a mim, na minha cidade, é algo bem mais fácil...
Mas... porém... entretanto, achei o espetáculo lonnnnnnnnnnnnnnnngo, talvez porque a montagem já começou atrasada 40 minutos. Tânia Alves segura o papel título com brilhantismo, assim como Emanuelle Araújo, a verdadeira voz das cenas. Blota Filho está impagável, sua voz cativa o público e quando ele troca de personagem nos faz parar e pensar: "Será que é ele mesmo?". O elenco funciona muito bem... a peça flui e os diretores foram felizes.
Sem comparações por favor. Mas pensei muito em Charles Muller e Claudio Botelho, que são conhecidos adaptadores de musicais... Pensei em Batah Chamma, em Tania Nardini, coreógrafas de musicais... Isso porque estamos acostumados com essas montagens "broadway", e a diretora de Tieta (Christina Trevisan) foi clara quando disse que de Broadway eles só tinham o padrão de qualidade. Figurinos, cenários, trocas de roupa, microfonia. OK. Tudo muito bom mesmo. Acredito que Piracicaba nunca tenha visto algo semelhante, ainda com música ao vivo. Os músicos eram ótimos. CLAP! CLAP! CLAP! Mas falta dança. Se aquilo é tão brasileiro como é intitulado e o brasileiro é um povo que faz festa mesmo quando seu time fica em segundo lugar... acho que faltou movimento.
(Vale lembrar que isso é uma opinião e não uma crítica, e se fosse crítica ela teria outro tom e outra forma de colocação, talvez algo do tipo: "Rosely Fiorelli, a coreógrafa, poderia ter mostrado mais pelos corpos que tinha em cena ...", porque é crítica, e não opinião. E CRÍTICA NÃO é GOSTO. E aqui estou publicando o meu gosto).
Não que eu estou defendendo a minha área, mas às vezes a palavra não dá conta de dominar o palco sozinha. A inciativa de criar um musical brasileiro é fantástica. Dá a chance de mais pessoas terem a oportunidade de entrar em contato com essa forma de arte e nos educa para um outro olhar. Confesso que preciso ver mais musicais brasileiros, para ver as tendências, ou mesmo a relação corpo-palavra. Tomara que eles produzam mais. Não é simples tirar do corpo a referência que você já tem... por isso como o trabalho é "brasileiro" não podemos e nem devemos criar comparações.
Antes de tudo isso não será uma crítica. Isso porque defendo que crítica é crise, quebra de obra em pedaços, e que passa muito (mas muito) longe de gosto ou opinião. (Falaremos muito de crítica, critérios e afins no curso de Redação Crítica de Dança, que eu vou ministrar no 27º Festival de Dança de Joinville, que acontece de 15 a 25 de julho, este ano). Confesso que é mais do que complicado explicar isso para as pessoas. A maioria acha que crítica é opinião. O que falarei em poucos parágrafos abaixo será simplesmente a minha opinião, coisa inédita nesse espaço.
Fui ao Municipal assistir "Tieta do Agreste - O Musical" ontem, dia 7 de março. A minha expectativa era grande. Fiz uma matéria que me movimentou por dentro jornalisticamente ("O Amado Brasil", que está abaixo deste post), uma matéria que eu tive tempo de produzir, pensar, e quando temos isso, de fato, o trabalho fica melhor do que o pá-pum. Depois produzi outro texto sobre os bastidores... figurinos e tal. Tudo bem divertido. Sendo assim, o musical seria para mim o fecho dessa tríade, de ouro.
Eu tinha uma visão privilegiada do palco. Antes das cortinas se abrirem sabia que os desenhos coreográficos poderíam ser vistos (e analisados) com perfeição e que eu iria devorar aquele musical. Estou acostumada a ir em espetáculos em SP, nos últimos anos foram poucos os musicais ou espetáculos de dança de grandes companhias que eu não assisti. E confesso que "Tieta" vindo a mim, na minha cidade, é algo bem mais fácil...
Mas... porém... entretanto, achei o espetáculo lonnnnnnnnnnnnnnnngo, talvez porque a montagem já começou atrasada 40 minutos. Tânia Alves segura o papel título com brilhantismo, assim como Emanuelle Araújo, a verdadeira voz das cenas. Blota Filho está impagável, sua voz cativa o público e quando ele troca de personagem nos faz parar e pensar: "Será que é ele mesmo?". O elenco funciona muito bem... a peça flui e os diretores foram felizes.
Sem comparações por favor. Mas pensei muito em Charles Muller e Claudio Botelho, que são conhecidos adaptadores de musicais... Pensei em Batah Chamma, em Tania Nardini, coreógrafas de musicais... Isso porque estamos acostumados com essas montagens "broadway", e a diretora de Tieta (Christina Trevisan) foi clara quando disse que de Broadway eles só tinham o padrão de qualidade. Figurinos, cenários, trocas de roupa, microfonia. OK. Tudo muito bom mesmo. Acredito que Piracicaba nunca tenha visto algo semelhante, ainda com música ao vivo. Os músicos eram ótimos. CLAP! CLAP! CLAP! Mas falta dança. Se aquilo é tão brasileiro como é intitulado e o brasileiro é um povo que faz festa mesmo quando seu time fica em segundo lugar... acho que faltou movimento.
(Vale lembrar que isso é uma opinião e não uma crítica, e se fosse crítica ela teria outro tom e outra forma de colocação, talvez algo do tipo: "Rosely Fiorelli, a coreógrafa, poderia ter mostrado mais pelos corpos que tinha em cena ...", porque é crítica, e não opinião. E CRÍTICA NÃO é GOSTO. E aqui estou publicando o meu gosto).
Não que eu estou defendendo a minha área, mas às vezes a palavra não dá conta de dominar o palco sozinha. A inciativa de criar um musical brasileiro é fantástica. Dá a chance de mais pessoas terem a oportunidade de entrar em contato com essa forma de arte e nos educa para um outro olhar. Confesso que preciso ver mais musicais brasileiros, para ver as tendências, ou mesmo a relação corpo-palavra. Tomara que eles produzam mais. Não é simples tirar do corpo a referência que você já tem... por isso como o trabalho é "brasileiro" não podemos e nem devemos criar comparações.
O Amado Brasil
Marcela Benvegnu
publicado no Jornal de Piracicaba, em 6 de março de 2009 / caderno Fim de Semana
Os aspectos mais corriqueiros da vida popular do povo baiano, seus costumes, modo de ser, agir, religiosidade e estratégias de sobrevivência foram mais do que traduzidos por um escritor da terra: Jorge Amado (1912-2001). Entre suas mais de 30 publicações, destaca-se “Tieta” (1977), espécie de espelho de algumas representações da identidade do povo brasileiro, que depois de ter sido tema de novela e filme, será pela primeira vez na história narrada em forma de musical, pelas mãos de uma mulher, a diretora e adaptadora Christina Trevisan. E para comemorar o Dia Internacional da Mulher, a montagem “Tieta do Agreste — O Musical”, estrelada por Tania Alves, será apresentada amanhã, às 21h, e domingo, às 19h, no Teatro Municipal “Dr. Losso Netto”, com apoio do
Amado conseguiu expressar em palavras a essência da Bahia. Nas ruas do centro de Salvador ou nas plantações de cacau de Ilhéus, narrou conflitos e injustiças sociais, maravilhas e peculiaridades do seu Estado natal, além de construir personagens que esbanjavam sensualidade, como Tieta. “Quando a produção me procurou para que eu adaptasse a obra em um musical eu fui taxativa e afirmei que não faria algo estilo Broadway. Porque o que era preciso fazer com a obra de ‘Tieta’ era trazer à tona a sua brasilidade”, fala Christina.
Segundo a diretora e adaptadora da montagem, o musical revela um subtexto que vai além do seu regionalismo. “São anseios comuns de qualquer cidade pequena nesse Brasil. É a religião, os conflitos de sexualidade reprimidos, as relações familiares”, revela Christina. “E dentro desta proposta, me aliei ao Pedro Paulo Bogossian, que é o diretor musical, e a Rosely Fiorelli, a coreógrafa, para adaptarmos isso juntos. Eu retirei as letras das páginas do livro de Amado, o Bogossian musicou e a Rosely criou as coreografias. Não apresentaremos um show à la Broadway, porque temos um corpo brasileiro, somos irreverentes, cínicos, entusiasmados. De Broadway só temos o padrão de qualidade”, fala.
Em cena o público verá composições e coreografias que enfocam o forró, samba de roda, xaxado e até o tango. Tudo ao vivo. A banda é formada por seis instrumentistas, que acompanham o elenco em todas as apresentações. “Tenho certeza de que as pessoas se surpreenderão com o trabalho. A prosa de Amado é lírica, tem ritmo, rima. Cada hora nos encontramos em um personagem e aprendemos mais sobre outro. Por isso, Amado nos revela tanto nossa própria identidade e nos permite encontrar muitas Tietas”, atesta Christina.
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Nas primeiras cenas do romance, assim como no musical, Sant’Anna do Agreste, pequena vila do interior da Bahia, vive dias de grande expectativa enquanto se prepara para receber Tieta, filha da terra que retorna depois de 25 anos morando no sul do país e trabalhando como cafetina. Aos 17 anos, Tieta (Tania Alves) viverá aventuras amorosas que escandalizaram a população e, denunciada pela irmã mais velha, Perpétua (Maria do Carmo Soares), é expulsa de casa pelo pai Zé Esteves (Osvaldo Raimo).
Desde a sua partida, o único contato de Tieta com a família era por meio de cartas que tinham como remetente uma caixa postal em São Paulo. Além da correspondência, controlada por Carmosina (Neusa Romano), funcionária dos Correios, Tieta também enviava ajuda financeira para o pai, as irmãs, Perpétua e Elisa (Emanuelle Araújo/ Vyvian Albouquerque) e os sobrinhos. Perpétua acredita que Tieta é proprietária de uma butique famosa em São Paulo e que da morte de seu esposo, um comendador, provém a sua riqueza. Quando Tieta retorna a Sant’Ana do Agreste, acompanhada de Lenora (Tânia Paes), que apresenta como sua enteada —, mas na verdade é sua protegida no bordel —, é recebida com grande pompa. O que as pessoas não imaginam é que ela esconde um grande segredo.
“Alguns estudiosos consideram Tieta uma síntese de todas as mulheres de Jorge Amado. Ela é uma mulher da natureza, que cresceu com as cabras e sua referência de sexualidade é a dos animais. Isso gerou liberdade no seu espírito”, fala Tânia Alves. “A trama revela uma história cheia de dramas e preconceitos. O fato de o pai ter batido nela com um cajado e de ela ter ido embora provocou uma grande dor na personagem”, fala. A atriz e cantora revela que em Sant’Ana do Agreste, Tieta é uma espécie de lenda. “Ela volta influente e tem uma posição política ativa. Regressa para perdoar, se reconciliar com a família”, completa Tânia.
A presença de Tieta em Sant’Ana do Agreste deixa marcas profundas. Enquanto a cidade se transforma pela chegada do progresso — Tieta é responsável por levar luz da Hidrelétrica de Paulo Afonso até a cidade — ela se envolve com o seu sobrinho Ricardo — seminarista e filho de Perpétua—; Lenora e o prefeito apaixonam-se, industriais querem sediar uma fábrica de titânio na praia do Mangue Seco, e Elisa sonha em morar com a irmã na cidade grande.
“Elisa é uma típica personagem de Amado. É a irmã mais nova de Tieta, que é casada com um homem que ela julga pacato e que sonha em se mudar para a cidade grande. Com a chegada de Tieta ela enxerga essa possibilidade de mudar de vida”, fala Emanuelle Araújo, que na novela A Favorita, da Rede Globo, viveu a personagem Manu, uma prostituta, assim como Tieta. “Elisa é apaixonada pela vida e é obrigada e enfrentar a educação rígida imposta pelos pais”, completa a atriz, que afirma que a montagem é um verdadeiro presente à cultura brasileira.
Talvez Elisa não consiga realizar seu sonho, pois quando o segredo da vida de Tieta é revelado, ela é obrigada a partir novamente. Mas, Sant’Ana do Agreste e seus habitantes nunca mais serão os mesmos e nunca serão esquecidos por ela. “Interpretar Tieta tem sido algo marcante na minha vida. Gosto de trabalhos ricos e desafiadores. A personagem exige várias nuances e estabelece uma série de relações com o pai, o sobrinho com quem ela tem um caso de amor, que exige muito de mim como atriz”, fala Tânia, que dedica o espetáculo a Jorge Amado e Zélia Gattai (1916-2008). “Certa vez encontrei com os dois e eles me disseram que gostavam do meu trabalho. Então, onde estiverem, minha Tieta é para eles”, completa.
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A proposta de Jorge Amado e outros modernos foi definida pelo crítico literário Antonio Candido como “ir ao povo”. Amado, de fato, parece não somente ter ido ao povo, como ter feito parte dele para escrever textos que fossem reflexos de pura brasilidade. Segundo a antropóloga llana Seltzer Goldstein, consultora da editora Cia. das Letras para o relançamento das obras do baiano — até 2012 a editora relançará os 32 livros do escritor — e autora do livro “O Brasil Best-seller de Jorge Amado: Literatura e Identidade Nacional” (Ed. Senac), Amado era um grande observador da realidade, que se relacionava com vários extratos sociais. “Com essa capacidade de trânsito, ele foi capaz de ter uma síntese do Brasil muito particular, que tem relação direta com a imagem que ele fez do país”, fala.
Para Ilana, o escritor conseguiu uma penetração tão ampla na forma de o brasileiro olhar o país que acabou formando opiniões. “A literatura dele estava a serviço da nação”, atesta a pesquisadora, que aponta características similares nas obras do autor, pós-década de 50, quando ele abandona a militância política. “A primeira é a força das personagens, que sabem conviver com a diferença, o que é uma característica do brasileiro. A segunda é a mestiçagem, seguida da força da cultura popular. Ele acreditava que a cultura popular deveria inspirar artistas eruditos e sempre dizia que apesar de ter feito direito, nunca foi buscar o seu diploma. Sua faculdade havia sido a do Pelourinho”, conta Ilana.
Entre os pontos também figura o amor do brasileiros a festas, a força dos sentidos e o jeitinho brasileiro de ser. “Ainda incluo uma outra característica à literatura de Amado pensando em ‘Tieta’, ‘Teresa Batista’ e ‘Gabriela, Cravo & Canela’, que é a violência. Violência de diversos níveis, seja física ou entre o arcaico e o progresso. Essa briga entre o velho e o novo está presente em ‘Tieta’. A questão de gênero também. Embora ele seja acusado de colocar a mulher mulata como objeto na maioria dos seus livros, nesses três que citei, ele mostra mulheres que rompem com a convenção. Tieta foi assim”, completa Ilana.
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