sexta-feira, 10 de agosto de 2007

O novo corpo do Corpo

Marcela Benvegnu

Contaminado pela contemporaneidade da música de Lenine, o coreógrafo residente do Grupo Corpo, de Belo Horizonte, Rodrigo Pederneiras, reconstruiu seu vocabulário coreográfico para montar “Breu”, a nova coreografia da companhia que pode ser vista até domingo no Teatro Alfa, em São Paulo. Isso para quem já comprou ingressos, porque eles se esgotaram em questão de dias. Em “Breu”, Pederneiras abandona seus movimentos característicos — que evidenciam sua gramática corporal — para construir um corpo que dança com as texturas da urbanidade de nossos tempos.
O Corpo não dramatiza. Em sua maneira de “dizer” faz do corpo um suporte para desafiar a cordialidade, o diálogo e as normas. De um canto do palco, a imobilidade dos bailarinos antecipa as quedas que marcam o percurso coreográfico. Neste trabalho, há ainda mais peso e uma concentração de movimentos na faixa logo acima do chão. Rasteiros, os corpos são movidos pelos ombros, tornozelos, calcanhares e, vez ou outra, erguidos, ainda que inertes, pela compaixão (ou culpa) de um companheiro. Mas a redução do excesso provoca rupturas dos laços sociais e afetivos. Talvez essa horizontalidade seja a marca mais profunda de “Breu”, afinal Pederneiras é o maior amante de movimentos longilíneos e de quebras de quadris da dança contemporânea brasileira.
A organização da cena revela um espaço multifacetado, complexo, onde corpos disputam o direito de ordenar suas próprias trajetórias. Bailarinos, que a princípio parecem se mover sem nenhuma ordem, sabem exatamente para onde vão e porque vão. É quando o choque se faz inevitável e o novo trabalho se revela uma dissertação sobre o enfrentamento e a falta de capacidade de se comunicar.
Da imobilidade à queda, da inquietude à inércia, é por onde caminha “Breu”, um dos mais comuns retratos contemporâneos do ambiente ao mostrar o comportamento das pessoas dominadas pelo tempo, pelo individualismo e pela violência. O corpo do Corpo está no limite.
Na mesma noite, o público pôde rever “Sete ou Oito Peças Para um Balé” (1994). A partir de oito temas musicais surgidos da parceria inédita entre o instrumentista e compositor norte-americano Philip Glass e o grupo instrumental mineiro Uakti, Rodrigo Pederneiras constrói uma obra onde a partitura de movimentos emerge irretocável pela genialidade da forma.


Crédito da foto: José Luiz Pederneiras

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