quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Dance na www















Marcela Benvegnu
O mês de janeiro é bem diferente da agitação de julho, quando acontecem os maiores festivais de dança do país — Joinville, Brasília, Indaiatuba — e passa longe da programação de novembro e dezembro, quando a maioria das escolas de dança apresentam seus espetáculos de encerramento. Janeiro é mês de férias em escolas regulares e também companhias profissionais. Mas aqueles que quiserem se atualizar com as novidades do circuito do movimento podem navegar pela internet, o mundo da dança também está em suas páginas.
Dois dos endereços mais acessados pelos bailarinos e pesquisadores são o Idanca (idanca.net) e o Conexão Dança (conexaodanca.art.br). O site do Idanca — que está em férias até o final do mês — disponibilizou todo o seu arquivo para consulta e pesquisa. É possível navegar à vontade e acessar artigos, filmes, críticas e galerias. A agenda tem os eventos que foram enviados com antecedência e se você precisar conferir alguma programação será possível encontrar.
Os maiores pesquisadores em e de dança do país publicam seus artigos e comentários no Idanca — que tem versão em inglês. Se você ainda não conhece o site, vale a pena se cadastrar gratuitamente. Os organizadores do espaço, com coordenação de Sônia Sobral (leia Itaú Cultural), edição Nayse López e redação de Julia Lima, vêem no endereço a possibilidade do intercâmbio nacional e internacional sobre dança contemporânea. O projeto não tem fins lucrativos e é mantido pelo patrocínio da Petrobras — via Lei Rouanet.
O Conexão Dança se difere do Idança quanto à proposta. Eles falam sobre todas as manifestações e estilos, como sapateado, danças populares, folclóricas, hip-hop e outras. É possível ler as mais recentes matérias publicadas na mídia brasileira na sessão de notícias, conferir as audições — em janeiro o destaque é para a Cia. Jovem da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil —, ler artigos, saber sobre cursos de férias, editais, datas comemorativas, banco de projetos, e outros.
Agora se você já devorou esses endereços e seu vasto material, vale espiar os nacionais Quem Dança é Mais Feliz (geocities.com/quemdancaemaisfeliz/), Dança em Foco (dancaemfoco.com.br), Cia. Deborah Colker (ciadeborahcolker.com.br), All Dance (alldance.com.br), Vem Dançar Comigo! (vemdancarcomigo.com.br), Portal da Dança (dancas.com.br) e o site do FID — Fórum Internacional de Dança (http://www.fid.com.br/).

Tom da (e na) dança

Marcela Benvegnu

O termo suíte, de origem francesa, nasceu para denominar sequências de dança no período barroco. Porém, hoje, é empregado para designar uma organização de peças musicais, dispostas a formar um conjunto para serem tocadas sem interrupções. É isso que “Suíte Para Tom Jobim”, espetáculo que o Studio de Dança Christiane Matallo apresentou ontem e reapresenta hoje, às 20h30, no Teatro do Centro de Convivência Cultural de Campinas, propõe.

A montagem concebida em forma de sequências coreografias se une a música brasileira para homenagear Antônio Carlos Jobim (1927-1994), que completaria 80 anos de vida em 2007. Apesar de não estar mais presente, o maestro deixa à todos sua maior riqueza: a música, que no palco se transforma em dança por meio de coreografias de balé clássico, sapateado e dança contemporânea.

No espetáculo será possível ver e ouvir canções como “Wave”, “Forever Green”, “Querida”, “Samba de Maria Luiza”, “Favela”, “Água de Beber”, “Pato Preto”, “Surfboard”, “Lamento”, “Garota de Ipanema”, “Só Tinha de Ser Com Você”, “Passarim”, “Se Todos Fossem Iguais a Você”, “Piano na Mangueira” e “Águas de Março”. A maioria delas será executada ao vivo por instrumentistas — Vânia Lucas, Gilberto de Syllos e Mário Ferez — que esporadicamente dividem o palco com Paulo Jobim (filho de Tom), que também recheou o espetáculo com belas e inéditas histórias. “Suíte Para Tom Jobim” tem direção artística de Christiane Matallo — que além de sapatear irá cantar, tocar saxofone e piano.

BRASILEIRO — Antônio Carlos Jobim foi o compositor brasileiro mais famoso dentro e fora do Brasil na última metade do século 20. Inicialmente tocando como pianista se consagrou como compositor nos anos 50, ainda na fase das parcerias com Marino Pinto, Billy Blanco, Dolores Duran e Newton Mendonça. Ficou conhecido internacionalmente em 1961, quando “Desafinado” e “Samba de Uma Nota só”, haviam entrado nas paradas de sucesso norte-americanas. Com ele a bossa nova — que em 2008 comemora 50 anos — se estruturou e passou a ser conhecida em todo o mundo.

PARA VER —“Suíte Para Tom Jobim”, com o Studio de Dança Christiane Matallo. Hoje, às 20h30, no Centro de Convivência de Campinas (Praça Imprensa Fluminense, s/n, Cambuí). Ingressos custam R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada). Data, local e horário foram enviados pelos organizadores. Mais informações (19) 3232-4148.
Foto: Matheus Medeiros/JP

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Todos os olhares sobre o corpo

Coreografia ‘Sem’, de Fernanda Bevilaqua para o Uai Q Dança / Crédito: Beto Oliveira

Marcela Benvegnu, de Uberlândia

Desde segunda-feira, Uberlândia respira e reflete dança — ou melhor, corpo — em um dos mais importantes eventos do Estado de Minas Gerais, denominado Olhares Sobre o Corpo. Organizado pelo Uai Q Dança, — leia-se Fernanda Bevilaqua — a atividade que vai até domingo em diferentes locais e horários, tem como objetivo criar um espaço de trocas sobre corpo, lugar e modos de produção.
O evento conta com exibição de vídeos, palestras, espetáculos, workshops e debates.O espetáculo de abertura foi “Sem” — abreviação de Sempre Em Movimento — de Fernanda, para o Uai Q Dança, que foi concebido a partir de um interesse comum sobre as implicações da saudade e da ausência de algo, alguém ou lugar no corpo. Uma lista de saudades pessoais e cartas escritas à mão e enviadas por correio pelas intérpretes é o que aciona os impulsos corporais e a dramaturgia da cena. O elenco é formado por Clara Couto, Iara Schmidt, Luciane Segatto, Patricia Arantes e Patrícia Borges.
Na terça-feira, depois do espaço de trocas — no qual acontecem as palestras e bate-papos — foi a vez de “Um Diálogo entre o All Star e a Sapatilha”, de Aline Schwartz; na quarta, Juliana Penna apresentou “Fome Nto Me”, seguido de “Por Mim”, de Luciana Branco.
Ontem, os espetáculos tiveram sequência com “300 dpis”, de Aninha Reis, criada e produzida pelo projeto proposto por Wagner Schwartz, Transobjeto Coletivo em 2006. A performance teve como foco as possibilidades de inter-relação do corpo com objetos cotidianos e as mídias digitais.
Hoje, às 20h30, acontece o lançamento da Cartografia Rumos Itaú Cultural 2006/2007, com a participação de Sônia Sobral. A Cartografia inclui um livro com 20 textos separados em três partes — obras coreográficas, videodança e contextos — além de dois ensaios fotográficos. O material também acompanha uma série de DVDs com os registros das 25 pesquisas coreográficas contempladas na última edição do Rumos Dança, os cinco videodanças e um DVD com uma série de 27 entrevistas com os artistas.
Esse repertório de informação dá parâmetros para a leitura e compreensão de parte das questões que moviam artistas de dança contemporânea em 2006. A coleção é distribuída gratuitamente a instituições culturais, educacionais e de preservação da memória artística. Hoje serão exibidos os cinco videodanças, “Sensações Contrárias”, de Amadeu Alban; “FF”, de Karenina de Los Santos, Letícia Nabuco, Marcello Stroppa e Tatiana Gentile; “Jornada ao Umbigo do Mundo”, de Alex Cassal e Alice Ripoll; “Fora de Campo”, de Cláudia Müller e Valeria Valenzuela, e “Passagem”, de Celina Portella e Elisa Pessoa.
Mais informações: http://olhares.arteblog.com.br/.
(publicada em 15 de dezembro)

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Bolshoi em cena

Marcela Benvegnu

Depois de oito anos de trabalho intenso — muita falação e até especulação da imprensa brasileira — a Escola do Teatro Bolshoi no Brasil (ETBB) forma sua primeira turma de dança clássica com 20 alunos. O feito também engloba os alunos de dança contemporânea — 23 bailarinos — que tiveram aulas por quatro anos. Ontem, nas dependências da escola em Joinville aconteceu a formalidade da colação para familiares dos formandos e hoje, às 20h, no Centreventos Cau Hansen o espetáculo será aberto ao público.
Dividido em dois atos, o primeiro com coreografias contemporâneas de Amarildo Cassiano e Clébio Oliveira e no segundo, a suíte do balé de repertório “Dom Quixote”, remontada especialmente para os formandos de dança clássica pelo russo Vladimir Vasiliev, o espetáculo de formatura — que tem o patrocínio da Vonpar e da Vivo — reúne 107 alunos.O coreógrafo Clébio Oliveira parece concordar com a tese do filósofo francês Voltaire (1694-1778) que afirma: “O segredo de aborrecer é dizer tudo.” Num mundo de super exposição na mídia — de Orkut, blogs e big brothers — dançar e remeter ao mistério da vida é tarefa das mais delicadas. Sua coreografia “E Se Eu te Contasse o Meu Segredo?” defende a liberdade de ser e pensar diferente — caráter próprio da dança contemporânea — e, afinal, de todo homem.
“Lugar de Alguém”, de Amarildo Cassiano, professor da ETBB, transforma música em movimento. A coreografia não tem a preocupação de mostrar uma história, tema ou personagem. É o resultado de uma pesquisa sobre a relação entre a música e a dança, o som e o movimento, suas possibilidades e multiplicidades. Essa relação pode ser feita pelo tipo de impulso que a música provoca ou pela busca de uma nova leitura corporal que preze o repensar do corpo em seu grande potencial de comunicação.
A suíte do balé “Dom Quixote”, de Marius Petipa, será apresentada na segunda parte do espetáculo. Vasiliev ensinou aos estudantes não apenas os detalhes técnicos dessa ou aquela cena do balé como também deu a cada um, papel de ator, explicando as personagens que deveriam representar ali. O cenário, assim como no caso da suíte do balé “O Quebra-Nozes”, foi desenhado pelo próprio coreógrafo. Hoje em dia há uma tendência de coreógrafos desenhar cenários para suas próprias produções, pois isto ajuda a criar uma tela unificada, indivisível de coreografia e cenário no palco.

Crédito: Nilson Bastian

Dançar o Natal


Marcela Benvegnu

Já é uma tradição. Há 24 anos, no mês de dezembro, o Cisne Negro Cia. de Dança, de São Paulo — umas das mais consagradas companhias de dança do Estado — remonta o mais tradicional dos balés: “O Quebra Nozes”, de Marius Petipa e Lev Ivanov, com música de Pietr Ilyich Tchaikovsky. A montagem estréia no próximo dia 13, às 21h, no Teatro Alfa, em São Paulo e pode ser vista pelo público até o dia 20 de dezembro. O trabalho conta com o elenco fixo do Cisne Negro Cia. de Dança, bailarinos contratados e alunos do Estúdio de Ballet Cisne Negro com destaque para Hernan Piquin — solista convidado do Teatro Colón e primeiro bailarino do Ballet Argentino de Julio Bocca— ; Vladimir Condereche — bailarino e coreógrafo radicado nos Estados Unidos — e Denise Siqueira, solista da Cisne Negro Cia. de Dança. Encenado em dois atos, o balé conta a fantasia de Clara, uma menina que na noite de Natal ganha muitos presentes, mas se encanta de uma maneira especial por um deles, um boneco quebra-nozes. Quando todos vão dormir, Clara vai à sala para brincar com seu novo presente adormece e entra no mundo da fantasia. Os brinquedos ganham vida, dançam, lutam, viajam para O Reino das Neves e Reino dos Doces, onde Clara e seu príncipe são homenageados com danças típicas de vários países e com o pas-de-deux da Fada Açucarada. O espetáculo conta com direção artística de Hulda Bittencourt e direção de ensaios de Dany Bittencourt

A COMPANHIA — Considerada uma das melhores companhias contemporâneas do país, a Cisne Negro nasceu de uma circunstância especial: sua diretora artística, Hulda Bittencourt, agregou as alunas do já famoso Estúdio de Ballet Cisne Negro com alguns atletas da Faculdade de Educação Física da Universidade de São Paulo. A aproximação desses dois universos deu ao grupo sua principal característica: uma dança espontânea, energética, viril e de grande qualidade técnica e artística. O grupo já trabalhou com coreógrafos importantes, entre eles: Vasco Wellencamp (Portugal), Gigi Caciuleanu, Michael Bugdahn e Patrick Delcroix (França), Janet Smith e Mark Baldwin (Inglaterra), Ana Maria Mondini, Dany Bittencourt, Denise Namura, Tíndaro Silvano, Mário Nascimento e Rui Moreira (Brasil), Júlio Lopes e Luis Arrieta (Argentina), Victor Navarro (Espanha) e Itzik Galili (Israel). Mais informações: cisnenegro.com.br

Crédito: Reginaldo Azevedo

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Béjart para sempre


Marcela Benvegnu


Os olhos azuis de Maurice Béjart, 80, um dos maiores coreógrafos do mundo se fecharam para sempre ontem em Lausanne, na Suíça, onde o francês morava e dirigia o Béjart Ballet Lausanne desde 1987. O artista, que tinha problemas de saúde há anos e foi hospitalizado na semana passada para ser submetido a um tratamento cardíaco e renal estrito que deveria durar várias semanas, não resistiu.

Acostumado a dizer que não temia a morte porque ela era uma certeza, o coreógrafo de “Bolero” — uma de suas mais famosas coreografias — , de Maurice Ravel (1960) declarou uma vez à agência de notícias suíça que o ser humano morre sempre a tempo e que o tempo é contado de maneira diferente para cada um. Segundo a assessora de imprensa de Béjart, Roxane Aybek, em entrevista ao Jornal de Piracicaba ontem, o funeral do coreógrafo acontecerá na segunda-feira e às 16h, na sede da companhia haverá uma cerimônia pública.

“Estamos muito tristes em anunciar a morte de Béjart. Perdemos um coreógrafo que revolucionou a dança no século 20 e que era o diretor de uma das mais importantes companhias de dança do mundo”, disse Roxane. “Ele dirigiu a mesma companhia por mais de 50 anos sem interrupções sob diferentes nomes. Muitos bailarinos estão perdendo um pai, um mentor, um inspirador. E nós, estamos perdendo um amigo, um criador, visionário e humanista”, disse Peter Berger, presidente da Fundação Béjart Ballet Lausanne, em e-mail enviado ao JP.

A morte do coreógrafo não irá interromper as turnês e a programação de sua companhia de dança. O grupo prepara a estréia de “A Volta ao Mundo em 80 Minutos” (“Tour du Monde en 80 Minutes”), para o dia 20 de dezembro em Lausanne. Depois seguen em turnê mundial. As apresentações serão em homenagem a memória do ícone que dizia que a dança era a combinação de tempo com espaço e a música era o tempo e o movimento que ocupam este espaço. A continuação da companhia está garantida por contrato pelos próximos três anos.

Béjart criou aproximadamente 250 balés e mostrou um novo modo de se fazer dança com “Symphonie Pour Un Homme Seul” sobre a música de vanguarda de Pierre Henry e Pierre Schaeffer.

Os 20 anos da Quasar


Marcela Benvegnu

Por Instantes de Felicidade”, coreografia que comemora os 20 anos da Quasar Cia. de Dança, será apresentada nos dias 1 e 2 de dezembro, no Teatro Alfa, em São Paulo. O novo trabalho da companhia goiana busca inspiração nos 20 espetáculos anteriormente montados para a criação de um “exercício de liberdade” — como classifica o coreógrafo Henrique Rodovalho — , porém, não deriva diretamente deles, não revisita e não faz releituras, o que pode-se dizer que é ótimo.Segundo o coreógrafo, uma reflexão feita sobre o histórico da Quasar orientou o processo criativo em busca de elementos presentes na trajetória de duas décadas. Entre eles, destaque para a atmosfera irreverente e bem humorada das cenas — uma característica de Rodovalho não só nas montagens da Quasar, mas na maioria das coreografias que assina — além da energia visceral e o desejo de “dançar diferente” que motivaram a criação do grupo com características tão próprias. Para o coreógrafo, o resultado desse balanço dos 20 anos resultou numa proposta artística livre, mas consciente, com o intuito de explorar com leveza a rupturas de amarrar que foram surgindo com o tempo. “Por isso, não atribui ao espetáculo nenhuma linguagem, nenhum tema, nenhuma orientação específica”, ressalta Rodovalho. A liberdade como proposta está evidente em todos os aspectos da obra: recursos cênicos e sonoros, figurino, movimentação, trilha sonora. “Dizem que a felicidade plena não existe, o que buscamos aqui são pequenas porções de felicidade, momentos, instantes”, explica. O cenário de Letycia Rossi recria ambientes de uma casa com paredes brancas, verdes, azuis e algumas peças de mobiliário. Os tons neutros e a limpeza visual também são referência para o figurino concebido pela Caligrafia. A trilha sonora mistura estilos em músicas cantadas por Carla Bruni, Cibelle, Céu, Madeleine Peyroux, Joanna Newsom, Keren Ann e Moreira da Silva. O espetáculo também se utiliza de canções que aparecem em filmes como “Eu, Você e Todos Nós” e “Kill Bill”. No elenco da montagem estão Aretha Maciel, Camilo Chapela, Daniel Calvet, Érica Bearlz, João Bragança, Karime Nivoloni, Rodrigo Cruz, Simone Camargo, Samuel Kavalerski, Valeska Gonçalves.
PARA VER — “Por Instantes de Felicidade”, com a Quasar Cia. de Dança. Sábado dia 1º de dezembro, às 21h, e domingo, dia 2, às 19h, no Teatro Alfa, em São Paulo. Os ingressos têm preços variados. Mais informações (11) 5693-4000.
Crédito: Rubens Cerqueira

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Que venha a Bienal!


Marcela Benvegnu


Começou anteontem em Santos, a 5ª Bienal Sesc de Dança. O evento traz reflexões sobre as diferentes qualidades de memória que o corpo inscreve, como a memória da espécie, genética, de linguagem, artística e social. Sob o tema Memória que se Inscreve, a Bienal provoca o estranhamento do olhar que se depara com o movimento da dança em locais inusitados da cidade, e assim reconfigura o ambiente criando novos repertórios e possibilidades de ação.
Este ano o evento compreende 46 apresentações — entre espetáculos, performances e instalações coreográficas — de 43 grupos de dança contemporânea do Brasil e de sete países até domingo. Além das apresentações, o projeto contempla uma aprofundada discussão sobre a função da dança na sociedade por meio de debates, palestras, oficinas, lançamentos de livros, publicações e mostra de vídeos.
Ao todo são 14 horas diárias de atividades relacionadas com a dança com a presença de mais de 300 artistas, produtores, técnicos e especialistas no assunto.Às 13h e 17h, de hoje, no Sesc Santos — onde acontecem todas as apresentações — é possível assistir “Calle Obrapia # 4”, com a companhia francesa ExNihilo dirigida por Anne Le Batard e Jean-Antoine Bigot. Ainda hoje entre os convidados estão“Máquina de Desgastar Gente”, com o grupo de Luiz de Abreu (BA). Amanhã às 17h30 se apresenta, “Loin de Là”, com Ex-Nihilo (França). Às 19h30, é a vez de “Pra Weidt, o Velho”, com o Atelier de Bailarinos Santistas, com direção de Joana Lopes, seguida de “Manual de Instruções” às 21h30, com a Dani Lima Cia. de Dança (RJ).
No domingo em diversos horários é possível ver “Sozinha” e “L’Ecume du Temps”, com Dominique Dupuy e Françoise Dupuy (França). Entre os selecionados para a Bienal estão a Quik Companhia de Dança (MG); K. Cia. de Dança Contemporânea (CE); Focus Cia. de Dança (RJ); Cia. Suspensa (MG); Cia. Domínio Público (SP); Cia. Linhas Aéreas (SP); Neto Machado e Stéphany Mattano (PR); Alice Ripoli (RJ); Ricardo Marinelli (PR); Cia. Artesãos do Corpo (SP); Daphne Madeira (RJ); Thiago Costa (MG); Paula Águas (RJ); Ana Andréa arteContemporânea (RJ); Cia. Etra de Dança Contemporânea (CE); Cia. Daniela Rosa (SP); Núcleo de Criação do Dirceu (PI); Anti Status Cia. de Dança Ltda (DF) e outras.
Nas mesas redondas destaque para Memória que se Inscreve, Reinscreve?, amanhã, às 13h30, com Roberto Pereira, Christine Greiner, e Sigrid Nora. No domingo, no mesmo horário bate-papo com Dominique Dupuy, Joana Lopes e Rafael Madureira. Hoje, às 20h, será lançado “Corpo, Política e Discurso”, de Dani Lima e amanhã, às 20h, “Dança e Cultura Digital”, com Ivani Santana. Mais informações: sescsp.org.br.
(matéria publicada em 16 de novembro)

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Tão perto de si


Marcela Benvegnu

O nome de Héctor Bohamia talvez não seja tão conhecido em terras tupiniquins, mas quando sabe-se que ele ingressou no mundo do teatro e da dança no final dos anos 80, quando Pina Bausch o convidou para integrar sua Tanztheater de Wuppertal, a apresentação não torna-se tão necessária. Bohamia em turnê pelo país, apresenta hoje, às 20h, no Teatro Municipal Manoel Lyra, em Santa Barbara D’ Oeste sua mais recente concepção coreográfica intitulada “Estado de Liberdade”.
Bohamia, que é argentino, mas está radicado na Alemanha há anos, revela em “Estado de Liberdade”, sua atual condição psicológica, livre de qualquer amarra para dançar e criar. A coreografia é composta por 14 peças executadas num cenário forrado por centenas de velas e que são compreendidas em um percurso musical diferenciado. O bailarino transita desde a “Missa Solemnis em Ré Maior op. 123”, de Beethoven; passa pelas canções de cabaré, como “Berlin Songs Tanz”, proibida na Alemanha nazista; às vozes justapostas de Carlos Gardel e Caetano Veloso; à melodia de Philippe Meilleür e o misticismo do “Réquiem”, do alemão de Johannes Brahms.Segundo o jornal alemão “Die Zeit”, a arte de Bohamia “tem o efeito de um punhal congelado apoiado sobre a pele quente”.
O espetáculo já foi apresentado em Tóquio, Cairo, Londres, Paris, Quebec, Buenos Aires, Barcelona, Bruxelas, Toulouse, México, Jerusalém, Alemanha, Buenos Aires e outros países. A apresentação de hoje é única em Santa Bárbara D’Oeste.

PELO MUNDO — Além de ter sido bailarino da companhia de Pina Bausch, Bohamia integrou o Tango Argentino, em Nova York, no período em que cumpria sua bolsa de estudos na Juilliard School Dance of Music. Viajou pelo mundo com seus trabalhos solos e trabalhou para diversas óperas como as de Sidney, Roma, Dresden, Hannover, Chicago, Ottawa, São Francisco, Filadélfia, entre outras. Em 1997 estreou “Aufstieg ünd Fall der Stadt Mahogonny”, de Kut Weill e Bertolt Brecht, no consagrado Berlin Ensemble.

Crédito: Michele Saraiva

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Crítica / Quixotes da dança


Marcela Benvegnu

Quixotes do Amanhã”, coreografia de Fernando Machado para a Cia. de Dança de Diadema, que foi apresentada no Sesi Piracicaba no domingo, 28, começa antes mesmo de a cortina se abrir. O bailarino Ton Carbones está colocado no canto da platéia. Ele é uma espécie de menino de rua, que vê no dia seguinte a esperança de um mundo melhor. Cidadão do tempo. Quixote do amanhã. No proscênio, copos de plástico amassados chamam a atenção. É o lixo. Proposta de concepção da companhia para esta montagem que por sinal é bem trabalhada e sai da reciclagem convencional da dança contemporânea.

Quando a cortina se abre, a dança se revela. É possível assistir a uma fluida movimentação que se abdica da junção de passos para dar ênfase a uma forma de linguagem que mistura a dança contemporânea ao teatro coreográfico. O palco aberto — sem o uso das coxias — serve de cenário para uma cidade onde o homem é tratado como bicho, que caça para sobreviver. Na sutil poesia de Quixote está o subtexto de que é preciso respirar ar puro, quem sabe ar que dança, e que consegue dançar em meio ao lixo que ocupa todo o espaço.

Os bailarinos são bem preparados. Mostram sincronicidade e força na execução. Porém, é Fernanda Bueno quem chama atenção. Não é pelo nu, que executa em um momento do espetáculo — por sinal um nu de costas muito bem colocado —, mas sim pela força e vigor físico com que interpreta a coreografia musicada ao vivo por Loop B, com iluminação do talentoso Ari Buccione.

Com direção de Ana Botosso, o trabalho provoca uma reflexão que vai além do mau direcionamento do lixo provocado pela inconsequência do homem. Estaríamos nós todos no lixo? Qual o lugar da dança na contemporaneidade? Não basta acreditar, talvez seja preciso dançar.

DIÁLOGOS IM(POSSÍVEIS) — Após o espetáculo foi proposta uma conversa com os bailarinos e com Machado. A trupe falou um pouco sobre o processo de composição da coreografia, a criação da companhia e o belo trabalho que desenvolvem como arte-difusores. Infelizmente as poucas pessoas da área da dança piracicabana que assistiram ao espetáculo não ficaram para o bate-papo. Se pensam que perderam somente um monte de palavras, se enganam. Perderam dança. Talvez o Fantástico ou mesmo o Domingo Legal fossem mais importantes. Ainda bem que acabou o espaço. Não é preciso dizer mais nada.

Foto: Arnaldo Torres

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Do ritmo ao caos


Marcela Benvegnu

A palavra caos é formada a partir de um termo grego que significa abismo e precipício, mas que também carrega a idéia de vazio, ausência e falta de organização. É esse caos — que revela corpos caóticos e estranhos, e ao mesmo tempo, não existe para o um mundo de ritmos — que norteia o novo espetáculo da MN Cia. de Dança, de Belo Horizonte, “Do Ritmo ao Caos”.

O trabalho de pesquisa de movimento (de dança contemporânea) da coreografia foi feita pelos próprios intérpretes — Cristiano Bacelar, Joana Wanner, Joelma Barros, Júnio Nery, Nicole Blach, Rosa Antuña e Vanilton Lakka — com orientação e direção do coreógrafo Mário Nascimento e música — especialmente composta para a peça — de Fábio Cardia. As premissas da apresentação partem para a busca de respostas de paradoxos.

Com o corpo, a companhia tenta responder questões do tipo: como achar segurança na instabilidade; como encontrar beleza no equilíbrio; como ter identidade no heterogêneo, no diferente, e como encontrar certeza no indeterminado. “A principal idéia do espetáculo é mostrar que existe organização na desordem”, fala Nascimento. “Minha inspiração surgiu nas questões urbanas, na sobrevivência desse corpo e como ele reage com as agressões externas do mundo moderno. Tudo é muito rápido, feito em sete segundos. Vivemos em uma constante falta de tempo”. O coreógrafo revela que o trabalho mostra um abismo, o qual todos temos que enfrentar na vida. “Alguns fogem, outros caem” fala.

A questão da violência também está na cena. “Na montagem vivemos um fato real, um dos bailarinos foi assaltado e levou um tiro, e usei isso na coreografia. “Como estar seguro e ao mesmo tempo exposto?”, questiona Nascimento. A parceria de mais de 10 anos de Nascimento e Cardia vem dando certo. “Ele compõe para a gente há mais muito tempo. Acho que esta peça foi uma das mais lindas que ele assinou até hoje. Na verdade, a idéia inicial do trabalho foi dele”, completa Nascimento.

MN — A MN Cia. de Dança foi fundada em 1997 com a proposta de explorar em profundidade as possibilidades de relacionamento entre a dança e a música por meio de jogos de improviso. Em sua trajetória, a companhia produziu outros três espetáculos: “Escapada” (1997), “Trovador” (1999) e “Escambo” (2003) — que foi apresentado no Sesi Piracicaba no ano passado. Nascimento, recebeu, em 1998, o prêmio de melhor coreógrafo pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) pelo seu trabalho em “Escapada” e é visto pela crítica especializada como um dos melhores criadores para a dança contemporânea brasileira.

Blefe na dança


Marcela Benvegnu

Se você não é bailarino, não tem a mínima obrigação de ir a um espetáculo de balé clássico — ou qualquer outro tipo de dança — e entender tudo o que está sendo apresentado. O único problema é quando os bailarinos chegam até você e perguntam o que achou. Para não dizer bobagem, vale até dar uma olhada no manual do blefador “Tudo que Você Precisa Saber sobre Balé para Nunca Passar Vergonha” (Ed. Ediouro). Apesar do título ser bem exagerado, a publicação de Craig Dodd não deixa de ser engraçada e informativa.

O livro é dividido em cinco partes distintas. O que é balé, como apreciar um balé, companhias, criadores e terrine (pedacinho) de balé. Os três estilos de balé — clássico, neoclássico e o moderno — que hoje na contemporaneidade se difere da dança moderna — são explicados pelo autor, que também traduz algumas mímicas dos bailarinos no palco, como no trecho: “Mãos girando sobre a cabeça num movimento de misturar massa, significa dança”. Os cargos de diretor artístico, coreógrafo, diretor musical, maestro, pianista, mães de bailarinas e até críticos são descritos de forma humorada, mas nem sempre realista.

Sobre os críticos, Dodd, que sempre exerceu o ofício, escreve que são “esses homens e mulheres que escrevem a respeito de apresentações para a imprensa nacional com uma linguagem própria e que costumam sentar-se nas extremidades das fileiras, de forma a poder sair com rapidez ao final das apresentações”.

A parte que o autor destina à descrição das maiores companhias e coreógrafos de balé vale o elogio. No texto é possível ler um bom resumo sobre o Bolshoi, Kirov, NYCB, ABT, Royal Ballet, English National Ballet, Balé Real da Suíça, London City Ballet, Paris Ópera Ballet, Ballet de Marseille e outros. Entre os coreógrafos destacam-se Ashton, Balanchine, Bournonville, Ivanov, Petipa, Cranko, Béjart, Massine, Nijinska, De Mille, Nijinsky, Robbins e Tudor. No livro, o leitor ainda confere uma lista de personalidades — bailarinos — que ele deve lembrar e também os principais personagens das montagens de balé no mundo

O AUTOR — Dodd envolveu-se com balé por mais de 25 anos na condição de crítico, biógrafo e agente. Estreou como crítico ao redigir um texto sobre a primeira apresentação de balé que viu, remetendo-o para a hoje extinta Ballet Today. Também escreveu críticas para o “The Guardian” e para a revista The Dancing Times.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Estímulo reconhecível


Marcela Benvegnu /de Londrina

Um dos principais objetivos da Mostra Estímulo, que integra as atividades do 5º Festival de Dança de Londrina, é revelar novas produções e olhares para a dança contemporânea. Na mostra, grupos previamente selecionados se apresentam e são avaliados por uma banca formada por três pesquisadores de dança, que no dia seguinte à apresentação discutem com o grupo sobre a coreografia apresentada.
Na primeira noite do evento, que aconteceu na quarta-feira, subiram ao palco do Teatro Ouro Verde, três grupos: a Cia. Eliane Fetzer, de Curitiba; a Cia. de Dança da Unipar, de Umuarama e o Grupo Voluta, de Campinas. Todos os trabalhos tinham como base movimentos de dança contemporânea, uns com melhores bailarinos, outros com uma pesquisa mais consistente, outros com problemas a serem corrigidos. Mas cada um com sua identidade definida.
A Cia. Eliane Fetzer, por exemplo, mostra um elenco forte, que ao executar os movimentos revela um grupo maduro, porém, o trabalho requer cuidados. O nome da coreografia assinada por Eliane, “Kaludha”, que quer dizer silêncio em grego, se contrapõe à dança. A música de Naná Vasconcelos é totalmente trabalhada com palavras, o figurino é muito informativo e o grupo parece preso a uma linguagem que não é dele. É possível identificar na companhia uma semelhança de movimento e também de figurino de companhias da dança contemporânea brasileira.
A Cia. de Dança da Unipar apresentou “2x2”, de Solmara Castelo Branco de Oliveira. O trabalho, fragmento de uma coreografia maior, tem como principal temática o amor. O desafio da coreógrafa já começa com o próprio tema escolhido. Como coreografar o amor? Será que basta no palco apenas um casal trocando carícias? Sob a música de Wim Mertis e Delibes, o grupo que tem coesão coreográfica precisa se atentar mais à singularidade dos movimentos, ou seja, não é necessário traduzir a música, ou melhor, não é necessário dançar somente com ela. É possível dialogar com o todo.
A surpresa da noite foi, sem dúvida, o Grupo Voluta, que acabou “estimulando” e fazendo jus a uma mostra preocupada com a pesquisa e com a qualidade do movimento. A trupe, oriunda do curso de dança da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) apresentou “PoCoCer”, uma criação coletiva que significa: Procedimento que Conduz a um Certo Resultado. No trabalho, quatro intérpretes mostram um bom entrosamento cênico com música especialmente composta para a obra e, sobretudo, saem do comum. O Voluta é capaz de instigar a produção da dança contemporânea hoje e nos fazer acreditar que existe uma luz no fim do túnel.
Outros 12 grupos sobem ao palco do Teatro Ouro Verde hoje, na segunda parte da Mostra Estímulo. Até o final do festival, que conta com apresentações de companhias profissionais nacionais e estrangeiras, dois grupos receberão um prêmio em dinheiro. Os trabalhos serão escolhidos pela banca de pesquisadores e a direção geral do festival é de Leonardo Ramos.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

“Carmen” de Antonio Gades


Marcela Benvegnu

Meses antes de falecer, visando proteger seu legado, o bailarino flamenco Antonio Gades (1936-2004) criou uma fundação. Uma instituição encarregada de zelar pelo seu patrimônio artístico, e que ajudasse a difundir a sua obra, fomentando, a partir dela, um maior conhecimento da dança espanhola em todo o mundo. O maior projeto da empreitada foi a criação da Companhia que leva seu nome e que chega ao Theatro Municipal de São Paulo, no próximo dia 30, quando a trupe apresenta “Carmen”. No dia 31, eles voltam ao palco com “Bodas de Sangre” e “Suíte Flamenca”.

A montagem de “Carmen” é o resultado de colaboração de Gades no filme “Bodas de Sangue”. A história de Carmen é a de uma obsessão. Como diz Emilio Sanz Soto, “Carmen e Don José se devoram pelo prazer de devorar-se. Não é a tragédia grega que buscava uma salvação ou uma condenação. Aqui só a morte nos pode libertar do desejo. A impossibilidade de desviar o destino”.

É curioso que esta personagem tão representativa da Espanha, a “espanhola” por antonomásia, tão definida por seu físico, por sua estampa; seja uma invenção francesa. Porque é da França, pelas mãos de Prosper Merimée e de Georges Bizet, que calaram tão fundo em nossos costumes, que nos chega Carmen. A versão da companhia para a montagem é totalmente dançada. No palco a dança é protagonista absoluta, e é sinônimo de ritmo, música, movimento.


ÍCONE — Antonio Gades, o grande nome do flamenco mundial nasceu em Elda, Alicante e em pouco tempo conquistou a Espanha e o mundo, com suas coreografias altamente criativas e carregadas de força e sensualidade. A participação de sua trupe nos filmes de Carlos Saura, especialmente “Bodas de Sangre”, “Carmen” e “Amor Brujo”, ampliou ainda mais o público do grande bailarino e coreógrafo. Foi a partir de sua experiência cinematográfica que Gades transpôs para o palco a obra de Merimée celebrizada pela música de Bizet. “Carmen” transformou-se em um sucesso absoluto da companhia e ninguém até hoje conseguiu como Gades extrair a carga de sensualidade que funciona como fio condutor da tragédia da cigana e de Don José.

PARA VER — Compañía Antonio Gades. Dia 30, “Carmen” e dia 31, “Bodas de Sangre” e “Suíte Flamenca”. Às 21h, no Theatro Municipal de São Paulo. O valor dos ingressos ainda não foi divulgado. Mais informações (11) 6163-5087.

Mera ilusão


Marcela Benvegnu

Com cenas que remetem às fotonovelas e ao cinema mudo, a peça coreográfica “As Formas Eram Já Mera Ilusão da Vista”, do Avoa Núcleo Artístico, de São Paulo, é a atração de amanhã, às 17h e 20h, do projeto Sesi Dança 2007, no Teatro Popular do Sesi Piracicaba. A montagem, que sugere situações que transitam entre o romântico, o irônico e o cômico, utilizam artifícios como projeções de imagens e recortes de luz. A entrada é gratuita mediante retirada de ingresso antecipada uma hora antes do início da apresentação na bilheteria do teatro.

Com concepção, direção e interpretação de Gil Grossi e Luciana Bortoletto, “As Formas Eram Já Mera Ilusão da Vista” — que tem 40 minutos de duração — foi inspirada em fotos clássicas de casais, na sensação de expectativa vividas pelas pessoas instantes antes de serem fotografadas e também em fotonovelas. O trabalho do grupo, existente desde 2000, iniciou cerceado por uma técnica denominada fotodança que soma o estudo da dança contemporânea, relação cênica, clown e improvisação, com elementos da fotografia.

“O Gil (Grossi) é fotógrafo e eu apesar de ser bailarina também atuo na área. Assim, desenvolvemos uma pesquisa de linguagem pautada pelo corpo que é um híbrido e pela forte questão da imagem”, fala Luciana. “Unimos a dança e a fotografia para desenvolver as cenas do trabalho. O enquadramento, o foco, os planos de imagem estão equilibrados dentro da composição cênica”.

A pesquisa nasceu em 2004 com uma performance chamada “Pontos de Vista”. “Depois de um tempo que ela virou espetáculo”, conta a bailarina. “Hoje, ‘As Formas Eram Já Mera Ilusão da Vista’ tem um formato bem intimista que é para ser visto de perto mesmo. É um trabalho que evoca emoção e memória. “São emoções provocadas por meio das imagens e como associamos isso às fotonovelas e até as novelas mexicanas também demos voz aos dramas dos casais”.

Em cena, Luciana e Grossi estabelecem uma relação simbiótica. “Como somos muito diferentes procuramos que o contraste físico de idade e biotipo vire mote para à concepção”, fala Luciana, que juntamente com Grossi trabalham em um projeto paralelo denominado dança haicai, oriunda da necessidade investigar a transformação da imagem contemplada em movimento dançado. Entre os principais trabalhos da companhia destacam-se, “O Que Passa”, “Toca” e “A Hora do Espelho

Sesi Dança 2007 apresenta “As Formas Eram já Mera Ilusão da Vista”. Amanhã, às 17h e 20h, no Teatro Popular do Sesi Piracicaba (av. Luiz Ralph Benatti, 600), na Vila Industrial. A entrada é gratuita mediante retirada de ingresso uma hora antes do início do espetáculo na bilheteria do teatro. Datas, local e horários foram enviados pelos organizadores. Mais informações: (19) 3421-2884.

Crítica / Qualidade em foco


Marcela Benvegnu

A primeira grande diferença entre os musicais “My Fair Lady” e “Os Produtores”, que estão em cartaz em São Paulo, está logo de cara do espaço. “My Fair Lady” está sendo apresentado do Teatro Alfa, e que o diga Jorge Takla, — o produtor da montagem — um teatro acostumado a receber grandes espetáculos, principalmente do gênero dos musicais, enquanto “Os Produtores”, acaba de estrear no Tom Brasil, uma casa de shows, na qual você é obrigado a assistir ao espetáculo torto em uma cadeira, sendo que a visão é totalmente comprometida pelo andar dos garçons — estes que na hora de pagar a conta, não trazem o seu troco.

Mas isso são meros detalhes — que fazem uma grande diferença — quando a grande reflexão sobre o nicho dos musicais paulistas está mesmo na qualidade, dos cenários, figurinos, iluminação, cantores, atores, e, sobretudo, bailarinos. Apesar de “My Fair Lady” não ser um musical com muitos números coreográficos eles apresentam uma certa sintonia com o espaço e estão bem ensaiados, poderiam ser mais vibrantes, mas... Em “Os Produtores”, apesar de os currículos dos bailarinos serem recheados de outros musicais, cursos e até apresentações internacionais, quando o assunto é sapatear, a coisa se complica.

Não adianta somente o pé da bailarina da frente estar igual à de trás, se o som que ela emite é completamente diferente da proposta coreográfica. Ensaio, limpeza e muita técnica seriam ingredientes que poderiam melhorar o trabalho da montagem, que revela uma linda (por natureza) Juliana Paes e um surpreendente Vladimir Brichta. Em “My Fair Lady”, vale prestar atenção nas quase três horas de espetáculo sem piscar os olhos. A beleza plástica é tão grande, que é difícil se prender aos detalhes. A sintonia entre Daniel Boaventura (Professor Higgins) e Amanda Acosta (Elisa Doolittle) é tão grande que chega a impressionar. A troca dos cenários é feita de um modo muito sutil, o microfone dos intérpretes é quase imperceptível — provavelmente esteja acoplado às perucas —, a iluminação poderia ter o nome de desenho de luz, os figurinos de Fábio Namatame são mais bonitos que os originais, e a regência de Vânia Pajares é digna de reverência.

Não se pode explicar tudo. Para esta montagem a palavra de ordem é assistir.Antes que o espaço termine, impossível não falar dos programas dos espetáculos. Ambos tem valor de R$ 20 e merecem ser adquiridos no hall do teatro ou casa de show. O programa de “Os Produtores” faz jus a montagem e é um material bem produzido. O de “My Fair Lady” é um verdadeiro livro. Branco, de capa dura e além da boa produção de imagens, o material conta com um histórico completo dos “criadores” do musical, como George Bernard Shaw, Alan Jay Lerner e Frederick Loewe, e da história da montagem. Vale o preço.

Fomento à Dança

Marcela Benvegnu

A Galeria Olido e o Centro Cultural São Paulo (CCSP) recebem a partir de 4 de outubro, a 1ª Mostra do Fomento à Dança. Além de ocupar com atividades dois pavimentos da Secretaria Municipal de Cultura, haverá programação intensa no Lugar — nova sede da Cia. Corpos Nômades —, que surge graças ao Programa Municipal de Fomento à Dança, ampliando o acesso do público às criações e produções no gênero.
Na abertura do evento haverá a inauguração da Sala de Pesquisa e Acervo, localizada no Centro de Dança da Galeria Olido, que abrigará o acervo multimeios do Programa — disponível para consulta pública, e materiais de dança doados por grupos e instituições. A idéia é que o local torne-se referência para pesquisadores e interessados no assunto.
Criado com a proposta de investir, fortalecer e difundir a dança contemporânea na cidade de São Paulo, o Programa lançou seu primeiro edital em julho do ano passado. Entre os 32 projetos inscritos, foram selecionados 14, que receberam entre R$ 60 e 200 mil para custear despesas de circulação, criação de espetáculos e manutenção de companhias.
Esta semana os espetáculos contemplados pelo primeiro edital integram a mostra que passará a fazer parte do calendário de dança da cidade de São Paulo anualmente, apresentando coreografias dos projetos selecionados a cada edição e promovendo o trabalho continuado dos grupos e núcleos independentes da dança paulistana.
Para a estréia da iniciativa, estão programados espetáculos, exposições e workshops gratuitos, além de palestras sobre o ensino de dança para crianças, discussão sobre a Lei de Fomento, em vigor desde 2005 e um encontro com coreógrafos e intérpretes dos 14 grupos selecionados, com mediação da bailarina e crítica da "Folha de São Paulo", Inês Bogéa.
Entre as coreografias que se apresentarão no Centro Cultural São Paulo e Galeria Olido estão, "PólisSemos", com concepção e direção geral de Maria Mommensohn; "¿Por que no hacemos cine?", com a Cia. Lambe-Lambe de Teatro e Afins; "O Processo", com a Cia. Borelli de Dança; "Anjo Novo", com o Núcleo Passo Livre; "Frida Kahlo: Uma Mulher de Pedra dá Luz à Noite" e "Feifei e a Origem do Amor", com a Taanteatro Cia.; "Estudos Sobre o Desejo", com os Artesãos do Corpo; "Brincos & Folias", "Entranças - Descobrindo e Redescobrindo o Brasil", "RodaPé", com a Balangandança Cia.; "Olhos Invisíveis", com P.U.L.T.S Teatro Coreográfico e outros. A programação completa pode ser conhecida no site: www.centrocultural.sp.gov.br/fomento_danca. O evento vai até 29 de outubro.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

"Os Produtores" em São Paulo


Marcela Benvegnu

Um dos musicais de maior sucesso na história da Broadway, “Os Produtores” (“The Producers”), de Mel Brooks e Thomas Meehan, finalmente chegou aos palcos de São Paulo em clima de superprodução. O Tom Brasil foi reformado para receber o musical, que tem mais de dez diferentes tipos de cenários, 350 figurinos, 60 perucas, uma orquestra de 11 músicos, equipe de 80 pessoas e um elenco de 25 atores tendo à frente Miguel Falabella — diretor do espetáculo —, Juliana Paes e Vladimir Brichta.

O musical, que estreou no último sábado e teve platéia recheada de figurinhas carimbadas da Globo, se passa em 1959, em Nova York. O produtor Max Bialystock (Falabella) amarga seu último fracasso no teatro quando chega em seu escritório um contador tímido e um tanto nervoso, Leo Bloom (Brichta), para revisar a contabilidade. Sem querer, Leo descobre que um produtor pode ganhar mais dinheiro com um fracasso do que com um sucesso.A dupla então se dedica a encontrar a pior obra jamais escrita, conseguir o mais desastroso diretor de teatro e produzir o maior fracasso da história.

A eles junta-se Ulla (Juliana Paes), uma dançarina sueca que conquista seu espaço com algum talento e belas pernas. No entanto, nem tudo sai como planejado: a obra resulta num sucesso, o golpe é descoberto e ambos são presos. Mas o que parece o fim acaba virando um novo começo. Após saírem da prisão, Max e Leo voltam à Broadway com o musical “Prisioneiros do Amor”. Desta vez, porém, a idéia é fazer sucesso e a peça é um recomeço para os dois.

A versão nacional de “The Producers” para os palcos brasileiros contou com direção coreográfica de Chet Walker — renomado coreógrafo da Broadway, que participou das montagens de espetáculos como “Fosse”, “Sweet Charity”, “Chicago” e “A Gaiola das Loucas”. Os ensaios duraram dois meses e meio, com oito horas de trabalho diárias, incluindo aulas de dança, canto e interpretação. “The Producers” foi apresentado ao público originalmente como um filme — “Primavera para Hitler” (1968) — e foi dirigido por seu próprio autor. Na Broadway o espetáculo estreou em 2002, ficou cinco anos em cartaz e foi a peça que mais ganhou prêmios em toda a história dos musicais.

PARA VER — “Os Produtores”. Até o dia 25 de novembro, de sexta a domingo. Às sextas-feiras, às 21h30, sábados, às 17h e 22h e domingos, 18h, no Tom Brasil-Nações Unidas (av. Bragança Paulista, 1281). Ingressos custam de R$ 70 a R$ 200.

"OP1" estréia Sesi Dança 2007

Marcela Benvegnu

A proposta de “OP1”, coreografia de Lali Krotoszynski pela Cia. Phila 7, que será apresentada hoje e amanhã, às 20h, no projeto Sesi Dança 2007, no Teatro Popular do Sesi Piracicaba é unir corpo, dança, música e tecnologia. O espetáculo é uma experiência cênica que proporciona ao público uma percepção diferenciada que funde ilusão com realidade. A montagem é uma das seis selecionadas para integrar o projeto promovido pela instituição em 12 cidades no Estado. A entrada é gratuita, porém, os ingressos devem ser retirados com uma hora de antecedência na bilheteria do teatro.Com direção artística de Mirella Brandi, produção de vídeo de Rodrigo Gontijo, música original de Fabio Villas Boas e dramaturgia de Beto Matos, “OP1” tem como cenário um telão, no qual são projetadas diversas imagens captadas por uma câmera panorâmica que capta imagens do corpo em movimento ao vivo. “É uma proposta que experimenta os limites do espaço e da tecnologia no diálogo com o corpo. O trabalho não é só baseado nos movimento do corpo da intérprete, mas sim em sua relação de ilusão com o vídeo”, fala Mirela. Segundo a diretora o trabalho é baseado na optical art, uma tendência iniciada na Europa na década de 60, que opõe-se à harmonia estática da arte contemporânea tradicional, visando inversamente atingir um certo dinamismo que depende, muitas vezes, de estímulos visuais. “Daí o nome OP, que vem de optical art e o número 1, porque este é o nosso primeiro experimento”, explica. A Cia. Phila 7 foi fundada em 2005 com o objetivo de pesquisar novas linguagens e diferentes mídias. Os integrantes do grupo que tem como foco a convergência de linguagens, são profissionais de teatro e cinema. Além de “OP1” — desenvolvido com subsídio do programa Rumos Itaú Cultural Dança 2006 e prêmio estímulo de dança 2005, do Governo do Estado de São Paulo — a Cia. Phila 7 já realizou outras três produções, “Galileu Galilei”, “Play on Earth” e “A Verdade Relativa da Coisa em Si”, que recebeu o Prêmio Funarte de Dramaturgia em 2005.

PROJETO — Até o dia 28 de outubro, seis coreografias participantes do Sesi Dança 2007, circularão por 12 unidades do Sesi. A perspectiva é receber 31 mil pessoas nas 144 apresentações previstas no projeto. Segundo Sônia Azevedo, chefe do setor de Artes Cênicas do Sesi São Paulo, esta edição do projeto apresenta relações inusitadas entre música e corpo, corpo e tecnologia. “Todos os espetáculos primam por sua beleza particular, questionadora da nossa vida de todos os dias”, fala. A próxima apresentação acontece nos dias 29 e 30 de setembro, às 20h, no Sesi Piracicaba, com o espetáculo OPNI — Objeto Poético Não Identificado, de João Paulo Gross

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Crítica / Mané musicado

Marcela Benvegnu

Apesar do atraso de 25 minutos e de um público que não respeitava seus próprios lugares, pois insistia em mover as cadeiras plásticas para frente — o que talvez fosse permitido, pois a organização não se opôs, e quem chegou tarde acabou sentando na frente — “Mané Gostoso”, coreografia de Décio Otero para o Ballet Stagium, com participação ao vivo do Quinteto Violado, que foi apresentada na última quarta-feira no Sesc Piracicaba, é um reflexo do Brasil, onde é possível se deparar com manifestações culturais, encontros e desencontros.

A coreografia nem precisava ser assinada. A gramática impressa nos corpos dos bailarinos denuncia o trabalho do Stagium, que nasceu em 1971, e desde então, trabalha uma movimentação contemporânea particular. “Mané Gostoso” que faz alusão à um brinquedo de madeira nordestino, que tem braços e pernas movimentados por cordões, é um trabalho visual, no qual cenários e figurinos se casam perfeitamente. Em cena, 14 intérpretes revelam um bom preparo físico para a execução coreográfica, que dura 50 minutos, porém, a peça não apresenta grandes dificuldades técnicas.

Os bailarinos acostumados a dançar em palcos diversos, criam outra coreografia para se adaptarem ao palco do Sesc. Muitas trocas rápidas são feitas a olho nu no canto do palco e os adereços de cena — como grandes bancos — acabam compondo à cena. Apesar do pouco espaço nas coxias, a coreografia não fica comprometida e o mais importante é que o público piracicabano tem a chance de assistir à espetáculos de dança de grandes companhias. E esse mérito, impossível, não dar ao Sesc.

Na maioria das vezes, quando grupos e companhias de dança se apresentam com música ao vivo em um teatro, a orquestra ou fica no fosso, ou é colocada ao lado do palco — como se vê muito em musicais. No novo trabalho do Stagium, o Quinteto Violado, ganha lugar de destaque merecido na cena. Os instrumentistas colocados em um palco sobre o palco, são elementos fundamentais para a execução da coreografia. A música nordestina chama o movimento e este se cruza, descruza e por vezes até se desencontra na dança.

O grande homenageado do trabalho, o compositor Luiz Gonzaga, revela um Brasil que dança em qualquer tom. Seja em “Asa Branca”, “Assum Preto”, “P’ronde Tu vai, Luiz?” e “Forró de Mané Vito”, sem o brilhantismo do Quinteto, não seria tão gostoso assistir ao “Mané”.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Em "Mané Gostoso", a dança e a música do Nordeste


Marcela Benvegnu

Genuinamente nacional, o espetáculo “Mané Gostoso”, que será apresentado hoje no Sesc Piracicaba, às 21h, é resultado da união entre as raízes brasileiras interpretadas pela coreografia do Ballet Stagium e pela música do Quinteto Violado. A obra leva o mesmo nome de um brinquedo infantil — que tem as pernas e os braços movimentados por meio de cordões — e propõe uma leitura moderna da cultura popular do Nordeste. A montagem homenageia um dos maiores ícones da música brasileira, o pernambucano Luiz Gonzaga (1912-1989) e comemora os 35 anos do Ballet Stagium e do Quinteto Violado.

“Mané Gostoso” foi coreografado por Décio Otero em 2007 e tem direção teatral da bailarina Marika Gidali, que ao lado de Otero, fundou o Ballet Stagium em 1971. “O Stagium tem um namoro antigo, de mais de 20 anos com o Quinteto Violado. Queríamos muito fazer este espetáculo. Artisticamente é um momento muito feliz para os dois grupos”, conta Marika, recentemente homenageada com o prêmio nacional Jorge Amado de Literatura e Arte e com medalha de ordem do mérito cultural, do Ministério da Cultura, por conta da representatividade de seus trabalhos na área de dança.

Em cena, 14 bailarinos executam coreografias de dança contemporânea, nas quais é possível notar certo virtuosismo — característica reconhecível da companhia — e entrosamento. “O ponto mais atrativo da peça é a energia e a beleza que transmitimos, seja pela música ou pela dança. Estudamos muito o indivíduo nordestino para a composição”, revela Marika. “O resultado são dois grupos que têm a mesma finalidade e buscam o erudito na cultura regional.”

Além da companhia de dança, o Stagium desenvolve projetos voltados à rede de ensino. Entre eles destacam-se, Stagium vai às Escolas, que objetiva a realização de espetáculos temáticos nos espaços escolares; Escolas vão ao Teatro, que proporciona aos alunos idas a teatros para assistirem aos espetáculos do repertório da companhia e o Projeto Joaninha, trabalho no qual a dança é um canal para a descoberta de potencialidades e que ajuda na formação da identidade pessoal e coletiva de quase 300 alunos, entre crianças e adolescentes.

DANÇA MUSICADA — O Quinteto Violado nasceu em Pernambuco e traçou um novo caminho para a MPB desde sua fundação. Diante da indecisão do cenário da música nacional, após a irrupção do movimento tropicalista, o Quinteto apresentou uma proposta fundamentada nos elementos musicais da cultura regional, por meio de trabalhos de pesquisa e da própria vivência de cada um dos seus integrantes. Conseguindo extrair das mais simples manifestações populares à sua essência rítmica e melódica, a trupe criou uma nova concepção, cujo traço fundamental é a interação entre o erudito e o popular.
O Quinteto Violado tem direção musical de Toinho Alves (contrabaixo e voz) e é formado por Dudu Alves (teclado), Marcelo Melo (violão e voz), Roberto Medeiros (percussão e bateria) e Ciano Alves (flauta). Em “Mané Gostoso” o grupo executa “Vida”, de Alves; “Hino da Ceroula”, de Milton Bezerra de Alencar; “Assum Preto”, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga; “Dona Aninha”, de Toinho Alves e Roberto Santana; “Sete Meninas”, de Toinho Alves e Dominguinhos; “P’ronde Tu Vai?” e “Forró de Mané Vito”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas e “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.

SERVIÇO — “Mané Gostoso”, com o Ballet Stagium e Quinteto Violado. Hoje, às 21h, no ginásio de eventos do Sesc Piracicaba. Ingressos custam R$ 3 (trabalhador do comércio), R$ 6 (usuários matriculados, estudantes, maiores de 60 anos, menores de 18 anos e professores da rede pública) e R$ 12 (inteira). Data, horário e local foram enviados pelos organizadores. Mais informações: (19) 3434-4022.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Carnaval dos Animais


Marcela Benvegnu

"Carnaval dos Animais" é uma das mais famosas coreografias de Luiz Arrieta, considerado por muitos críticos e especialistas um gênio da dança contemporânea. Apesar de ter sido composta em 2000, a montagem só estreou no ano passado e pode ser vista no palco da Galeria Olido, em São Paulo, hoje, amanhã às 20h e domingo, às 19h. O espetáculo tem duração de uma hora e entrada é gratuita.

“Carnaval dos Animais” trata da explicação do processo da composição da obra coreográfica com música homônima de Camille Saint Saëns (1835-1921), abordando cada parte (ou animal), seguida da apresentação da coreografia completa com figurino, adereços e iluminação. Tudo acompanhado da exposição das fotografias da obra já registradas pelo fotógrafo especializado em dança Antonio Carlos Cardoso — que também é coreógrafo e dirigiu o Balé do Teatro Castro Alvez, em Salvador — , que interpreta o do trabalho do ponto de vista do diafragma.

A divisão do espetáculo é clara. A introdução é a marcha real do leão, seguida de galinhas e galos, hemíones, tartarugas, elefante, canguru, aquário, personagens com longas orelhas, cuco no fundo do bosque, viveiro de aves, pianistas, fósseis, cisne e final.

Arrieta é um nome forte na dança mundial. Apesar de ter nascido na Argentina, foi em terras brasileiras que construiu seu nome e imagem. Foi bailarino de algumas das mais importantes companhias do mundo, como Ballet de Joaquín Pérez Fernández (Buenos Aires), Ballet Stagium, Balé da Cidade de São Paulo, Associação de Ballet do Rio de Janeiro e Hessiches Sttadtheater em Wiesbaden, Alemanha.

Trabalhou com coreógrafos de peso como Víctor Navarro, Oscar Araiz, Sonia Mota, Tatiana Leskova, Décio Otero, Christian Uboldi e Celia Gouveia.Em mais de 100 criações coreográficas trabalha com os mais variados temas e gêneros musicais, junto a diversas companhias do mundo. Entre as principais destacam-se, o Balé da Cidade de São Paulo, Grupo Andança, Cia. de Dança Cisne Negro, Ballet Ópera Paulista, Primeiro Ato, Meia Ponta Cia. de Dança, Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Ballet Teatro Guaíra, Ballet del Teatro San Martín, Ballet Nacional de Cuba, Ballet’s San Juan, Ballet de Grand Thèâtre de Genève e outros.

Balé é coisa de homem


Marcela Benvegnu

Quem disse que balé clássico dançado nas pontas dos pés não é coisa para homens? O Les Ballets Trockadero de Monte Carlo, que o diga. A companhia formada por bailarinos profissionais, masculinos, especializados na gama do repertório clássico e originais do estilo russo, chega a São Paulo, no dia 18 de setembro, para uma única apresentação, às 21h, no Teatro Sérgio Cardoso.

Fundado em 1974 por um grupo de entusiastas da dança clássica, com a finalidade de realizar uma paródia das formas tradicionais do balé clássico de maneira travestida, o Les Ballets é sucesso de crítica e público em todo o mundo.O conceito original do Les Ballets Trockadero de Monte Carlo não foi modificado desde a sua criação.

A comédia é atingida a partir do exagero das circunstâncias da narrativa da dança clássica, dos acidentes e da incongruência das coreografias. O fato de os homens executarem todos os papéis — o peso de um homem equilibrando-se precariamente nas pontas dos pés e pretendendo ser cisne, sílfide, ninfa das águas, princesa romântica e mulher vitoriana — engrandece, ao invés de ridicularizar, o espírito da dança clássica.

No ano passado, após uma temporada que assinalou recordes de venda em Londres, a companhia recebeu o prêmio de excelência em dança pela Associação dos Críticos de Dança de Londres. Em 2007, como resultado do êxito obtido em apresentações em Roma e Milão, a companhia recebeu o cobiçado Massina/Positano Award, em Positano, Itália.

Desde a sua estréia em 1974, a companhia apresentou-se em mais de 30 países e 300 cidades. Atualmente vêm empreendendo temporadas mais longas, incluindo visitas recentes, por várias semanas, a Amsterdam, Barcelona, Berlim, Buenos Aires, Caracas, Colônia, Hamburgo, Lisboa, Lyon, Moscou, Paris, Singapura, Sydney, Viena e Wellington.Artigos publicados em revistas como Variety, Oui, The London Daily Telegraph, assim como um ensaio fotográfico de Richard Avedon para a Vogue, fizeram com que a companhia se tornasse mundialmente conhecida. O que fizeram nos últimos 32 anos é o que os espera no futuro: inovação, comédia e desmistificação de mitos. O balé é mesmo para todos.

PARA VER — Les Ballets Trockadero de Monte Carlo. Dia 18 de setembro, às 21h, no Teatro Sérgio Cardoso. O valor dos ingressos ainda não foi divulgado. Data, local e horário foram enviados pelos organizadores. Mais informações (11) 6163-5087.


Sempre Balanchine

Marcela Benvegnu

George Balanchine (São Petersburgo, 1904 - Nova York, 1983) foi um dos maiores coreógrafos do mundo. Certamente o mais musical e também um dos mais conhecidos internacionalmente. Foi o responsável por dar um toque contemporâneo à dança clássica, que por muitos foi entendido como estilo neoclássico.

Sua dança totalmente nova e ousada para época — em meados de 1924 — foi criada a partir dos estilos dos balés clássicos francês, italiano e russo. Balanchine começou a dançar aos 10 anos e se formou aos 17, pela Escola de Bailado do Estado Soviético.

Estreou como coreógrafo em 1923, com um pequeno grupo de bailarinos entre os quais estava Alexandra Danilova (1903-1997), que posteriormente dançou pelo Marinsky Ballet, Ballets Russes e Ballet Russe de Monte Carlo.

No ano seguinte, durante uma turnê internacional de sua companhia, apelidada de “Os Bailarinos do Estado Russo”, fugiu com os bailarinos para o ocidente. Foi quando ingressaram na Companhia de Sergei Diaghilev (1872-1929) — criador dos Balés Russos — e ele coreografou “La Pastorale”, “Jack in the Box” e “Triumph of Neptune”.

Com a morte de Diaghilev, Balanchine tornou-se o primeiro coreógrafo do Ballet de Monte Carlo e, a convite de Lincoln Kirstein (1907-1996), partiu para os Estados Unidos em 1933, para fundar a Escola de Ballet Americano (School of American Ballet). Desde então, numa sucessão de trabalhos e aventuras que culminou com a fundação do New York City Ballet, Balanchine passou a liderar o bailado na América do Norte, juntamente com Kirstein.

A produção de seus tranalhos ultrapassa 80 obras, sendo que as mais significativas são “Serenade”, “Le Baiser de la Fée”, “Ballet Imperial”, “Night Shadow”, “Theme and Variations” e “Quatro Temperamentos”.Considerado o mestre do bailado abstrato com base de inspiração na música, Balanchine chegou a influenciar coreógrafos como William Dollar, John Taras e Todd Bolender.

Como diretor artístico, além de coreógrafo, menosprezava o cenário e os figurinos — em parte por razões financeiras — em parte devido às suas concepções sobre a relação entre a música e o movimento. Balanchine teve poucos intérpretes homens, deixando o balé principalmente para as mulheres. Suas coreografias sempre mostram movimentos diferentes, com muitas torções de tronco e quadris. Hoje, seus trabalhos são remontados em todo o mundo.

Dança dos quatro cantos


Marcela Benvegnu

Viver da arte da dança, trabalhar com os mais renomados coreógrafos da atualidade e, sobretudo, ser um grande bailarino. Esse é o sonho de vários alunos de escolas de dança brasileiras, que pode se tornar realidade. Prova real poderá ser vista no palco do Teatro Municipal “Dr. Losso Netto”, hoje, às 21h, quando acontece a “Gala Internacional — Um Brinde a Piracicaba”, espetáculo com direção de Camilla Pupa — que em 2007 completa 25 anos de carreira —, que reúne bailarinos das mais importantes companhias de dança do Brasil e exterior, além da Oficina da Dança de Piracicaba. Os ingressos estão esgotados. O evento tem apoio do Jornal de Piracicaba.

Antes da apresentação, às 19h30, acontece no mesmo espaço a entrega do Troféu de Mérito Cultural Fabiano Rodrigues Lozano e das medalhas de Mérito Cultural para personalidades que contribuíram para o desenvolvimento da cultura piracicabana ao longo do ano. Camilla foi premiada com a medalha Iris Ast, na categoria dança.

Um dos destaques de “Gala Internacional” é o bailarino Denis Piza, que cresceu em Piracicaba e hoje é solista da Companhia Niedersächischen Staats Ballet, de Hannover, Alemanha. Piza poderá ser visto na coreografia de abertura, “Dom Quixote”, com Marcela Lacreta, da Oficina da Dança e no encerramento, em “Corsário”, com Ivy Amista, solista do Bayerisches Staatsballet — Ballet da Ópera de Munique, ambas coreografias de Camilla após Marius Petipa (1822-1910).

Entre os bailarinos ainda destacam-se profissionais do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Grupo Corpo de Belo Horizonte, Camilla Ballet, Miami City Ballet School, Heinz-Bosl-Stiftung-Ballet, Ballet de Monterrey, Pacific Dance Arts, Cia. Theater Philharmonie Thüringen e outros. O que talvez poucos saibam é que esses bailarinos não foram convidados para a apresentação somente por serem talentosos e integrarem grandes companhias. Todos, de forma direta ou indireta, foram alunos de Camilla. “Fiquei muito feliz porque todos atenderam prontamente ao meu convite para dançarem em Piracicaba. Eles estão de férias no Brasil e estão aqui hoje por amor”, fala a diretora, que mora em Piracicaba, tem uma escola de dança (Camilla Ballet) em São Paulo e ministra aulas na Oficina da Dança.

Conhecida no cenário da dança brasileira como uma das maiores exportadoras de talentos, Camilla acredita que a lição mais importante desta noite é mostrar a todos como é possível fazer dança de qualidade e proporcionar emprego aos bailarinos brasileiros. “Nosso bailarinos são muito talentosos e integram as maiores companhias de dança do mundo. A receita disso é um bom profissional, um trabalho bem dirigido e muita disciplina. Desta forma a dança continuará crescendo como arte em todo o mundo.”

REPERTÓRIO — “Gala Internacional” vai além de uma apresentação de dança tradicional. O espetáculo pode ser considerado um convite à história da dança por trazer ao palco alguns dos mais famosos balés de repertório, como “Suíte de Dom Quixote”, “La Bayadére” e “O Corsário”, de Petipa; “Águas Primaveris”, de Asaf Messerer; “Esmeralda”, de Jules Perrot (1810-1892), e “Cisne Negro”, de Lev Ivanov (1950-1980). Além destas coreografias, “Desejo”, de Éder Braz; “Flocos de Neve”, de Tatiana Stamado; “Winds”, do piracicabano André Malosá — que foi bailarino do Le Jeune Ballet de France, em Paris —, “Vortex”, de Alvin Ailey (1931- 1989), e “Who Cares?”, de George Balanchine (1904-1983) completam o programa.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Sapateia, Brasil!


Marcela Benvegnu

Intercâmbio, troca, formação e informação. Essas são algumas das qualidades que envolvem o Festival Internacional de Sapateado de Campinas, organizado pela sapateadora e instrumentista Christiane Matallo desde 2000, que a partir deste ano passa a se chamar Brasil International Tap Festival e acontecerá nos dias 30 e 31 de agosto e 1º e 2 de setembro de 2007 na cidade de Jaguariúna, a 16 quilômetros de Campinas.O evento traz profissionais com linguagens e frentes de trabalho diferentes para a construção e fundamentação do pensamento crítico do bom profissional ligado à arte do sapateado. O objetivo do evento é o de promover um encontro entre alunos e professores que participam de aulas, apresentações, tap jam sessions, exibição de filmes, bate-papos, entre outras particularidades.Este ano o festival recebe grandes artistas, como Jason Samuels Smith (USA), o único coreógrafo a ganhar um prêmio Emmy depois do coreógrafo de Fred Astaire e atualmente o melhor sapateador americano; Derick Grant (USA), diretor do “Imagine Tap”, espetáculo que reuniu nos palcos de Chicago, no ano passado, uma trupe dos mais renomados e talentosos sapateadores; Aaron Tolson (USA), co-diretor de “Imagine Tap”; Corinne Karon (USA), única sapateadora a se apresentar em todos os continentes do mundo e fazer uma performance na Antártida.Entre os professores brasileiros estão Dalga Larrondo, um dos únicos percussionistas do mundo a dominar a técnica do zarb, tambor utilizado na música clássica iraniana, e Christiane Matallo, considerada pelo jornal “The New York Times” como a “Carmen Miranda do sapateado” e a única brasileira a ministrar aulas no Tap City, o maior evento de sapateado dos Estados Unidos, por dois anos consecutivos.Além das aulas que acontecem durante todo o dia, as noites são reservadas para outras atividades. Na quinta-feira, dia 30, acontece a exibição de filmes lendários do sapateado americano, seguida de bate-papo; na sexta-feira, dia 31, uma jam session com a banda Gilberto de Syllos e no sábado, às 21h, no Centro Cultural de Jaguariúna, uma apresentação de grupos amadores, profissionais e estrelas convidadas.Todos os cursos custam R$ 400. Ainda restam algumas vagas e as inscrições podem ser feitas pelo site www.christiane-matallo.com.br e também pelo telefone (19) 3255-8323. O apoio é da Só Dança e da Prefeitura de Jaguariúna.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

O novo corpo do Corpo

Marcela Benvegnu

Contaminado pela contemporaneidade da música de Lenine, o coreógrafo residente do Grupo Corpo, de Belo Horizonte, Rodrigo Pederneiras, reconstruiu seu vocabulário coreográfico para montar “Breu”, a nova coreografia da companhia que pode ser vista até domingo no Teatro Alfa, em São Paulo. Isso para quem já comprou ingressos, porque eles se esgotaram em questão de dias. Em “Breu”, Pederneiras abandona seus movimentos característicos — que evidenciam sua gramática corporal — para construir um corpo que dança com as texturas da urbanidade de nossos tempos.
O Corpo não dramatiza. Em sua maneira de “dizer” faz do corpo um suporte para desafiar a cordialidade, o diálogo e as normas. De um canto do palco, a imobilidade dos bailarinos antecipa as quedas que marcam o percurso coreográfico. Neste trabalho, há ainda mais peso e uma concentração de movimentos na faixa logo acima do chão. Rasteiros, os corpos são movidos pelos ombros, tornozelos, calcanhares e, vez ou outra, erguidos, ainda que inertes, pela compaixão (ou culpa) de um companheiro. Mas a redução do excesso provoca rupturas dos laços sociais e afetivos. Talvez essa horizontalidade seja a marca mais profunda de “Breu”, afinal Pederneiras é o maior amante de movimentos longilíneos e de quebras de quadris da dança contemporânea brasileira.
A organização da cena revela um espaço multifacetado, complexo, onde corpos disputam o direito de ordenar suas próprias trajetórias. Bailarinos, que a princípio parecem se mover sem nenhuma ordem, sabem exatamente para onde vão e porque vão. É quando o choque se faz inevitável e o novo trabalho se revela uma dissertação sobre o enfrentamento e a falta de capacidade de se comunicar.
Da imobilidade à queda, da inquietude à inércia, é por onde caminha “Breu”, um dos mais comuns retratos contemporâneos do ambiente ao mostrar o comportamento das pessoas dominadas pelo tempo, pelo individualismo e pela violência. O corpo do Corpo está no limite.
Na mesma noite, o público pôde rever “Sete ou Oito Peças Para um Balé” (1994). A partir de oito temas musicais surgidos da parceria inédita entre o instrumentista e compositor norte-americano Philip Glass e o grupo instrumental mineiro Uakti, Rodrigo Pederneiras constrói uma obra onde a partitura de movimentos emerge irretocável pela genialidade da forma.


Crédito da foto: José Luiz Pederneiras

terça-feira, 31 de julho de 2007

Jubileu equilibrado


Marcela Benvegnu

De um passo de formiga surgiu um grande império. Assim podemos chamar o Festival de Dança de Joinville, um evento feito em sua maioria por alunos de escolas de todo o Brasil e mundo, que esperam as férias de julho para poderem respirar a arte da dança. Ainda bem que isso existe e é possível acontecer em um país como o nosso, onde as injustiças e desigualdades estão tão evidentes.
Em seu Jubileu de Prata seria impossível não destacar como os grandes trunfos da 25ª edição: a Noite de Abertura e a Noite de Gala. Assistir a performance de Mikhail Barysnikov com a sua Hell´s Kitchen Dance, em “Years Later”, de Benjamim Millipied e “Come In”, de Aszure Barton foi um grande privilégio. As negociações que duraram mais de dois anos valeram à pena.
Unir talentos que já passaram pelo festival e hoje dançam em companhias internacionais foi outra empreitada - assinada pelo talentoso João Wlamir, do Theatro Municipal do Rio de Janeiro - , que deu certo, para abrilhantar a Noite de Gala. Mesmo com o caos aéreo que se instala no país, tudo deu certo.
O nível coreográfico desta edição esteve equilibrado. Excelentes trabalhos de dança contemporânea e sapateado contrastaram com coreografias de jazz insustentáveis. Não houve muitas surpresas – a não ser o bailarino Carlos Wellington Bezerra Gomes, de longe o mais completo desta edição.
Pena que os Seminários em Dança, uma proposta nova e interessante não aguçou a vontade de muitos bailarinos. As conferências e ocorrências dos três dias de duração, nos quais se apresentaram diversos pesquisadores proporcionou a pouco mais de 70 pessoas, uma reflexão sobre o que é pensar a dança, sua memória, história e movimento. Que este seja o primeiro, de muitos outros seminários. Nele se revela uma função do festival, informar para formar. O primeiro passo já foi dado, no ano que vem tudo estará caminhando, ou melhor, dançando. Que julho chegue rápido novamente.

História da dança ao vivo


Marcela Benvegnu

“Chopiniana”, também conhecido como “Les Sylphides” – esse é o seu nome mais popular - é um balé de um único ato baseado em obras do músico Frédéric Chopin (1810-1949). Apresentado pela Escola do Teatro Bolshoi no Brasil (ETBB), no encerramento do festival Meia Ponta, no Teatro Juarez Machado, na quarta-feira, o balé começou a ser coreografado por Mikhail Fokine (1880-1942), em 1907, porém, somente dois anos depois foi apresentado na íntegra no teatro Maryinsky em São Petersburgo.
Isso porque Fokine primeiro coreografou “Opus 64, nº 2”, de Chopin para Anna Pavlova (1881-1931). Em 1908, coreografou uma marzurka e uma valsa, que deu o nome de, “Danses sur la Musique de Chopin” para um corpo de baile e finalmente em 1909, o balé completo. No dia da estréia, Serguei Diaghilev (1872-1929) esteve presente e propôs que a montagem fosse incorporada aos seus Ballets Russes. Assim com a inserção de novas músicas, a montagem final conta com 34 minutos.
Quando coregrafada, “Chopiniana” foi considerada revolucionária por utilizar novas técnicas de dança clássica, estas que os alunos da ETBB souberam reconhecer na remontagem da professora Galina Kravchenko em tom de romantismo. O balé tem como cenário um bosque onde um jovem sonhador está cercado de sílfides bailando ao seu redor. Não existe uma história. O cenário e o tema das sílfides serve para que a coreografia criada por Fokine tome forma.
O elenco formado por bailarinas entre 14 e 19 anos apresentou um trabalho limpo, que encantou o público – muitos de pé pela falta de lugares – e os pequenos bailarinos do Meia Ponta. Entre as intérpretes, todas impecáveis, Stephanine Ricciardi conseguiu se destacar. A jovem, dona de movimentos muito delicados e precisos, parecia uma verdadeira sílfide e foi capaz de dançar e revelar sua alma. Pode-se dizer que “Chopiniana”, interpretado pela ETBB foi uma verdadeira aula de história da dança ao vivo, daquelas que todos deveriam ter oportunidade de assistir.


Que jazz é esse?


Marcela Benvegnu

Apesar de na noite competitiva de quinta-feira, os locutores não terem explicado o significado do estilo do jazz dance, que concorria na categoria conjunto sênior e júnior e dividiu a noite com o balé clássico de repertório (variação feminina sênior, masculina avançada e conjunto avançada) é preciso começar por aqui. Pois a definição desta forma de dança, talvez seja capaz de clarear o olhar do espectador.
A expressão jazz dance nos remete a imagens de ritmos, bamboleios, corpos livres e improvisações de extrema liberdade. É uma dança negra que com o passar do tempo começou a se adaptar às características técnicas conhecidas na época derivadas dos bailes africanos e já modificadas pelos brancos. O jazz tem como principais características uma dança que usa o isolamento de partes do corpo que se movem separadamente seguindo o mesmo ritmo – swing-; movimentos rítmicos sincopados; uso da polirritmia - combinação do corpo em vários ritmos diferentes e o uso correto do centro de gravidade deste corpo que dança.
A noite foi pontuada por trabalhos interessantes, como “Dream Girls”, de Fernanda Araújo, para o Laboratório da Dança de Santa Bárbara D´Oeste. Seu cenário – que ainda bem que fugiu das saias e panos – foram quatro espelhos, que dançavam com as bailarinas (que usavam sapatos de salto, estilo chorus line) e que eram multiplicadas em cena. “Um Cangaço Diferente”, de Iolanda Hanh, de Camboriu, para o Grupo de Dança Kaiorra também inovou. Ao som de uma colagem musical com Elba Ramalho e Zé Ramalho o grupo estava muito bem ensaiado e eles foram capazes de dançar até sentados em uma escada.
Não há como negar que a noite de anteontem foi melhor do que quando as coreografias da categoria avançada se apresentaram, mas o jazz ainda pode muito mais. O estilo sempre emocionou o público do Festival de Dança de Joinville, sempre fez o coração das pessoas baterem mais forte, mas isso não vem acontecendo este ano. Vale a pena refletir sobre que jazz é esse para a próxima edição.
Na outra bateria, o balé clássico de repertório, se viu trabalhos virtuosos, porém, como haviam muitos trabalhos selecionados, a primeira parte da competição foi muito longa e contabilizou 2h20 de duração. Quando começou a bateria dos conjuntos – a mais longa de todas – o público já estava cansado e com frio, tanto que muitas pessoas foram embora durante o intervalo. Mas entre “congelados” e cansados foi possível aplaudir a Companhia do Conservatório (RJ), uma das mais premiadas nesta edição do festival, com a impecável “Raymonda”, de Marius Petipa (1822-1910), remontada por Jorge Teixeira. O grupo que concorreu na categoria conjunto avançada tinha um cenário bem adaptado, intérpretes sintonizados e uma solista pra lá de exuberante.

No ritmo do popular


Marcela Benvegnu

O musicólogo e pesquisador de danças populares, o argentino Carlos Veja disse certa vez que “nada é mais universal que o folclore; nada mais regional que o folclore”. De fato ele tinha razão. É no folclore e na particularidade de cada movimento, figurino ou música de dança popular, que as tradições aparecem e dialogam com a contemporaneidade. Na noite de quarta-feira, que compreendeu na primeira parte as competições de balé clássico (duo júnior e sênior, solo feminino sênior, solo masculino, trio e conjunto avançado) e na segunda parte, trabalhos de danças populares (conjunto júnior e sênior) foram elas que inovaram.
De longe o melhor da noite na bateria foi o de Joinville (SC), com a coreografia “A Rússia Aos Nossos Olhos”, de Liliana Vieira Körn. Ao som de “Night on Bald Mountain”, de Modest Mussorgshy, o grupo formado por 25 meninas revelou uma sincronia de movimentos perfeita. Não havia diferenças de movimento entre nenhuma bailarina e o figurino, em tons de vermelho e branco, levou ao palco um brilho maior.
O Grupo de Dança da Academia Corpo Livre foi um dos que também recebeu uma menção honrosa, com “Joinville Nossa História, Nossa Dança”, também de Liliana no Festival Meia Ponta, anteontem. Vale dizer que o grupo só apresentou trabalhos bem ensaiados e com uma pesquisa coreográfica interessante, que preza pela popularização das danças que já trazem esse nome.
O gênero tem origens diversas. Mas o essencial é que o corpo brasileiro, com a sua forma de dançar, musicar e, sobretudo, coreografar lhe confere traços singulares. Sob composição de Ronan Hardman denominada “The Celtic Tiger”, a Academia Sheila´s Ballet mostrou essas características. Com “New Irish”, de Helga e Sheila Santos, a escola de Piedade (SP) fez jus ao título de seu trabalho e levou ao palco do Centreventos Cau Hansen intérpretes que abusaram da sincronicidade. Vestidas com roupas pretas – cada uma usava um modelo diferente – que se assemelhavam aos punks modernos, o grupo foi capaz de apresentar uma versão diferente daquilo que sempre vimos como Irish Step Dancing, mais conhecido como sapateado irlandês.
Em noite de balé clássico muitas coreografias destoavam da categoria, era uma dança moderna aqui, muita dança contemporânea acolá. Porém, o que era mesmo balé clássico feito com muita criatividade foi “Shishumki – Mudança de Vida”, solo de Jean Alex, para a pequena Yumi Hayasaka. Dançando com dois leques vermelhos, a bailarina foi muito bem trabalhada por Alex, que soube usar qualidades como, sua bela linha de pernas e pés bem trabalhos, a favor da coreografia.
Na bateria de balé clássico conjunto categoria avançada se apresentaram nove escolas. É possível pontuar excelentes peças como, “Vozes da Primevera”, de Henrique Talma com remontagem de Jorge Teixeira para a Companhia do Conservatório do Rio de Janeiro, que mostrou um elenco bem entrosado e o Ballet Aracy de Almeida, com “All Blue”, também de Alex, que além de ter marcado o cenário da dança brasileira com sua interpretação de “Caminho da Seda”, de Roseli Rodrigues se mostra um coreógrafo maduro, a altura do Raça Cia. de Dança de São Paulo, que o projetou.
Outro trabalho marcante foi, “Os Coringas”, de Renata Pacheco. Executado pelo Balé da Cidade de Santos, o que se viu, já era esperado. O numeroso elenco – 17 bailarinas – pareciam um único corpo em cena tamanha perfeição de seus movimentos. O figurino típico de um coringa deixou o palco colorido e a montagem de Renata foi tão bem estruturada que quase não se percebeu que a música era uma das mais famosas do repertório de “La Bayadere”, do russo Leon Minkus (1826-1917).

Corpo aprisionado


Marcela Benvegnu

A história de Sebastiana de Mello Freire, conhecida como dona Yayá, mulher da elite paulistana diagnosticada como doente mental e cuja casa foi parcialmente transformada em hospital psiquiátrico privado - pois ela permaneceu isolada no recinto de 1919 a 1961 – é retratada de forma muito pertinente em, “O Banho” (2004), pela bailarina e coreógrafa Marta Soares, do Marta Soares - Grupo de Dança Teatro, de São Paulo.
O trabalho apresentado na Cidadela Cultural Antartica, na segunda-feira, integrou a última apresentação da Mostra de Dança Contemporânea do Festival de Dança de Joinville, tendo em vista que o espetáculo da Cia. Borelli, que deveria ter se apresentado ontem, foi cancelado.
“O Banho” é uma instalação coreográfica. Assim que os espectadores entram no espaço proposto com uma série de projeções em movimento, que foram gravadas na casa de dona Yayá, em São Paulo e enfatizam o reflexo do corpo e da memória, percebem que são transportados para outra atmosfera. Uma banheira branca antiga, cheia de água quente é o foco do trabalho. É dentro dela que Marta desenvolve sua pesquisa.
A coreografia não é vista de forma convencional, pois não existem cadeiras. Nos primeiros minutos da apresentação, ninguém ousa se aproximar de seu corpo nu, porém, aos poucos, quando todos já sentem o confinamento, a relação se transforma. As pessoas quase grudadas na banheira refletem juntas sobre a passagem do tempo, a vida e a morte.
O corpo de Marta imerso na banheira delira, se fere, se comprime, se revolta e tenta se libertar de uma história própria. É interessante notar que no chão, as marcas dos sapatos em contato com a água traçam caminhos que desenham novas possibilidades de exploração. “O Banho”, pela própria função da arte, causa à primeira vista estranhamento, mas depois, se consolida como uma grande obra.


A vez das placas de metal


Marcela Benvegnu

Na noite fria (e chuvosa) de quarta-feira, quem subiu ao palco do Centreventos Cau Hansen para se apresentar nas baterias de sapateado (júnior, sênior e avançado) e balé clássico de repertório (variação feminina júnior e grand pas-de-deux avançado) na Noite Competitiva pode se esquentar. Os aplausos foram calorosos e as coreografias, parecem ter atingido o ápice da competição.
No sapateado, também conhecido como tap dance a noite foi da estreante Companhia Feeling de Dança, de São José dos Campos, com a coreografia “Breaking Rules”, de Charles Renato, que tem história no festival, mas esse ano resolveu apostar trazendo sua própria escola. A ousadia deu certo. Ao som de “Heartburn” de Alicia Keys o trabalho inserido na categoria avançada, propõe um bom duelo de sapateadores e trabalha muito bem a técnica e não só a plasticidade cênica.
Renato tem uma característica forte e expressiva, que já pôde ser vista em trabalhos anteriores. Mas é interessante observar como o jovem se insere no contexto do trabalho como coreógrafo-intérprete. Em cena ele se coloca no mesmo nível e posição que seus alunos, ninguém tem uma importância maior no palco do que o resultado. Um excelente caminho para mais uma trajetória de sucesso.
Ainda no avançado o Studio de Sapateado Juliana Garcia (Ribeirão Preto), de Juliana Garcia trouxe novamente a música brasileira ao palco do Centreventos. Em cena “Pentagrama”, assinado pela própria Juliana, revela a delicadeza de “Garota de Ipanema”, de Vinícius de Moraes e Tom Jobim por meio de intérpretes que sapateiam entre elásticos brancos que fazem referência direta a pentagrama da partitura musical.
Outro trabalho interessante e da categoria júnior, foi “De Volta aos Anos 70”, de Vera Passos. O cenário com fotos da próprias alunas que revelaram um figurino típico de época e um bom nível técnico a fizeram a melhor da categoria.
Os trabalhos foram bons, porém, há alguma ressalvas. “Happy Feet”, que não precisa de apresentações, não é um filme que traz grandes surpresas musicais. Mano, o pingüim sapateador dá vida às canções do filme porque atrás de sua doçura está Savion Glover, um dos maiores sapateadores da atualidade. Talvez fosse mais interessante deixar essas composições para a interpretação de Mano (Mumble ou Glover, como preferirem). A repetição cansa e é preciso criar.
Outro ponto importante é rever o nome de alguns trabalhos. Em certas coreografias não se faz referência ao título proposto com o que se vê em cena. Mais difícil ainda é quando nem o nome da coreografia tem relação direta com o figurino. Apesar da noite ser do jeans e da legging, presente na maioria das montagens, esse trabalho de junção de linguagens, uma conversa entre, título, figurino e movimentação não aconteceu de forma muito entrosada.
Na noite que também foi dos clássicos de repertório e da chuva, pois haviam goteiras no palco, o Balé Jovem do Centro Cultural Gustav Ritter, de Goiânia, apresentou “Grand Pas Classic”, de Gsovsky, sem decepcionar. Os bailarinos Dhaniel Amaral Vieira Barros e Marília Cardoso Lício estava entrosados e ela, dona de uma boa técnica de sustentação mostrou como os ensaios valeram à pena.
Porém a noite foi de “Talismã”, de Marius Petipa (1822-1910), com remontagem de Jorge Teixiera para a Companhia do Conservatório, do Rio de Janeiro. Os bailarinos Flávia Gomes de Oliveira e Carlos Wellington Bezerra Gomes foram impecáveis. Flávia trouxe ao palco a leveza desta montagem de Petipa, com braços delicados, pernas altas e alongadas e excelente interpretação. Gomes levou o público ao delírio. Além de não errar nenhum dos mais de 35 giros que executou com perfeição, se mostrou um partner competente que dá segurança a bailarina. De fato, uma noite memorável.

Movimento nas palavras


Marcela Benvegnu


Poesia, dança e romance. Assim é “Tudo O Que Se Espera”, coreografia do talentoso Clébio de Oliveira – também integrante da Cia. de Dança Débora Colker, do Rio de Janeiro – para a companhia que leva seu nome e que foi apresentada na terceira noite da Mostra de Dança Contemporânea do Festival de Dança de Joinville, no Teatro Juarez Machado, no domingo.
O trabalho, livremente inspirado no romance “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos começa ao passo que os espectadores procuram seus lugares no teatro. Em cena quatro bailarinas se locomovem ao som do acordeon tocado ao vivo pelo instrumentista Antônio Fidélis em um palco coberto por 10 mil folhas sulfite brancas, que fazem o papel das cartas recebidas e das que jamais foram escritas por Ramos. O movimento das palavras em silêncio, revela a espera, a saudade e os destinos incertos.
A movimentação é delicada e ao mesmo tempo precisa. Sutilezas como o toque de um pé em outro para que as bailarinas caminhem no tempo correto, ou uma respiração que marca o início de uma nova seqüência deixa o trabalho mais poético. Sua relação fragmentada e interdependente, mescla a dança contemporânea com as danças brasileiras, ao som de composições de Sivuca, Comadre Florzinha, Quinteto Armonial e outras.
“Tudo O Que Se Espera” foi premiada como a melhor coreografia de 2006 em votação online no “Jornal do Brasil” (RJ) e deixa claro, que Oliveira, bem sucedido em solos autorais como “Uma Barata Só Faz Verão” (2001) e “Valkíria Junia da Silva”, (2002), encontrou sua própria identidade coreográfica.

Revista de Dança

Queridos amigos e seguidores do Tudo É Dança, Escrevo hoje para dividir com vocês todos, que dançam comigo aqui durante todos esses anos, ...