terça-feira, 31 de julho de 2007

Jubileu equilibrado


Marcela Benvegnu

De um passo de formiga surgiu um grande império. Assim podemos chamar o Festival de Dança de Joinville, um evento feito em sua maioria por alunos de escolas de todo o Brasil e mundo, que esperam as férias de julho para poderem respirar a arte da dança. Ainda bem que isso existe e é possível acontecer em um país como o nosso, onde as injustiças e desigualdades estão tão evidentes.
Em seu Jubileu de Prata seria impossível não destacar como os grandes trunfos da 25ª edição: a Noite de Abertura e a Noite de Gala. Assistir a performance de Mikhail Barysnikov com a sua Hell´s Kitchen Dance, em “Years Later”, de Benjamim Millipied e “Come In”, de Aszure Barton foi um grande privilégio. As negociações que duraram mais de dois anos valeram à pena.
Unir talentos que já passaram pelo festival e hoje dançam em companhias internacionais foi outra empreitada - assinada pelo talentoso João Wlamir, do Theatro Municipal do Rio de Janeiro - , que deu certo, para abrilhantar a Noite de Gala. Mesmo com o caos aéreo que se instala no país, tudo deu certo.
O nível coreográfico desta edição esteve equilibrado. Excelentes trabalhos de dança contemporânea e sapateado contrastaram com coreografias de jazz insustentáveis. Não houve muitas surpresas – a não ser o bailarino Carlos Wellington Bezerra Gomes, de longe o mais completo desta edição.
Pena que os Seminários em Dança, uma proposta nova e interessante não aguçou a vontade de muitos bailarinos. As conferências e ocorrências dos três dias de duração, nos quais se apresentaram diversos pesquisadores proporcionou a pouco mais de 70 pessoas, uma reflexão sobre o que é pensar a dança, sua memória, história e movimento. Que este seja o primeiro, de muitos outros seminários. Nele se revela uma função do festival, informar para formar. O primeiro passo já foi dado, no ano que vem tudo estará caminhando, ou melhor, dançando. Que julho chegue rápido novamente.

História da dança ao vivo


Marcela Benvegnu

“Chopiniana”, também conhecido como “Les Sylphides” – esse é o seu nome mais popular - é um balé de um único ato baseado em obras do músico Frédéric Chopin (1810-1949). Apresentado pela Escola do Teatro Bolshoi no Brasil (ETBB), no encerramento do festival Meia Ponta, no Teatro Juarez Machado, na quarta-feira, o balé começou a ser coreografado por Mikhail Fokine (1880-1942), em 1907, porém, somente dois anos depois foi apresentado na íntegra no teatro Maryinsky em São Petersburgo.
Isso porque Fokine primeiro coreografou “Opus 64, nº 2”, de Chopin para Anna Pavlova (1881-1931). Em 1908, coreografou uma marzurka e uma valsa, que deu o nome de, “Danses sur la Musique de Chopin” para um corpo de baile e finalmente em 1909, o balé completo. No dia da estréia, Serguei Diaghilev (1872-1929) esteve presente e propôs que a montagem fosse incorporada aos seus Ballets Russes. Assim com a inserção de novas músicas, a montagem final conta com 34 minutos.
Quando coregrafada, “Chopiniana” foi considerada revolucionária por utilizar novas técnicas de dança clássica, estas que os alunos da ETBB souberam reconhecer na remontagem da professora Galina Kravchenko em tom de romantismo. O balé tem como cenário um bosque onde um jovem sonhador está cercado de sílfides bailando ao seu redor. Não existe uma história. O cenário e o tema das sílfides serve para que a coreografia criada por Fokine tome forma.
O elenco formado por bailarinas entre 14 e 19 anos apresentou um trabalho limpo, que encantou o público – muitos de pé pela falta de lugares – e os pequenos bailarinos do Meia Ponta. Entre as intérpretes, todas impecáveis, Stephanine Ricciardi conseguiu se destacar. A jovem, dona de movimentos muito delicados e precisos, parecia uma verdadeira sílfide e foi capaz de dançar e revelar sua alma. Pode-se dizer que “Chopiniana”, interpretado pela ETBB foi uma verdadeira aula de história da dança ao vivo, daquelas que todos deveriam ter oportunidade de assistir.


Que jazz é esse?


Marcela Benvegnu

Apesar de na noite competitiva de quinta-feira, os locutores não terem explicado o significado do estilo do jazz dance, que concorria na categoria conjunto sênior e júnior e dividiu a noite com o balé clássico de repertório (variação feminina sênior, masculina avançada e conjunto avançada) é preciso começar por aqui. Pois a definição desta forma de dança, talvez seja capaz de clarear o olhar do espectador.
A expressão jazz dance nos remete a imagens de ritmos, bamboleios, corpos livres e improvisações de extrema liberdade. É uma dança negra que com o passar do tempo começou a se adaptar às características técnicas conhecidas na época derivadas dos bailes africanos e já modificadas pelos brancos. O jazz tem como principais características uma dança que usa o isolamento de partes do corpo que se movem separadamente seguindo o mesmo ritmo – swing-; movimentos rítmicos sincopados; uso da polirritmia - combinação do corpo em vários ritmos diferentes e o uso correto do centro de gravidade deste corpo que dança.
A noite foi pontuada por trabalhos interessantes, como “Dream Girls”, de Fernanda Araújo, para o Laboratório da Dança de Santa Bárbara D´Oeste. Seu cenário – que ainda bem que fugiu das saias e panos – foram quatro espelhos, que dançavam com as bailarinas (que usavam sapatos de salto, estilo chorus line) e que eram multiplicadas em cena. “Um Cangaço Diferente”, de Iolanda Hanh, de Camboriu, para o Grupo de Dança Kaiorra também inovou. Ao som de uma colagem musical com Elba Ramalho e Zé Ramalho o grupo estava muito bem ensaiado e eles foram capazes de dançar até sentados em uma escada.
Não há como negar que a noite de anteontem foi melhor do que quando as coreografias da categoria avançada se apresentaram, mas o jazz ainda pode muito mais. O estilo sempre emocionou o público do Festival de Dança de Joinville, sempre fez o coração das pessoas baterem mais forte, mas isso não vem acontecendo este ano. Vale a pena refletir sobre que jazz é esse para a próxima edição.
Na outra bateria, o balé clássico de repertório, se viu trabalhos virtuosos, porém, como haviam muitos trabalhos selecionados, a primeira parte da competição foi muito longa e contabilizou 2h20 de duração. Quando começou a bateria dos conjuntos – a mais longa de todas – o público já estava cansado e com frio, tanto que muitas pessoas foram embora durante o intervalo. Mas entre “congelados” e cansados foi possível aplaudir a Companhia do Conservatório (RJ), uma das mais premiadas nesta edição do festival, com a impecável “Raymonda”, de Marius Petipa (1822-1910), remontada por Jorge Teixeira. O grupo que concorreu na categoria conjunto avançada tinha um cenário bem adaptado, intérpretes sintonizados e uma solista pra lá de exuberante.

No ritmo do popular


Marcela Benvegnu

O musicólogo e pesquisador de danças populares, o argentino Carlos Veja disse certa vez que “nada é mais universal que o folclore; nada mais regional que o folclore”. De fato ele tinha razão. É no folclore e na particularidade de cada movimento, figurino ou música de dança popular, que as tradições aparecem e dialogam com a contemporaneidade. Na noite de quarta-feira, que compreendeu na primeira parte as competições de balé clássico (duo júnior e sênior, solo feminino sênior, solo masculino, trio e conjunto avançado) e na segunda parte, trabalhos de danças populares (conjunto júnior e sênior) foram elas que inovaram.
De longe o melhor da noite na bateria foi o de Joinville (SC), com a coreografia “A Rússia Aos Nossos Olhos”, de Liliana Vieira Körn. Ao som de “Night on Bald Mountain”, de Modest Mussorgshy, o grupo formado por 25 meninas revelou uma sincronia de movimentos perfeita. Não havia diferenças de movimento entre nenhuma bailarina e o figurino, em tons de vermelho e branco, levou ao palco um brilho maior.
O Grupo de Dança da Academia Corpo Livre foi um dos que também recebeu uma menção honrosa, com “Joinville Nossa História, Nossa Dança”, também de Liliana no Festival Meia Ponta, anteontem. Vale dizer que o grupo só apresentou trabalhos bem ensaiados e com uma pesquisa coreográfica interessante, que preza pela popularização das danças que já trazem esse nome.
O gênero tem origens diversas. Mas o essencial é que o corpo brasileiro, com a sua forma de dançar, musicar e, sobretudo, coreografar lhe confere traços singulares. Sob composição de Ronan Hardman denominada “The Celtic Tiger”, a Academia Sheila´s Ballet mostrou essas características. Com “New Irish”, de Helga e Sheila Santos, a escola de Piedade (SP) fez jus ao título de seu trabalho e levou ao palco do Centreventos Cau Hansen intérpretes que abusaram da sincronicidade. Vestidas com roupas pretas – cada uma usava um modelo diferente – que se assemelhavam aos punks modernos, o grupo foi capaz de apresentar uma versão diferente daquilo que sempre vimos como Irish Step Dancing, mais conhecido como sapateado irlandês.
Em noite de balé clássico muitas coreografias destoavam da categoria, era uma dança moderna aqui, muita dança contemporânea acolá. Porém, o que era mesmo balé clássico feito com muita criatividade foi “Shishumki – Mudança de Vida”, solo de Jean Alex, para a pequena Yumi Hayasaka. Dançando com dois leques vermelhos, a bailarina foi muito bem trabalhada por Alex, que soube usar qualidades como, sua bela linha de pernas e pés bem trabalhos, a favor da coreografia.
Na bateria de balé clássico conjunto categoria avançada se apresentaram nove escolas. É possível pontuar excelentes peças como, “Vozes da Primevera”, de Henrique Talma com remontagem de Jorge Teixeira para a Companhia do Conservatório do Rio de Janeiro, que mostrou um elenco bem entrosado e o Ballet Aracy de Almeida, com “All Blue”, também de Alex, que além de ter marcado o cenário da dança brasileira com sua interpretação de “Caminho da Seda”, de Roseli Rodrigues se mostra um coreógrafo maduro, a altura do Raça Cia. de Dança de São Paulo, que o projetou.
Outro trabalho marcante foi, “Os Coringas”, de Renata Pacheco. Executado pelo Balé da Cidade de Santos, o que se viu, já era esperado. O numeroso elenco – 17 bailarinas – pareciam um único corpo em cena tamanha perfeição de seus movimentos. O figurino típico de um coringa deixou o palco colorido e a montagem de Renata foi tão bem estruturada que quase não se percebeu que a música era uma das mais famosas do repertório de “La Bayadere”, do russo Leon Minkus (1826-1917).

Corpo aprisionado


Marcela Benvegnu

A história de Sebastiana de Mello Freire, conhecida como dona Yayá, mulher da elite paulistana diagnosticada como doente mental e cuja casa foi parcialmente transformada em hospital psiquiátrico privado - pois ela permaneceu isolada no recinto de 1919 a 1961 – é retratada de forma muito pertinente em, “O Banho” (2004), pela bailarina e coreógrafa Marta Soares, do Marta Soares - Grupo de Dança Teatro, de São Paulo.
O trabalho apresentado na Cidadela Cultural Antartica, na segunda-feira, integrou a última apresentação da Mostra de Dança Contemporânea do Festival de Dança de Joinville, tendo em vista que o espetáculo da Cia. Borelli, que deveria ter se apresentado ontem, foi cancelado.
“O Banho” é uma instalação coreográfica. Assim que os espectadores entram no espaço proposto com uma série de projeções em movimento, que foram gravadas na casa de dona Yayá, em São Paulo e enfatizam o reflexo do corpo e da memória, percebem que são transportados para outra atmosfera. Uma banheira branca antiga, cheia de água quente é o foco do trabalho. É dentro dela que Marta desenvolve sua pesquisa.
A coreografia não é vista de forma convencional, pois não existem cadeiras. Nos primeiros minutos da apresentação, ninguém ousa se aproximar de seu corpo nu, porém, aos poucos, quando todos já sentem o confinamento, a relação se transforma. As pessoas quase grudadas na banheira refletem juntas sobre a passagem do tempo, a vida e a morte.
O corpo de Marta imerso na banheira delira, se fere, se comprime, se revolta e tenta se libertar de uma história própria. É interessante notar que no chão, as marcas dos sapatos em contato com a água traçam caminhos que desenham novas possibilidades de exploração. “O Banho”, pela própria função da arte, causa à primeira vista estranhamento, mas depois, se consolida como uma grande obra.


A vez das placas de metal


Marcela Benvegnu

Na noite fria (e chuvosa) de quarta-feira, quem subiu ao palco do Centreventos Cau Hansen para se apresentar nas baterias de sapateado (júnior, sênior e avançado) e balé clássico de repertório (variação feminina júnior e grand pas-de-deux avançado) na Noite Competitiva pode se esquentar. Os aplausos foram calorosos e as coreografias, parecem ter atingido o ápice da competição.
No sapateado, também conhecido como tap dance a noite foi da estreante Companhia Feeling de Dança, de São José dos Campos, com a coreografia “Breaking Rules”, de Charles Renato, que tem história no festival, mas esse ano resolveu apostar trazendo sua própria escola. A ousadia deu certo. Ao som de “Heartburn” de Alicia Keys o trabalho inserido na categoria avançada, propõe um bom duelo de sapateadores e trabalha muito bem a técnica e não só a plasticidade cênica.
Renato tem uma característica forte e expressiva, que já pôde ser vista em trabalhos anteriores. Mas é interessante observar como o jovem se insere no contexto do trabalho como coreógrafo-intérprete. Em cena ele se coloca no mesmo nível e posição que seus alunos, ninguém tem uma importância maior no palco do que o resultado. Um excelente caminho para mais uma trajetória de sucesso.
Ainda no avançado o Studio de Sapateado Juliana Garcia (Ribeirão Preto), de Juliana Garcia trouxe novamente a música brasileira ao palco do Centreventos. Em cena “Pentagrama”, assinado pela própria Juliana, revela a delicadeza de “Garota de Ipanema”, de Vinícius de Moraes e Tom Jobim por meio de intérpretes que sapateiam entre elásticos brancos que fazem referência direta a pentagrama da partitura musical.
Outro trabalho interessante e da categoria júnior, foi “De Volta aos Anos 70”, de Vera Passos. O cenário com fotos da próprias alunas que revelaram um figurino típico de época e um bom nível técnico a fizeram a melhor da categoria.
Os trabalhos foram bons, porém, há alguma ressalvas. “Happy Feet”, que não precisa de apresentações, não é um filme que traz grandes surpresas musicais. Mano, o pingüim sapateador dá vida às canções do filme porque atrás de sua doçura está Savion Glover, um dos maiores sapateadores da atualidade. Talvez fosse mais interessante deixar essas composições para a interpretação de Mano (Mumble ou Glover, como preferirem). A repetição cansa e é preciso criar.
Outro ponto importante é rever o nome de alguns trabalhos. Em certas coreografias não se faz referência ao título proposto com o que se vê em cena. Mais difícil ainda é quando nem o nome da coreografia tem relação direta com o figurino. Apesar da noite ser do jeans e da legging, presente na maioria das montagens, esse trabalho de junção de linguagens, uma conversa entre, título, figurino e movimentação não aconteceu de forma muito entrosada.
Na noite que também foi dos clássicos de repertório e da chuva, pois haviam goteiras no palco, o Balé Jovem do Centro Cultural Gustav Ritter, de Goiânia, apresentou “Grand Pas Classic”, de Gsovsky, sem decepcionar. Os bailarinos Dhaniel Amaral Vieira Barros e Marília Cardoso Lício estava entrosados e ela, dona de uma boa técnica de sustentação mostrou como os ensaios valeram à pena.
Porém a noite foi de “Talismã”, de Marius Petipa (1822-1910), com remontagem de Jorge Teixiera para a Companhia do Conservatório, do Rio de Janeiro. Os bailarinos Flávia Gomes de Oliveira e Carlos Wellington Bezerra Gomes foram impecáveis. Flávia trouxe ao palco a leveza desta montagem de Petipa, com braços delicados, pernas altas e alongadas e excelente interpretação. Gomes levou o público ao delírio. Além de não errar nenhum dos mais de 35 giros que executou com perfeição, se mostrou um partner competente que dá segurança a bailarina. De fato, uma noite memorável.

Movimento nas palavras


Marcela Benvegnu


Poesia, dança e romance. Assim é “Tudo O Que Se Espera”, coreografia do talentoso Clébio de Oliveira – também integrante da Cia. de Dança Débora Colker, do Rio de Janeiro – para a companhia que leva seu nome e que foi apresentada na terceira noite da Mostra de Dança Contemporânea do Festival de Dança de Joinville, no Teatro Juarez Machado, no domingo.
O trabalho, livremente inspirado no romance “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos começa ao passo que os espectadores procuram seus lugares no teatro. Em cena quatro bailarinas se locomovem ao som do acordeon tocado ao vivo pelo instrumentista Antônio Fidélis em um palco coberto por 10 mil folhas sulfite brancas, que fazem o papel das cartas recebidas e das que jamais foram escritas por Ramos. O movimento das palavras em silêncio, revela a espera, a saudade e os destinos incertos.
A movimentação é delicada e ao mesmo tempo precisa. Sutilezas como o toque de um pé em outro para que as bailarinas caminhem no tempo correto, ou uma respiração que marca o início de uma nova seqüência deixa o trabalho mais poético. Sua relação fragmentada e interdependente, mescla a dança contemporânea com as danças brasileiras, ao som de composições de Sivuca, Comadre Florzinha, Quinteto Armonial e outras.
“Tudo O Que Se Espera” foi premiada como a melhor coreografia de 2006 em votação online no “Jornal do Brasil” (RJ) e deixa claro, que Oliveira, bem sucedido em solos autorais como “Uma Barata Só Faz Verão” (2001) e “Valkíria Junia da Silva”, (2002), encontrou sua própria identidade coreográfica.

A “boa” fúria da platéia


Marcela Benvegnu


As poltronas tremeram. O coração acelerou e o público gritou tanto, que quase não se ouviu o anúncio dos trabalhos de dança de rua conjunto avançada que iriam se apresentar no palco do Centreventos Cau Hansen, na noite de domingo. Essa era a atmosfera do espaço, afinal, foi à vez da dança da sincronia, da emoção, do ritmo e das batidas entrar em cena. No palco: a rua de diversas maneiras; cada uma com sua marca, explosão e vontade de mostrar a cara de sua tribo. Sabe-se que a dança de rua é uma manifestação que surgiu na época da grande crise econômica dos Estados Unidos, em meados de 1929, quando os músicos e dançarinos que trabalhavam nos cabarés ficaram desempregados e foram para as ruas fazer seus shows. No Brasil, esse movimento foi popularizado em 1991, pelo Dança de Rua do Brasil, de Santos, e de lá para cá, só se vê progresso, inovação e conceito. De fato, dançar vem sendo um verbo bem conjugado por essas trupes.
Na noite de domingo, os trabalhos "da terra", como "Enquanto Houver Dança Haverá Esperança", de Juliana Ramos, da Companhia Joinvillense de Dança de Rua e "Raízes", de Nilberto Lima de Souza, do grupo Fúria das Ruas, ambos de Joinville (SC), foram os mais aplaudidos da noite. Não foi à toa. Juliana levou ao palco uma boa pesquisa de movimentos e figurinos - os intérpretes usavam meias listradas da cor da blusa - que fazia bem aos olhos. (Só não valeu uma intérprete arrumar os cabelos em cena.)
Souza inovou no cenário. No lugar dos usuais grafites, "Raízes" apresentou como pano de fundo uma paisagem urbana em tons pastéis que se assemelhava às ruas do subúrbio de Nova York. Em meio aos prédios e pontes, uma placa indicava um bailarino em movimento; ali era o espaço da dança. Uma forma inteligente de abordar a contemporaneidade aliada a seqüências bem trabalhas que priorizaram sincronia e velocidade.
Vale dizer que os trabalhos de dança de rua apresentados na segunda parte da noite fizeram com que o Centreventos ficasse lotado mesmo com a chuva que caia na cidade. Só havia espaço para aplausos e flashes. Infelizmente, na primeira parte da competição destinada às apresentações das coreografias de dança contemporânea, (solo feminino e duo sênior, solo feminino e trio avançado) centenas de cadeiras ficaram vazias. Onde estava o público?
O coreógrafo Ricardo Sheir, com “Não Existe o Lugar...”, pelo Grupo Corpo Livre, de Valinhos (SP), na categoria de dança contemporânea trio avançada, mostrou um trabalho que usou muito bem o espaço cênico do palco e tem em seu contexto uma poética evidente. O mesmo aconteceu com, “Sussuros”, da Cia de Dança do Teatro Alberto Maranhão, de Natal (RN), assinada pelo coreógrafo-intérprete Tomás Quaresma. Contudo, não foi uma noite de grandes surpresas no gênero. Tomara que para 2008, alguns professores pesquisem mais sobre o verdadeiro sentido da dança contemporânea, que vai muito, mais muito além de uma seqüência de aulas transformada em pseudocoreografia com trilha sonora impactante.


Sonho consagrado


Marcela Benvegnu


Sonho, em seu sentido etimológico é um conjunto de idéias, imagens, fantasia, visão e aspiração; um substantivo perfeito para definir a Noite de Gala do 25º Festival de Dança de Joinville, que em 2007 completa seu Jubileu de Prata, com cara de ouro. A noite foi de estrelas de primeira grandeza, que marcaram o palco do festival em sua história e hoje levam a dança brasileira para o mundo.
Digirida por João Wlamir, diretor assistente do Balé do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, “Especial 25 anos – Grandes Nomes da Dança” cumpriu seu propósito. Emocionou uma platéia que emudecida, pôde sonhar acordada o filme da vida real de um bailarino.
Ao som do hino do festival, que dispensa apresentações, Cícero Gomes, melhor bailarino da 23ª edição do Festival e solista do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, entra pela platéia, vestido com um uniforme de escola balé – esses que os bailarinos andam pela Feira da Sapatilha - para dar início ao espetáculo. A cortina se abre e uma sombra chinesa revela-os se aquecendo. Daí, não se poupam emoções.
Ammanda Rosa e Irlan Santos, considerados os melhores bailarinos do festival no ano passado abriram a noite com “Chamas de Paris”, seguidos de Mariana Dias, solista do corpo de baile do Leipzig Ballet, da Alemanha, acompanhada de seu partner Martin Chaix com “Au’ Revoir à L’Amour”, de Chaix; Fernanda Oliveira, que hoje é bailarina principal do English Nacional Ballet, de Londres e Fabian Raimair, executaram “Perpetuum Mobile”, de Christopher Hampson, ao som de Sebastian Bach.
Para fechar a primeira parte do programa, a suíte de “O Corsário”, com “Le Jardim Animée”, ficou a cargo da Escola Estadual de Danças Maria Olenewa e o grand pas-de-deux foi intepretado por Márcia Jacqueline (primeira bailarina do Theatro Municipal do RJ) e Bruno Rocha, solista do Het Nacionale Ballet, de Amsterdam.
A hora do intervalo, não valeu somente para a platéia. Ele também aconteceu no palco. Pela sombra chinesa era possível ver Gomes, que tem diversas entradas durante o espetáculo com o hino do festival executado ao piano, se maquiando; o palco sendo limpo e montado pela técnica. É a dança da rotina, que recomeça quando Gomes executa a variação do Bobo da Corte de, “O Lago dos Cisnes”.
Em “LAC”, um pas-de-deux, que também faz referência à “O Lago dos Cisnes”, na releitura de Sandro Borelli, os bailarinos Andrea Thomioka e Israel Alves, ambos do Balé da Cidade de São Paulo, revelam a dança contemporânea ao espectador. E em noite de festa, a Escola do Teatro Bolshoi no Brasil não poderia deixar de estar. Eles apresentaram, “Dança Russa” (de “O Quebra-Nozes), com Carla Braum, Denise Hoefle e Erick Swolkin.
Rodrigo Guzmán e Andreza Randisek, primeiros bailarinos do Balé de Santiago, do Chile trouxeram a suíte de “A Megera Domada” ao palco, antecedendo o pas-de-deux de, “Adão e Eva”, em “A Criação” – interpretado na íntegra pelo Ballet do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, na abertura do Festival do ano passado – com coreografia de Uwe Scholz, por Mariana e Chaix.
A consagração atinge o ápice com William Pedro, solista do Béjart Ballet Lausanne, na Suíça, em “Und So Weiter”, de Maurice Béjart e com Vitor Luiz e a impecável Cecília Kerche, ambos primeiros bailarinos do Municipal do RJ, na suíte de “Dom Quixote”. É inegável dizer que dançar no palco do Festival de Dança de Joinville é um sonho realizado para centenas de bailarinos que passaram aqui durante esses 25 anos. Hoje, voltar como convidado em uma data tão especial é a pura consagração.


A margem da luz


Marcela Benvegnu


Foi o conto “A Terceira Margem do Rio”, do mineiro Guimarães Rosa, que serviu de inspiração para o talentoso Renato Vieira – que está completando 35 anos de carreira este ano - criar, “Terceira Margem”, coreografia que foi apresentada na noite de sábado, na Mostra de Dança Contemporânea do Festival de Dança de Joinville, pela Renato Vieira Companhia de Dança, do Rio de Janeiro.
Contemplado com o Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna, o trabalho tem a luz como fio condutor do movimento. O design assinado por Binho Schaefer direciona, conversa, oculta e ilumina o bailarino. É a luz quem transforma o ambiente, molda o rio, cria a atmosfera de um silêncio que se perde no movimento e permite que tudo aconteça em um lugar onde não é lugar e onde um homem embarcou em uma canoa que ele mesmo construiu.
A movimentação é plástica e revela formas interessantes de explorar o corpo, assim como os figurinos assinados por Desirée Bastos e os espaços do cenário idealizado por Sergio Marimba. De um lado do palco uma parede negra - que em uma determinada cena serve de chão para os bailarinos - com quatro luzes embutidas fecha as coxias, de outro, o espaço vazio e ao fundo da caixa preta, cinco portas, sendo uma de cada tamanho por onde os bailarinos aparecem e desaparecem de cena.
A cada entrada uma surpresa. A cada mudança de luz, um novo movimento feito pela trupe formada por Alex Senna, Soraya Bastos, Jean Gama, Laura Ávila e Thiago Sancho, que dançam sim em alguns momentos, “sua própria margem”, ao som de composições de Keith Jarret e Miles Davis, na trilha sonora montada por Nino Carlo.


Dança de formação


Marcela Benvegnu




A platéia do Festival de Dança de Joinville, não é somente formada por bailarinos. No meio das arquibancadas, cadeiras plásticas e estofadas existem amantes da dança e centenas de pessoas, que em um espetáculo como o da noite de sábado, têm seu primeiro contato com a arte do movimento. Para um bailarino, falar em pas-de-deux e balés de repertório é tão natural quanto comer arroz e feijão, mas para o público nem sempre é assim.
Quando assistimos a um espetáculo de dança e ele transforma informação em formação temos a certeza de o trabalho foi bem cumprido. E esta 25ª edição do festival tem feito isso de uma forma muito coerente. Não somente pelo vídeo educativo de platéias, mas também por dizer de onde vêm e quais as principais características do estilo em cena durante as apresentações da mostra competitiva. Uma inovação digna do Jubileu de Prata.
Sem dúvida, a noite de sábado - na qual concorreram grupos nas baterias de balé clássico de repertório (pas-de-deux júnior, conjunto sênior e variação feminina avançada) e dança contemporânea (conjunto avançada) - coroou o coreógrafo Eduardo Menezes, da Art & Dança, de Canoas, (RS) como uma das grandes revelações do festival. Mais uma vez ele mostrou um trabalho focado na pesquisa de movimentos e linguagem coreográfica com, “Mixo Corpóreo”, na categoria de dança contemporânea.
Menezes levou ao palco do Centreventos Cau Hansen, 13 excelentes intérpretes, sendo que todos usavam dreads brancos no cabelo e vestiam um figurino de roupas casuais assinado por Ana Paula Scheffre. Vale dizer que “Figurado”, de Edson Fernandes, pelo Avançado do Studio Luciana Junqueira, de Ribeirão Preto também mostrou um bom trabalho. Uma de suas bailarinas, Roseli Zanardo, chama atenção, onde quer que esteja colocada.
E a noite que também foi dos balés de repertório, essenciais para qualquer bailarino e também para que todos possam ter referências dos trabalhos que alguns dos maiores coreógrafos do mundo foram capazes de construir, mostrou boas bailarinas, cujos coreógrafos ainda precisam prestar um pouco mais de atenção nas remontagens. Balés de repertório têm por obrigação serem fiéis as suas montagens originais, caso contrário, se tornam outras coreografias.
Quem teve uma nítida evolução como bailarina do ano passado para cá, quando ainda no Festival Meia-Ponta dançou “Pássaro Azul”, de Marius Petipa foi Isabela Bombassei Pires. Dona de pernas longas, braços bem trabalhos e movimentos muito bem finalizados, a garota que deu vida à “A Escrava e o Mercador”, pelo Pavilhãozinho, de São Paulo, ainda vai dar o que falar.
Nos conjuntos, o equilíbrio da boa técnica e adaptação ficou por conta do Grupo Juvenil da Fundação das Artes de São Caetano do Sul (SP), com “Sonho de Dom Quixote”, de Petipa e do Ballet Adriana Assaf, com “O Corsário”, também de Petipa. Enfim, parece que na terceira noite competitiva, finalmente as sapatilhas saíram do aquecimento.


As formas de Quick

Marcela Benvegnu

Rodrigo Quik, que dá nome à Quik Companhia de Dança de Minas Gerais, que apresentou a coreografia “Formas e Linhas”, na Mostra de Dança Contemporânea, na última sexta-feira, mostrou que os traços de Rodrigo Pederneiras - coreógrafo residente do Grupo Corpo, de Belo Horizonte, – ainda fazem parte do seu repertório de possibilidades coreográficas.
Não poderia ser diferente, tento em vista que Quick integrou o Grupo Corpo por mais de dez anos, assim como sua assistente coreográfica, a bailarina Letícia Carneiro. Os traços de Pederneiras aparecem de forma clara no trabalho, marcado pela música repetitiva de O Grivo, por conta da movimentação geométrica e pela quebra acentuada dos quadris.
O cenário instigante é construído e modificado durante a coreografia. Uma espécie de cubo, com linóleo branco e elásticos com roldanas que se prendem cada hora em um canto ou diagonal, ajuda os quatro bailarinos da companhia, também formada por Kika Brant e Sandra Santos, a moldarem o trabalho.
A movimentação contemporânea se multiplica ao passo que os elásticos ganham o palco no solo de Quik e mesmo nos duos e trios da montagem. “Formas e Linhas” desenha no espaço gestos simétricos e assimétricos que se repetem a todo o tempo. A dança contemporânea se transforma em matemática é preciso refletir para entender a pesquisa histórica sobre o pós-cubismo, que inclui estudos sobre a arquitetura da Bauhaus, as pinturas de Malevich, Mondrian, Kandinsky, desenhos de Vladimir Tatlin, além de revisões da dança de Merce Cunningham e Rudolf Laban.
De fato, é preciso refletir bastante.

Linguagens em movimento


Marcela Benvegnu

Aceita essa dança? Esta é uma das frases do vídeo de educação de platéias que é exibido durante as noites competitivas do Festival de Dança de Joinville. Não é preciso dizer que a película é muito bem produzida e toca em pontos muito importantes, porém, o público parece ainda não entender o seu lugar como um bom espectador. Na segunda noite competitiva, o silêncio das primeiras coreografias de dança contemporânea solo masculino categoria avançada parecia atrapalhar parte da platéia presente no Centreventos Cau Hansen.
Isso porque em meio às coreografias ouviam-se gritos, risadas e mais gritos. A situação causava certo desconforto para quem estava no palco apresentando o resultado de meses de ensaio. É triste pensar (perceber e constatar) que uma platéia formada em sua maioria por bailarinos, não seja capaz de respeitar a própria classe. Será essa a melhor forma de aceitar a dança?
Melhor falar dela. O primeiro trabalho da noite foi "Visceral", com o Ballet Ana Araújo de São José dos Campos (SP), executado pelo talentoso Devidson Santos de Farias. A coreografia de Ana Araújo aliou projeções em vídeo aos movimentos fortes, bem executados e colocados em cena, às composições de Louis Armstrong, Vries e Hooper.
Quem também prendeu o olhar do público foi o coreógrafo-intérprete Eduardo Menezes, com sua “Dança Tocada”, pela Art & Dança de Canoas (RS) e Lincon Vieira Soares, com “Desalinhar”, pela Cia. Lincon Soares, de Florianópolis (SC), que misturou dança de rua com dança contemporânea. De fato a noite de sexta-feira foi pontuada por boas idéias e trabalhos de pesquisa, que revelam a multidisciplinaridade da linguagem da dança contemporânea hoje. Esse é o caminho.
Também na competição do dia estavam os esperados grupos de dança de rua conjunto (júnior e sênior). O que chamou atenção foi a forma como as garotas dominaram o palco. O Grupo de Dança Gahp, de Blumenau (SC), que apresentou um trabalho pertinente à categoria júnior e a Sky Cia. de Dança, de São José dos Pinhais (PR), que ainda precisa prestar mais atenção com as formas de concepção, tinham seu elenco todo formado por meninas.
Como era de se esperar, a grande atração da noite foi o Grupo de Dança Millennium, de Itajaí (SC), com seu impecável, “Movin’ Soul”, de Thurbo Braga. O grupo muito bem entrosado mostrou uma dança forte e sincronizada, que soube se colocar em cena. Os desenhos coreográficos foram estudados cuidadosamente e trouxeram ritmo a coreografia. Braga tem se revelado um excelente coreógrafo, daqueles que deixam um gosto de quero mais. Até o agradecimento foi digno de aplausos, porque o agradecimento de alguns trabalhos...
É bom dizer que o agradecimento é parte final da coreografia e que ela só termina quando os bailarinos saem do palco. Como diz o famoso ditado, “para bom entendedor, meia palavra basta”.


Poética do espaço


Marcela Benvegnu

Baseado em fatos e sonhos reais. Assim é o inteligente “Isadora.Orb, A Metáfora Final”, apresentado por Andrea Jabor e Rick Seabra, do Rio de Janeiro, no Teatro Juarez Machado na primeira noite da Mostra de Dança Contemporânea. O trabalho, fruto da tese de mestrado em desenho industrial de Seabra, na qual ele propõe a criação de um módulo espacial (The Isadora Module) para abrigar artistas a bordo da Estação Espacial Internacional, vai muito além de um trabalho de dança, teatro ou narrativa. Enquanto o público ainda se acomoda no teatro, a canção, “Cheek to Cheek”, de Fred Astaire, deixa implícito que tudo o que se sonha pode ser possível no espaço. De um lado do palco, Andrea comanda o som, e de outro, Seabra cria o videografismo por meio de câmeras dispostas em lugares estratégicos na cena. Um diálogo perfeito entre vários corpos, imagens e movimentos se forma ao vivo no espaço.
O Módulo Isadora: Um estudo Multifuncional para Artes na Estação Espacial Internacional é mesmo uma idéia brilhante. Ricky e Andréa não somente criam novos espaços, mas os preenchem com dança e vídeo. Eles “vão para o alto e avante” como se propõem e deixam clara a liberdade de Isadora (por conta da bailarina Isadora Duncan) em órbita.
Com uma câmera e um aparato de editores de imagens, Seabra constrói com Andrea um espetáculo que passeia por diferentes apoios na dança - como cotovelos e cabeça - e também por imagens de Picasso, Kandinsky e outros artistas, que se moldam ao corpo e ao figurino da intérprete durante a execução.
A grande poética da pesquisa não aparece em somente um trecho da montagem, ela é e está no todo. Pode ser encontrada nos pequenos textos que aparecem nas projeções, na delicadeza em que uma espaçonave ou mesmo um foguete comandado por Seabra sai pela tela e ganha o mundo, na primeira canção escrita no espaço pelo cosmonauta Yuri Romanenko, na movimentação de Andrea, na réplica da única obra de arte que existe na Lua e em diversos outros momentos. Se depender de Isadora.Orb, a arte como uma ferramenta para a ocupação do homem no universo já é totalmente possível.

No aquecimento


Marcela Benvegnu

A primeira noite da mostra competitiva da 25ª edição do Festival de Dança de Joinville, que compreendia trabalhos de balé clássico de repertório (conjunto júnior, grand pas de deux sênior e variação masculina júnior e sênior) e jazzdance conjunto avançada, não foi das mais impactantes. Talvez porque os bailarinos ainda estejam aquecendo as sapatilhas para a maratona da dança que ainda tem muito que emocionar.
O Corpo de Baile Juvenil da Escola de Arte Veiga Valle de Goiânia (GO) foi o primeiro e único a concorrer na categoria de balé clássico de repertório conjunto, com o 1º ato de “Giselle”, de Jules Perrot e Jean Coralli. A coreografia executada pelas bailarinas não deixou a desejar. Elas eram graciosas e tinham pés bem trabalhados, mas poderiam fazer mais. A primeira noite de competição pedia mais.
“Harlequinade”, de Marius Petipa, concorrente do balé clássico de repertório variação masculina sênior foi o grande ápice da noite. O solista André Guilherme Oliveira dos Santos, do Pavilhão D, de São Paulo, fez uma execução perfeita. Além de ser dono de uma técnica apurada, o intérprete é muito expressivo, o que fez com que a platéia se encantasse por ele.
A técnica de Leusson Bento Pereira Muniz, da Cep Ballet Basileu França, também de Goiânia merece ser elogiada. Concorrendo com “Carnaval em Veneza”, de Michel Fokine na categoria de clássico de repertório variação masculina júnior, o bailarino chama atenção por suas piruetas precisas e pela sua musicalidade.
Pode-se dizer que os grand pas-de-deux foram bem executados. Porém, os olhares se voltaram para dois grandes trabalhos, a impecável “Raymonda”, de Luiza Marques de Oliveira e Everton da Conceição, pelo Pavilhão D e para “Chamas de Paris”, de Vainonen, do Conservatório Brasileiro de Dança do Rio de Janeiro (RJ) dançado por Helenilson da Silva Ferreira e Thayara Teixeira Lima do Nascimento. A dupla estava entrosada, é dona de uma excelente técnica de giros e tem bela finalização de movimentos.
Em uma noite de apresentações de balés de repertório se instaura uma questão, já recorrente em festivais de dança: Quem são seus remontadores? Sem a perspicácia desses profissionais, o repertório pode se transformar em uma outra coisa muito distante da forma de preservação da obra. O que se vê em cena é mérito desses coreógrafos, que infelizmente em Joinville não se pode nomear.
E aqueles que esperavam que o jazzdance avançado aparecesse com força total no palco Centreventos, se decepcionaram. Ele entrou e saiu tímido, não com relação aos cenários das coreografias - que demoravam muito para serem montados - , mas sim em sua pesquisa coreográfica. Os movimentos muitas vezes foram apagados por figurinos ou arranjos de cabeça que chegavam a deformar o movimento. Convenhamos que não é preciso abusar de tantas plumas ou cenários, vale mais a pena se preocupar com a concepção.
Quem mais chamou atenção na primeira noite foi, “Tambores Que Vem do Norte... Inebriam Minha Alma”, de Érica Novachi. Talentosa coreógrafa do Galpão 1, de Indaiatuba (SP), Érica conseguiu unir uma movimentação pertinente ao gênero, bailarinos fortes e bem ensaiados à linda composição (“Gates of Istambul”) de Lorena Macknnet com a percussão de Dalga Larrondo. No mais, se viu de tudo, showbiss dos circuitos off-off (mais off) Broadway, panos que tentavam se transformar em movimento e muita, muita dança contemporânea.

Barysnikov como essência


Marcela Benvegnu
Nem sempre o que está em jogo na cena coreográfica é o movimento ou a assinatura. Em muitos casos, o que se espera ver no palco é uma grande figura, um grande bailarino, que somente com sua forma de andar consegue fazer com que o corpo do espectador fique imobilizado em uma cadeira ou mesmo em uma arquibancada fria. Foi este sentimento, uma mistura de êxtase com admiração, que marcou a abertura do 25º Festival de Dança de Joinville, na última quarta-feira, quando Mikhail Barysnikov – que nos ingressos está grafado de forma errada – pisou no palco do Centreventos Cau Hansen, com a sua Hell´s Kitchen Dance.
O primeiro trabalho da noite, “Years Later” (“Anos Depois”/2006), um solo de aproximadamente 17 minutos de Baryshnikov, assinado por Benjamin Millipied talentoso bailarino do New York City Ballet, é o que há de mais belo e poético no programa formado por outras duas montagens. Ao som de “Saxophones”, de Philip Glass e “Gnossieness n.3”, de Erik Satie, o mito da dança clássica comprova como um corpo com seus 59 anos ainda é capaz de emocionar e, sobretudo, calar.
Apesar de Baryshnikov dizer que o trabalho não é uma autobiografia é impossível não reconhecer ali sua essência. Quando ele dança sozinho, sem a interferência da videografia de Olivier Simola (que está trabalhando com o multiartista francês Philippe Decouflé) que aparece nos quadros posteriores, é possível notar uma movimentação marcada por formas geométricas que aos poucos se transforma na fluidez pedida pela música.
Durante a projeção, deparar-se com um Baryshnikov com pouco mais de 25 anos, que exibe movimentos característicos da dança clássica - como baterias, uma quinta posição de pés perfeita, grandes saltos e até piruetas, que são aceleradas para darem noção de movimentos surrais - e não notar que se está na frente de um dos maiores bailarinos do século, seria negar a própria história da dança.
Em cena ele é capaz de estabelecer um diálogo próprio entre corpo e memória. Sem contar que se transforma em sombra, uma tríade de diferentes possibilidades. Baryshnikov dialoga com o vídeo na cena em que cruza seus movimentos com a dança de Aszure Barton, bailarina e coreógrafa da companhia e quando se vê jovem dançando uma coreografia moderna ao estilo da coreógrafa americana Judith Jameson, do Alvin Ailey American Dance Theatre. No palco consegue rir e brincar com suas próprias imagens.
Mesmo tendo Barysnikov como atração, a noite também foi da Hell´s Kitchen Dance. Em “Rom”, solo de Willian Briscoe, coreografado por Aszure o que chama atenção é que o intérprete, que tinha como figurino uma calça social preta, quase não se locomove no espaço. Ao ritmo de uma canção tradicional húngara, sua movimentação cheia de repetições é marcada por uma linguagem que se aproxima das danças africanas.
E por falar em linguagens, muitas escolas americanas, como Martha Graham, Alvin Ailey e Merce Cunningham se encontram em, “Come In” (“Entre”/2006), também de Aszure, na qual toda a companhia formada por 12 jovens talentos vai para o palco. Descalços, os bailarinos vestidos de preto acompanhados de Barysnikov, que não abriu mão de usar sapatilhas em cena, mostram um trabalho poético, mas que ainda procura sua identidade.
A cena mais marcante é um duo de Barysnikov com Ian Robinson, um promissor talento da companhia que já é formado pela New York City University e integrou companhias de peso do cenário da dança mundial, como o Les Ballets Jazz de Montreal e a Complexions Contemporary Ballet. No palco se vê a força e o tempo, a vontade e a conquista. Nada mais do um espelho da própria dança e da trajetória de Baryshnikov. Seja nas cadeiras pretas que estão em cena ou nos duos do conjunto coreógrafico, a Hell´s Kitchen Dance não se sustenta sozinha, ainda fica à sombra de sua grande estrela para se manter em movimento.

Senhor da Dança

Marcela Benvegnu

Seria impossível o bailarino russo Mikhail Baryshnikov andar por aí sem ser notado, ainda mais em um evento de dança. Assim que entrou nas coxias do Centreventos Cau Hansen, local que sedia o 25º Festival de Dança de Joinville, em Santa Catarina, para uma coletiva de imprensa, tudo parou. O espaço foi tomado pelo silêncio, carregado de admiração e respeito por um dos maiores mitos – se não o maior – da dança clássica no mundo.

Os flashes se misturavam aos olhares curiosos e à voz trêmula de alguns jornalistas a sua frente, muitos deles despreparados para a ocasião. Além de terem deixado os celulares ligados, fizeram algumas perguntas que não eram apropriadas. Uma delas foi em relação ao exílio de um jogador cubano de handebol dos jogos Pan-americanos no Brasil, comparando com o exílio de Baryshnikov no Canadá, na noite de 29 de junho de 1974, quando dançava no Kirov Ballet. Ele foi taxativo: “Adoraria que um dia essas perguntas não me fossem mais feitas”.

Em 1998 quando dançou no Brasil “Heartbeat: MB”, ao som das batidas do próprio coração, com a White Oak Dance Project, Baryshnikov proporcionou momentos emocionantes ao público. Hoje, nove anos depois, volta ao país com a sua mais recente companhia, a Hell’s Kitchen Dance, com a qual abriu o festival de Joinville na quarta-feira (leia a crítica na página 7), repetindo a dose.Baryshnikov e sua cia. se apresentam no Rio de Janeiro hoje e em São Paulo nos dias 24 e 25. Confira os melhores trechos da entrevista.

Jornal de Piracicaba – A Hell’s Kitchen Dance é uma companhia formada por jovens estudantes da Julliard School e da Tisch School University de Nova York. Como é trabalhar com esses jovens?

Mikhail Baryshnikov – Eles são bailarinos muito talentosos. Não são uma companhia permanente, tudo pode mudar, a qualquer hora. Essa é a nossa segunda turnê, mas também deve ser a última, porque meu maior objetivo com a companhia é projetá-los na cena americana. Quero que eles dancem e vençam a pressão comercial da arte.

JP – O nome da companhia, Hell’s Kitchen (cozinha do inferno) Dance nasceu por causa da localização do Baryshnikov Arts Center em Nova York?

Baryshnikov – Sim. Logo quando Nova York foi fundada, a região era povoada por imigrantes irlandeses que vieram da Europa e era muito turbulenta, daí Hell’s Kitchen. Hoje o local está mudando e muitos artistas estão indo para lá. Costumo dizer que o bairro é a última fronteira de Nova York. O nome também tem relação direta com a dança, porque na arte você encontra o prazer e também o inferno.

JP – A coreografia mais esperada nesta turnê é “Years Later” (2006), um solo seu assinado por Benjamin Millepied com música de Philip Glass e Erick Satie. Como é este trabalho?

Baryshnikov – Apesar do nome, a coreografia não é autobiográfica, ela fala da trajetória de qualquer bailarino. O Olivier Simola, um cineasta muito talentoso que trabalha com o Philippe Decouflé (coreógrafo francês que trabalha a relação da dança, do circo, da música e da dança) criou o vídeo deste trabalho que é muito bonito. Millepied é um grande coreógrafo. Ele é o principal bailarino do New York City Ballet e já assinou trabalhos para a Ópera de Paris, American Ballet Theatre, Balé Nacional de Cuba e outros.

JP – O que você espera que as pessoas entendam deste trabalho? Você consegue ver algo novo na sua dança hoje?

Baryshnikov – Quanto mais eu danço menos eu sei sobre o que é novo. E as pessoas podem pensar e entender o que quiserem, somos bailarinos e não críticos.

JP – Quais seus planos para o futuro?

Baryshnikov – Não costumo fazer muitos planos porque não planejo a minha vida para mais de um ano. Sei que vou dançar em Estocolmo um trabalho do Mats Ek (1945) (diretor do Ballet Cullberg, que dançou na Ópera do Reno em Düsseldorf-Duisburg e no Nederlands Danstheate).

JP – Mas sabe-se que você, um apaixonado por fotografias, está preparando um livro intitulado ‘Merce, My Way’ (‘Merce, do Meu Jeito’) com fotos de Merce Cunningham. Como é esse ‘jeito’, esse modo de olhar a dança sobre o trabalho deste gênio da dança contemporânea?

Baryshnikov – Fotografo há mais de 25 anos. Comecei fotografando bailarinos diversos, como os domenicanos que têm um tipo físico parecido com os brasileiros e cubanos. De uns tempos para cá decidi fazer esse trabalho com Cunningham, que é espetacular. Eu não me interesso pela forma, pela foto estática, o que eu quero captar é de onde vem e para onde vai o movimento. É só ele que me interessa. Cunningham esta aí, vivo. Está com quase 90 anos, não é?JP – Sim, 87 anos.Baryshnikov – Então, você sabe, ele tem uma grande representatividade. Devo fazer uma exposição dessas fotos em fevereiro, em Nova York.

SERVIÇO – Hell’s Kitchen Dance, com Mikhail Baryshnikov. Hoje, às 20h30, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro (pça. Floriano, s/nº). Ingressos custam de R$ 40 a R$ 200. Mais informações (21) 2299-1643. Dias 24/7 e 25/7, às 20h30, no Theatro Municipal de São Paulo (praça Ramos de Azevedo, s/nº). Ingressos custam entre R$ 50 e R$ 220. Informações (11) 3222-8698. Datas, horários e valores foram enviados pela Antares Produções.

Revista de Dança

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