quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Béjart para sempre


Marcela Benvegnu


Os olhos azuis de Maurice Béjart, 80, um dos maiores coreógrafos do mundo se fecharam para sempre ontem em Lausanne, na Suíça, onde o francês morava e dirigia o Béjart Ballet Lausanne desde 1987. O artista, que tinha problemas de saúde há anos e foi hospitalizado na semana passada para ser submetido a um tratamento cardíaco e renal estrito que deveria durar várias semanas, não resistiu.

Acostumado a dizer que não temia a morte porque ela era uma certeza, o coreógrafo de “Bolero” — uma de suas mais famosas coreografias — , de Maurice Ravel (1960) declarou uma vez à agência de notícias suíça que o ser humano morre sempre a tempo e que o tempo é contado de maneira diferente para cada um. Segundo a assessora de imprensa de Béjart, Roxane Aybek, em entrevista ao Jornal de Piracicaba ontem, o funeral do coreógrafo acontecerá na segunda-feira e às 16h, na sede da companhia haverá uma cerimônia pública.

“Estamos muito tristes em anunciar a morte de Béjart. Perdemos um coreógrafo que revolucionou a dança no século 20 e que era o diretor de uma das mais importantes companhias de dança do mundo”, disse Roxane. “Ele dirigiu a mesma companhia por mais de 50 anos sem interrupções sob diferentes nomes. Muitos bailarinos estão perdendo um pai, um mentor, um inspirador. E nós, estamos perdendo um amigo, um criador, visionário e humanista”, disse Peter Berger, presidente da Fundação Béjart Ballet Lausanne, em e-mail enviado ao JP.

A morte do coreógrafo não irá interromper as turnês e a programação de sua companhia de dança. O grupo prepara a estréia de “A Volta ao Mundo em 80 Minutos” (“Tour du Monde en 80 Minutes”), para o dia 20 de dezembro em Lausanne. Depois seguen em turnê mundial. As apresentações serão em homenagem a memória do ícone que dizia que a dança era a combinação de tempo com espaço e a música era o tempo e o movimento que ocupam este espaço. A continuação da companhia está garantida por contrato pelos próximos três anos.

Béjart criou aproximadamente 250 balés e mostrou um novo modo de se fazer dança com “Symphonie Pour Un Homme Seul” sobre a música de vanguarda de Pierre Henry e Pierre Schaeffer.

Os 20 anos da Quasar


Marcela Benvegnu

Por Instantes de Felicidade”, coreografia que comemora os 20 anos da Quasar Cia. de Dança, será apresentada nos dias 1 e 2 de dezembro, no Teatro Alfa, em São Paulo. O novo trabalho da companhia goiana busca inspiração nos 20 espetáculos anteriormente montados para a criação de um “exercício de liberdade” — como classifica o coreógrafo Henrique Rodovalho — , porém, não deriva diretamente deles, não revisita e não faz releituras, o que pode-se dizer que é ótimo.Segundo o coreógrafo, uma reflexão feita sobre o histórico da Quasar orientou o processo criativo em busca de elementos presentes na trajetória de duas décadas. Entre eles, destaque para a atmosfera irreverente e bem humorada das cenas — uma característica de Rodovalho não só nas montagens da Quasar, mas na maioria das coreografias que assina — além da energia visceral e o desejo de “dançar diferente” que motivaram a criação do grupo com características tão próprias. Para o coreógrafo, o resultado desse balanço dos 20 anos resultou numa proposta artística livre, mas consciente, com o intuito de explorar com leveza a rupturas de amarrar que foram surgindo com o tempo. “Por isso, não atribui ao espetáculo nenhuma linguagem, nenhum tema, nenhuma orientação específica”, ressalta Rodovalho. A liberdade como proposta está evidente em todos os aspectos da obra: recursos cênicos e sonoros, figurino, movimentação, trilha sonora. “Dizem que a felicidade plena não existe, o que buscamos aqui são pequenas porções de felicidade, momentos, instantes”, explica. O cenário de Letycia Rossi recria ambientes de uma casa com paredes brancas, verdes, azuis e algumas peças de mobiliário. Os tons neutros e a limpeza visual também são referência para o figurino concebido pela Caligrafia. A trilha sonora mistura estilos em músicas cantadas por Carla Bruni, Cibelle, Céu, Madeleine Peyroux, Joanna Newsom, Keren Ann e Moreira da Silva. O espetáculo também se utiliza de canções que aparecem em filmes como “Eu, Você e Todos Nós” e “Kill Bill”. No elenco da montagem estão Aretha Maciel, Camilo Chapela, Daniel Calvet, Érica Bearlz, João Bragança, Karime Nivoloni, Rodrigo Cruz, Simone Camargo, Samuel Kavalerski, Valeska Gonçalves.
PARA VER — “Por Instantes de Felicidade”, com a Quasar Cia. de Dança. Sábado dia 1º de dezembro, às 21h, e domingo, dia 2, às 19h, no Teatro Alfa, em São Paulo. Os ingressos têm preços variados. Mais informações (11) 5693-4000.
Crédito: Rubens Cerqueira

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Que venha a Bienal!


Marcela Benvegnu


Começou anteontem em Santos, a 5ª Bienal Sesc de Dança. O evento traz reflexões sobre as diferentes qualidades de memória que o corpo inscreve, como a memória da espécie, genética, de linguagem, artística e social. Sob o tema Memória que se Inscreve, a Bienal provoca o estranhamento do olhar que se depara com o movimento da dança em locais inusitados da cidade, e assim reconfigura o ambiente criando novos repertórios e possibilidades de ação.
Este ano o evento compreende 46 apresentações — entre espetáculos, performances e instalações coreográficas — de 43 grupos de dança contemporânea do Brasil e de sete países até domingo. Além das apresentações, o projeto contempla uma aprofundada discussão sobre a função da dança na sociedade por meio de debates, palestras, oficinas, lançamentos de livros, publicações e mostra de vídeos.
Ao todo são 14 horas diárias de atividades relacionadas com a dança com a presença de mais de 300 artistas, produtores, técnicos e especialistas no assunto.Às 13h e 17h, de hoje, no Sesc Santos — onde acontecem todas as apresentações — é possível assistir “Calle Obrapia # 4”, com a companhia francesa ExNihilo dirigida por Anne Le Batard e Jean-Antoine Bigot. Ainda hoje entre os convidados estão“Máquina de Desgastar Gente”, com o grupo de Luiz de Abreu (BA). Amanhã às 17h30 se apresenta, “Loin de Là”, com Ex-Nihilo (França). Às 19h30, é a vez de “Pra Weidt, o Velho”, com o Atelier de Bailarinos Santistas, com direção de Joana Lopes, seguida de “Manual de Instruções” às 21h30, com a Dani Lima Cia. de Dança (RJ).
No domingo em diversos horários é possível ver “Sozinha” e “L’Ecume du Temps”, com Dominique Dupuy e Françoise Dupuy (França). Entre os selecionados para a Bienal estão a Quik Companhia de Dança (MG); K. Cia. de Dança Contemporânea (CE); Focus Cia. de Dança (RJ); Cia. Suspensa (MG); Cia. Domínio Público (SP); Cia. Linhas Aéreas (SP); Neto Machado e Stéphany Mattano (PR); Alice Ripoli (RJ); Ricardo Marinelli (PR); Cia. Artesãos do Corpo (SP); Daphne Madeira (RJ); Thiago Costa (MG); Paula Águas (RJ); Ana Andréa arteContemporânea (RJ); Cia. Etra de Dança Contemporânea (CE); Cia. Daniela Rosa (SP); Núcleo de Criação do Dirceu (PI); Anti Status Cia. de Dança Ltda (DF) e outras.
Nas mesas redondas destaque para Memória que se Inscreve, Reinscreve?, amanhã, às 13h30, com Roberto Pereira, Christine Greiner, e Sigrid Nora. No domingo, no mesmo horário bate-papo com Dominique Dupuy, Joana Lopes e Rafael Madureira. Hoje, às 20h, será lançado “Corpo, Política e Discurso”, de Dani Lima e amanhã, às 20h, “Dança e Cultura Digital”, com Ivani Santana. Mais informações: sescsp.org.br.
(matéria publicada em 16 de novembro)

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Tão perto de si


Marcela Benvegnu

O nome de Héctor Bohamia talvez não seja tão conhecido em terras tupiniquins, mas quando sabe-se que ele ingressou no mundo do teatro e da dança no final dos anos 80, quando Pina Bausch o convidou para integrar sua Tanztheater de Wuppertal, a apresentação não torna-se tão necessária. Bohamia em turnê pelo país, apresenta hoje, às 20h, no Teatro Municipal Manoel Lyra, em Santa Barbara D’ Oeste sua mais recente concepção coreográfica intitulada “Estado de Liberdade”.
Bohamia, que é argentino, mas está radicado na Alemanha há anos, revela em “Estado de Liberdade”, sua atual condição psicológica, livre de qualquer amarra para dançar e criar. A coreografia é composta por 14 peças executadas num cenário forrado por centenas de velas e que são compreendidas em um percurso musical diferenciado. O bailarino transita desde a “Missa Solemnis em Ré Maior op. 123”, de Beethoven; passa pelas canções de cabaré, como “Berlin Songs Tanz”, proibida na Alemanha nazista; às vozes justapostas de Carlos Gardel e Caetano Veloso; à melodia de Philippe Meilleür e o misticismo do “Réquiem”, do alemão de Johannes Brahms.Segundo o jornal alemão “Die Zeit”, a arte de Bohamia “tem o efeito de um punhal congelado apoiado sobre a pele quente”.
O espetáculo já foi apresentado em Tóquio, Cairo, Londres, Paris, Quebec, Buenos Aires, Barcelona, Bruxelas, Toulouse, México, Jerusalém, Alemanha, Buenos Aires e outros países. A apresentação de hoje é única em Santa Bárbara D’Oeste.

PELO MUNDO — Além de ter sido bailarino da companhia de Pina Bausch, Bohamia integrou o Tango Argentino, em Nova York, no período em que cumpria sua bolsa de estudos na Juilliard School Dance of Music. Viajou pelo mundo com seus trabalhos solos e trabalhou para diversas óperas como as de Sidney, Roma, Dresden, Hannover, Chicago, Ottawa, São Francisco, Filadélfia, entre outras. Em 1997 estreou “Aufstieg ünd Fall der Stadt Mahogonny”, de Kut Weill e Bertolt Brecht, no consagrado Berlin Ensemble.

Crédito: Michele Saraiva

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Crítica / Quixotes da dança


Marcela Benvegnu

Quixotes do Amanhã”, coreografia de Fernando Machado para a Cia. de Dança de Diadema, que foi apresentada no Sesi Piracicaba no domingo, 28, começa antes mesmo de a cortina se abrir. O bailarino Ton Carbones está colocado no canto da platéia. Ele é uma espécie de menino de rua, que vê no dia seguinte a esperança de um mundo melhor. Cidadão do tempo. Quixote do amanhã. No proscênio, copos de plástico amassados chamam a atenção. É o lixo. Proposta de concepção da companhia para esta montagem que por sinal é bem trabalhada e sai da reciclagem convencional da dança contemporânea.

Quando a cortina se abre, a dança se revela. É possível assistir a uma fluida movimentação que se abdica da junção de passos para dar ênfase a uma forma de linguagem que mistura a dança contemporânea ao teatro coreográfico. O palco aberto — sem o uso das coxias — serve de cenário para uma cidade onde o homem é tratado como bicho, que caça para sobreviver. Na sutil poesia de Quixote está o subtexto de que é preciso respirar ar puro, quem sabe ar que dança, e que consegue dançar em meio ao lixo que ocupa todo o espaço.

Os bailarinos são bem preparados. Mostram sincronicidade e força na execução. Porém, é Fernanda Bueno quem chama atenção. Não é pelo nu, que executa em um momento do espetáculo — por sinal um nu de costas muito bem colocado —, mas sim pela força e vigor físico com que interpreta a coreografia musicada ao vivo por Loop B, com iluminação do talentoso Ari Buccione.

Com direção de Ana Botosso, o trabalho provoca uma reflexão que vai além do mau direcionamento do lixo provocado pela inconsequência do homem. Estaríamos nós todos no lixo? Qual o lugar da dança na contemporaneidade? Não basta acreditar, talvez seja preciso dançar.

DIÁLOGOS IM(POSSÍVEIS) — Após o espetáculo foi proposta uma conversa com os bailarinos e com Machado. A trupe falou um pouco sobre o processo de composição da coreografia, a criação da companhia e o belo trabalho que desenvolvem como arte-difusores. Infelizmente as poucas pessoas da área da dança piracicabana que assistiram ao espetáculo não ficaram para o bate-papo. Se pensam que perderam somente um monte de palavras, se enganam. Perderam dança. Talvez o Fantástico ou mesmo o Domingo Legal fossem mais importantes. Ainda bem que acabou o espaço. Não é preciso dizer mais nada.

Foto: Arnaldo Torres

Revista de Dança

Queridos amigos e seguidores do Tudo É Dança, Escrevo hoje para dividir com vocês todos, que dançam comigo aqui durante todos esses anos, ...