quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Baryshnikov e Ana Laguna: falta ar

Ana Laguna e Baryshnikov em Place, de Mats Ek | Foto: Divulgação
Marcela Benvegnu

Uma noite memorável em que o corpo do espectador é suspenso pela arte da dança. Uma noite em que a dança encontra a maturidade e ela se revela no palco. Uma noite para ficar guardada na memória do corpo.

Ontem quando Baryshnikov e Ana Laguna subiram ao palco do Teatro Alfa, em São Paulo, as mais de 900 pessoas que lotaram o local pareceram desaparecer. O espaço foi tomado por aqueles corpos que sabem o sentido do movimento. Não foi simplesmente técnica, muito menos execução. Foi dança.

O programa Três Solos e um Dueto, muito bem escolhido para a turnê brasileira, começa com Valse Fantasie, solo de Baryshnikov, coreografado por Alexei Ratmansky (2009). A coreografia é pontuada pela música de Mikhail Glinka e marcada pela definição de movimentos do intérprete. Inteiro de branco, com um casaco de forro azul, Baryshnikov não precisa mais dançar para dizer. Sua imagem fala sozinha.

Na sequência, o público pode apreciar um extrato da divina Solo For Two (1996), de Mats Ek, em que o astro divide o palco com Ana Laguna (que foi casada com Ek). Todos já sabem a força de Baryshnikov, mas ver Ana dançar é um presente aos olhos. Ela parece ser maior do que o palco. A dramaturgia, o modo como se move, a potencialidade do gesto, a força. Vale ser clichê: linda demais. Durante a coreografia quem estava na plateia precisou lembrar de respirar.

A noite ainda contou com Years Later (2006 e 2009) de Benjamin Millepied e Place (2007), de Ek. Years Later, solo de Baryshnikov, já tinha sido apresentado no Brasil na noite de abertura da 25a edição do Festival de Dança de Joinville, em 2007.  Agora, a versão revisitada ganhou uma pitada de humor, como por exemplo, uma cena em que o astro gira piruetas e elas são aceleradas a ponto de ser impossível uma real execução. Na coreografia Baryshnikov se olha no espelho e seu reflexo para plateia não poderia ser outro. Mito. O espetáculo termina com Place, coreografia que traz Ana novamente para o palco e que coloca em cena o diálogo da luz, dos objetos cênicos e dos corpos em movimento.

Mais do que coreografia,  Três Solos e um Dueto propõe história da dança viva por unir dois grandes intérpretes no mesmo palco. Que fique a lembrança, a falta de ar.

4 comentários:

caminada disse...

Marcela, que belo e sensível comentário você teceu sobre Barishnikov e Ana Laguna. Pode ter faltado ar, mas não lhe faltou a percepção da verdade da dança colocada em cena. Parabéns.
Caminada

MARCELA BENVEGNU disse...

Caminada querida,
obrigada.
"ouvir" isso de você é maravilhoso. bjs

escrevendo com os pés disse...

Marcela que lindo texto.

As coisas da vida só ficam no coração qdo vividas,experimentadas, vistas.

Esqueceria também de respirara só de olhar "micha" no palco.

Não foi desta vez mais uma vez.

Parabéns.

Giselle Jardim disse...

Parabéns pela sensibilidade presente no seu breve, mas espetacular comentário. Sou uma jovem bailarina e tive a oportunidade de viver as situações descritas por você hoje, assistindo a este espetáculo aqui em Manaus. Me faltam palavras para descrevê-lo. Tremi desde a ponta dos meus pés calejados até os meus fios de cabelo ao me ver sentada diante de um palco onde o Misha, a personificação de tudo o que mais admiro na dança, estaria dando mais uma de suas brilhantes performances. Me senti como nunca ao aplaudir o grande ícone da dança de pé. Obrigada, de verdade, por ter posto tanto sentimento num só texto!