sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Crítica / Mané musicado

Marcela Benvegnu

Apesar do atraso de 25 minutos e de um público que não respeitava seus próprios lugares, pois insistia em mover as cadeiras plásticas para frente — o que talvez fosse permitido, pois a organização não se opôs, e quem chegou tarde acabou sentando na frente — “Mané Gostoso”, coreografia de Décio Otero para o Ballet Stagium, com participação ao vivo do Quinteto Violado, que foi apresentada na última quarta-feira no Sesc Piracicaba, é um reflexo do Brasil, onde é possível se deparar com manifestações culturais, encontros e desencontros.

A coreografia nem precisava ser assinada. A gramática impressa nos corpos dos bailarinos denuncia o trabalho do Stagium, que nasceu em 1971, e desde então, trabalha uma movimentação contemporânea particular. “Mané Gostoso” que faz alusão à um brinquedo de madeira nordestino, que tem braços e pernas movimentados por cordões, é um trabalho visual, no qual cenários e figurinos se casam perfeitamente. Em cena, 14 intérpretes revelam um bom preparo físico para a execução coreográfica, que dura 50 minutos, porém, a peça não apresenta grandes dificuldades técnicas.

Os bailarinos acostumados a dançar em palcos diversos, criam outra coreografia para se adaptarem ao palco do Sesc. Muitas trocas rápidas são feitas a olho nu no canto do palco e os adereços de cena — como grandes bancos — acabam compondo à cena. Apesar do pouco espaço nas coxias, a coreografia não fica comprometida e o mais importante é que o público piracicabano tem a chance de assistir à espetáculos de dança de grandes companhias. E esse mérito, impossível, não dar ao Sesc.

Na maioria das vezes, quando grupos e companhias de dança se apresentam com música ao vivo em um teatro, a orquestra ou fica no fosso, ou é colocada ao lado do palco — como se vê muito em musicais. No novo trabalho do Stagium, o Quinteto Violado, ganha lugar de destaque merecido na cena. Os instrumentistas colocados em um palco sobre o palco, são elementos fundamentais para a execução da coreografia. A música nordestina chama o movimento e este se cruza, descruza e por vezes até se desencontra na dança.

O grande homenageado do trabalho, o compositor Luiz Gonzaga, revela um Brasil que dança em qualquer tom. Seja em “Asa Branca”, “Assum Preto”, “P’ronde Tu vai, Luiz?” e “Forró de Mané Vito”, sem o brilhantismo do Quinteto, não seria tão gostoso assistir ao “Mané”.

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