sexta-feira, 18 de junho de 2010

Festidança | Crítica 4 | Esquentou, mas pode pegar fogo

Marcela Benvegnu


              Vamos refrescar a memória. A noite de domingo, dia 6 de junho, trouxe ao palco do Teatro Municipal de São José dos Campos três diferentes estilos de dança: balé clássico de repertório (variação masculina avançado), dança de salão (duo e conjunto avançado) e dança de rua (conjunto sênior). Hoje, alguns dias depois, quando o 21º Festidança retoma a segunda parte da competição é que temos a chance de parar o corpo e refletir.
A bateria de balé clássico de repertório variação masculina era composta por sete trabalhos. Welton Lucena, que garantiu o primeiro lugar no ano passado, apresentou uma precisa variação de Acteon (do balé Diana e Acteon*), remontada por Adriana Assaf pelo Ballet Adriana Assaf, de São Paulo. Já Edson Artur Machado Júnior, pelo Ballet Elisa, de São Bernardo do Campo, São Paulo, com sua Esmeralda*, mostrou um bom trabalho de pés e baterias.
O nervosismo tomou conta do palco em alguns trabalhos. Uma pena. Todos sabem como é difícil ensaiar horas a fio dentro de uma sala de aula e ter muitas vezes menos de dois minutos para mostrar meses de trabalho. Às vezes vale à pena respirar, pensar que não é uma competição, que os jurados nem estão aí, e dançar. A dança flui melhor, sai do corpo e é absorvido por ele. É preciso entrar em cena acreditando em si. Dançar para si, para preencher os vazios existentes na alma e claro, ter confiança. Talvez seja essa “pitada” que falte em alguns solistas ou mesmo grupos. É preciso acreditar mais. Sempre mais.
Na dança de salão o destaque ficou para o Grupo Viva e Dança, de São José dos Campos, São Paulo, que apresentou “Amor Intenso”, de Marcelo Ribeiro da Silva. As formações são inteligentes e a coreografia é bem articulada. É preciso dar mais valor a dança de salão e essa valorização tem que começar pelos próprios coreógrafos, que tem que tratar a dança, como arte. E trazer ao palco mais do que uma junção dos passos.
É preciso começar a responder questões que são apresentadas na cena faz tempo: Por que o nome da coreografia tem que ser o nome da música? Por que colocar em cena um banco e usá-lo como enfeite no começo e no final da coreografia? Objeto cênico tem que se tornar dança em cena. Qual é a narrativa que eu me proponho a fazer? E os releases? Por que escrever poemas se a coreografia não me fala nada sobre aquilo? Por que escrever “difícil” fazendo com que o assunto mais importante da obra se perca na palavra? Qual é a minha dramaturgia? Como o figurino se relaciona com a coreografia? Que luz eu desenho no espaço? Que formações são mais interessantes para essa dinâmica de movimento que é proposta? São muitas perguntas. Respostas difíceis.
Para encerrar a noite, a dança de rua conjunto sênior mostrou a força e a sincronia do gesto. A Yo! Hip Hop Dance Company, de Sumaré, com o seu “Hip Scratch Box”, de Clécio de Souza, respondeu algumas das perguntas acima. A narrativa era evidente. O nome da coreografia mantinha um diálogo direto com a proposta e o trabalho era muito forte. O Xtyle Project, do Rio de Janeiro, apresentou dinâmicas de movimento muito inteligentes no seu “Desconceito”, de Rodrigo Pires de Souza e Filipi Escudini de Moraes.
A CBS Street Factory apresentou “Elétrons”, de coreografia de Nicolas Karps – primeiro lugar em 2009. O trabalho cuja dramaturgia foca a atração e repulsão dos movimentos também cumpre a proposta que se propõe. Tudo no lugar. Mas indiscutivelmente a noite foi da Cia de Dança Kahal, de Jundiaí. “Êxodo”, de Henry Camargo tem boa música, apresenta uma movimentação que se apropria de elementos da dança contemporânea sem deixar de fazer dança de rua. O figurino é bem pensado e a mudança de música é sutil. Sem contar que quando a música muda, a intenção do corpo dos bailarinos também muda. Esse é um importante olhar para a coreografia.
De fato as noites vieram num crescente, esquentaram. Mas ainda podem pegar fogo... tomara que pegue.
MAIS:
Diana e Acteon – Alguns dizem que este balé, uma lenda grega, foi coreografado por Marius Petipa em 1902, outros que em 1931 Agrippina Vaganova teria recoreografado o pas-de-deux como conhecemos hoje. Fato é que a coreografia se tornou popular e é vista e dançada por diversas companhias no mundo. A versão mais usada é de Petipa, anteriormente coreografado para o balé “Esmeralda”.

Esmeralda – É um balé de três atos e cinco cenas coreografado por Jules Perrot. Estreou em 1844, em Londres e tem música de Cesare Pugni. A variação mais conhecida é a que a personagem, uma cigana, dança com um pandeiro.

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