terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Um lago de lágrimas

Marcela Benvegnu

Quando se pensa em “Lago dos Cisnes”, a primeira imagem que vem à mente (no Brasil) é a da bailarina Cecília Kerche em sua interpretação sem igual. A leveza dos braços, a perfeição dos pés, a pureza dos figurinos brancos... Mas quem for assistir “Lago dos Cisnes?” — com interrogação mesmo — que o Balé da Cidade de São Paulo (BCSP) estréia hoje, 21h, irá se deparar com algo muito diferente. A convite do BCSP, o coreógrafo Sandro Borelli recriou o balé considerado um dos mais maiores de todos os tempos.
“Toda a idéia partiu das lágrimas dos cisnes do texto original, que acaba por formar o lago. Lágrimas surgem de uma emoção forte, seja de alegria ou de dor intensas. Escolhi investigar o sentimento de dor que está contido nessas lágrimas, como se tivesse em mãos uma lupa ou microscópio. E encontrei ali microorganismos, colônias de bactérias, que habitam essas lágrimas expelidas por causa da dor”, conta Borelli. Seres que abandonam o estado invisível a olho nu e ganham vida como bailarinos. “No fundo, o Lago original parte daí, ele é muito doloroso.”
Imagens do “Inferno de Dante”, primeira parte da obra de Dante Alighieri, “A Divina Comédia”, assim como uma canção composta por Bertolt Brecht e Kurt Weill, “A Balada da Menina Afogada”, que descreve o percurso de um corpo em decomposição até o fundo de uma represa, alimentaram a versão de “O Lago dos Cisnes?” de Borelli, que anteriormente coreografou “Lac”, baseado no repertório, para a companhia. “Não espero o estranhamento do público, mesmo porque estamos propondo uma pergunta. Jamais pensei em suplantar a genialidade da obra, mas de apresentar essa visão interior particular.”
Um cenário feito de tecido pintado, que se assemelha a paredes enferrujadas bem pesadas, foi pensado por Jean-Pierre Tortil para dar a impressão de estarem mergulhados em uma lata sobre a qual o público observa de cima. O figurinista Marcelo Pies acompanha o movimento do cenário e veste os bailarinos com camisetas e calças de cores escuras, no estilo tie-dye, que aparentam estar prestes à corrosão pelo excesso de sujeira.
Gustavo Domingues adiciona ruídos das profundezas de um oceano às músicas de Tchaikovsky, que serão tocadas ao vivo pela Orquestra Experimental de Repertório, regida pelo maestro piracicabano Jamil Maluf. Borelli também acrescentou à montagem um insight que teve ao observar bolhas formadas na beira do rio Tietê num dia quente, por causa da fermentação. “Não passa de um pântano formado por homens que tentam se salvar em meio à podridão.”
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PARA VER — “O Lago dos Cisnes?”, com o BCSP. No Teatro Municipal de São Paulo. Hoje, amanhã e segunda-feira, às 21h. Domingo, às 17h. Ingressos custam de R$ 5 a R$ 15. Data, local, horário e valores foram enviados pelos organizadores. Mais informações (11) 3397-0327.

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