segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Dinheiro bem investido / Crítica / São Paulo Cia. de Dança / Programa 2

crédito: João Caldas


Marcela Benvegnu

Quem assistiu a apresentação do Programa 2 da São Paulo Cia. de Dança, no último final de semana, no Teatro Alfa, em São Paulo, pôde ver três diferentes coreografias, que pouco dialogam umas com as outras. Talvez esse seja um bom diferencial quando a preocupação está em (in)formar sobre dança. O grupo trouxe ao palco "Les Noces", de Bronislava Nijinska (1891-1972), seguida da inédita "Entreato", de Paulo Caldas (1965), e "Serenade", de George Balanchine (1904-1983). O investimento não foi revelado, mas os R$ 13 milhões — muito questionados — que a companhia tem para investir (o que é bem diferente de gastar) estão sendo bem usados. Afinal, "comprar" os direitos de Nijinska e Balanchine, não é para qualquer um.

"Les Noces" é uma peça forte, assim como a música de Igor Stravinsky (1882-1971). Raramente executada por uma companhia de dança profissional a peça é dividida em quatro movimentos. A remontagem, assinada por Maria Palmeirim (1948), é bem executada, embora em alguns momentos as baterias de pés pareçam dissonantes. E a situação se evidencia por conta do figurino de Natalia Gontcharova (1881-1962), em que as bailarinas usam meias brancas e sapatilhas pretas. Impossível não notar.

Ainda nas pontas está a suavidade de Balanchine em "Serenade". O elenco, desta vez mais afinado — no sentido do físico e de execução —, convence. Os movimentos criados pelo gênio do neoclássico são precisos, tamanha a beleza das formas, do uso do palco, das poses, das colocações. Na remontagem de Ben Huys (1967) — atual ensaiador da The George Balanchine Trust — ainda falta um ‘Q’ de dramaturgia, mas isso é reflexo da linguagem, que só com mais trabalhos e tempo de vida a companhia poderá mostrar mesmo sem ter um coreógrafo residente.

ENTREATO — Entre Nijinska e Balanchine está "Entreato" — título também inspirado no filme "Entr’acte", de René Clair, do balé dadaísta ‘Relâche’ — de Paulo Caldas. Apesar de o coreógrafo acreditar que o trabalho não precisa ser explicado (ele fecha seu texto de apresentação no programa com a frase de Francis Picabia em que afirma ‘Relâche não tem significado... Quando perderemos o hábito de explicar tudo?") ele tem pontos interessantes a serem lidos. Em cena o corpo explica muitas coisas.

Os movimentos apresentam um fluxo contínuo, que de repente se dissolvem nos feixes de luz de Renato Machado. A luz é coadjuvante, ajuda a desenhar a cena que vai do orientalismo ao mais andrógino dos gestos. Um scanner de sensações. O figurino é casual, calças, blusas, vestidos e meias — comuns, mas pelo menos eles não estão descalços como a maioria por aí.Um vídeo projetado à direita do espectador realiza um diálogo e ao mesmo tempo um contraponto com a obra de Caldas. Paula Penachio é projetada de baixo para cima de sapatilhas de ponta e tutu. É como vê-la por baixo de um vidro e é a troca dos frames que desenha sua coreografia. Era possível explicar mais, mas o espaço entre o começo e o fim do movimento destas palavras termina aqui.

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