terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Sonho de bailarino

Oderagy Magnani

Marcela Benvegnu

Há pouco mais de meio século, quando São Paulo completou 400 anos, a dança fazia parte da grandiosidade das comemorações. O Balé do 4º Centenário, como foi chamado o projeto, surgiu em 1953 e quis dar à cidade uma companhia profissional, capaz de unir dança, artes plásticas e música, nos moldes dos Ballets Russes, de Sergei Diaghlev (1872-1929), que no início do século 20 encantaram a Europa. As audições mobilizaram mais de 400 bailarinos do país e exterior, e foram aprovados somente 60 nomes. Entre eles estava o jovem bailarino carioca Oderagy Magnani, que hoje, no auge dos seus 80 anos, escolheu Piracicaba para morar.
A história de Magnani com a dança começou antes daquele marcante 1953. Ele começou a estudar balé clássico no Rio de Janeiro, por acaso, anos antes. “A esposa do meu irmão tinha uma escola de balé, eles não tinham homens para integrar o elenco e, assim, ela pediu para ajudar”, conta Magnani. Deste balé de brincadeira, nasceu um grande bailarino, que depois foi se aventurar no Balé da Juventude —— que surgiu nos anos 40, sobrevivendo até a década seguinte e foi fundado por Igor Schwezoff (1904-1982). “Isso era 1948. Naquela época, o balé era dirigido por Sansão Castelo Branco e eu fui aluno de professores como Yuco Lindberg e Eduardo Sucena (1920-1997), este último que posteriormente montou um balé para mim e sua filha”, conta.
Em 1950, Magnani ingressou no corpo artístico mais famoso do país, o Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que até hoje é a única companhia profissional do Brasil, que ainda remonta clássicos de repertório na íntegra. “Lá eu participei da montagem de ‘O Descobrimento do Brasil’, sob direção e coreografia de Eugenia Feodorova, e ainda no Rio, participei como bailarino do filme ‘O Camelô da Rua Larga’. Foi em 1953 que eu vi as chances de profissionalização em dança com as audições do 4º Centenário”.
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BALÉ DOS 400 ANOS

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O objetivo do Balé do 4º Centenário era o de oferecer coreografias sofisticadas ao público brasileiro. Para isso, a companhia já nasceu grande. Naquele tempo, os nomes sondados para assumir a direção da companhia foram o do francês Maurice Béjart (1926-2008), e o do americano Jerome Robbins (1918-1998). Ambos recusaram o convite. Aurelio Milloss (1906-1988), bailarino e coreógrafo húngaro, que dançou importantes papéis nos Ballets Russes, foi o escolhido para vir ao Brasil assumir a companhia.
Milloss era ousado. Suas coreografias apresentam temas polêmicos, como angústia e sexualidade. Magnani dançou todos os seus balés. Entre as 16 montagens estavam “Uirapuru”, “Lenda do Amor Impossível”, “Fantasia Brasileira”, “O Guarda-Chuva”, e “Cangaceira”; estes com temáticas brasileiras. “Em ‘Fantasia Brasileira’ eu tinha um papel engraçado”, relembra o bailarino. “Eu fazia um personagem chamado Travestido da Diva e aparecia em uma parte da montagem que evidenciava o samba e o frevo. Bons tempos.”
Magnani e uma leva de outros bailarinos —— os melhores da época —— como Edith Pudelgo (1927-1984), Lia Marques, Lia Dell’Ara, Ady Addor, Cristian Uboldi e vários outros nomes, viam no Balé do 4º Centenário a chance de viverem de dança. “No Rio, eles já tinham o corpo estável do balé no teatro, mas em São Paulo, ainda não. Entramos no 4º Centenário como estagiários, mas achávamos que depois viria a contratação efetiva. Naquela época, eu dançava com a atriz Eva Wilma e também com a Suzana Faini, que atualmente está na novela A Favorita, como a personagem Iolanda, esposa do Copola (Tarcísio Meira). Todos nós tínhamos a certeza de iríamos ser contratos. Foi uma ilusão. Uma grande ilusão”.

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MARCAS DO TEMPO



Muitas histórias recheiam o tempo de vida dessa companhia que durou muito menos que o esperado. “A companhia teve que mudar de sede bem no meio dos ensaios porque a sede que ficava no Trianon estava com rachaduras. Depois os diretores alugaram duas salas na rua Florêncio de Abreu e a gente ficou ensaiando lá. Mas na hora de estrear os trabalhos, quem disse que a gente tinha espaço?”, conta Magnani. O Teatro Municipal de São Paulo estava em reformas na época e as 16 coreografias de Milloss estrearem em um lugar menos inspirador. “Foi na quadra de basquete do ginásio do Pacaembu e a gente nem apresentou todo o repertório. Dançamos no Rio de Janeiro depois”, relembra o bailarino.
O fim da companhia e do sonho de Magnani estava próximo. Com muitos problemas políticos, a saída de Milloss da direção e muitos salários atrasando, a companhia não iria muito longe. “Eu tinha o sonho de que aquilo pudesse acontecer. Era o meu maior sonho. A gente não recebia mais e eu morava em uma pensão que tinha alimentação, porém, aos domingos eu tinha que me virar. Me lembro que eu só tinha dois cruzeiros e sempre tomava sopa. Aquela sopa tinha um gosto delicioso, porque eu via naquele sacrifício a esperança de poder viver para dançar”, relembra Magnani. “Um certo dia, eu cheguei para as aulas e o porteiro me disse que o balé tinha fechado. O mundo caiu para mim em 1955”, afirma.
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MOVIMENTO SINCOPADO
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Sem emprego, dinheiro, e companhia, Magnani seguiu o mesmo caminho que a maioria dos outros bailarinos: foi trabalhar na TV. “Eu dancei na TV Tupi do Rio de Janeiro, em espetáculos de dança exibidos nas manhãs de domingo ao lado do corpo de baile de Juliana Yanankwieva; fiz uma revista musical com coreografia de Nina Verchinina (1912-1995) e música de Dorival Caymmi chamada ‘Peguei Um Ita no Norte’, em 1958; trabalhei em cabaré, e também criei a Escola de Dança Santa Cecília em Jacarepaguá. Eu tinha que sobreviver e como vi que a dança estava complicada, resolvi estudar e me formei em economia. Larguei a dança e passei para a vida civil na década de 60”.
Se Magnani largou a dança, com certeza a arte não o abandonou. Seus filhos cresceram assistindo a óperas e espetáculos de dança no Municipal do Rio, seus amigos ainda são sempre lembrados, como os movimentos de algumas das mais importantes coreografias do país, das quais não se tem nenhum registro a não ser o do seu corpo de baile.
O bailarino — porque não existe ex-bailarino — trocou o Rio de Janeiro por Piracicaba há pouco mais de três anos. “Um filho meu ficou doente e o outro já morava aqui. Agora já está tudo bem, mas queríamos uma vida mais tranqüila. Eu gostaria de voltar para o Rio, mas a minha mulher não quer”, revela falando em tom de segredo. Apesar de preferir o agito do Rio de Janeiro, foi em terras caipiras que Magnani reencontrou um novo modo de dançar. Ele foi convidado pela diretora artística da Cedan (Companhia Estável de Dança de Piracicaba), Camilla Pupa, para a banca de seleção dos integrantes da companhia. “Fiquei muito feliz com o convite da Camilla. Foi muito bom rever alguns colegas e ver que os bailarinos da cidade estão crescendo. Sempre vou aos espetáculos dela, gosto de ver o que ela faz. Na verdade eu gosto de ver dança, de ver movimento. Serei bailarino sempre”, declara Magnani.

Um comentário:

Pola Papoula disse...

Falei para o Rodrigo outro dia, comentando um caso parecido com esse seu encontro com o s. Magnani. O Carlos Lacerda dizia que tinha um "anjo da guarda dos livros", ou "da literatura", coisa assim. Ele queria dizer que às vezes ficava encafifado com um tema e não raro encontrava algo importante sobre o assunto em um livro, em um jornal. Eu tenho sorte também, mas acho que a gente presta mais atenção nas coisas que ama!
Certeza é que você adorou o encontro!
Gostei!
Bons sonhos!!
Beijos...

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