quarta-feira, 24 de junho de 2009

Para a dor: dança de prazer / Ballet de Londrina


crédito: Izabela Figueiredo


Marcela Benvegnu

Depois de um bem-sucedido “Decalque”, o Ballet de Londrina volta à cena para estrear seu mais novo trabalho. “Para Acordar os Homens e Adormecer as Crianças”, nos dias 17, 18 e 19 de junho, no Filo (Festival Internacional de Londrina), em Londrina. O trabalho, com coreografia de Leonardo Ramos, desencadeia por meio dos movimentos uma condensação da passagem do tempo, representada por nascimento, crescimento e maturidade.
“Para Acordar os Homens e Adormecer as Crianças” começou com a tentativa de tratar do tema da vadiagem, do ócio, do curtir a vida e acabou sendo uma alegoria sobre a quebra da dor para uma possível liberdade. O que aconteceu não foi um desvio: as obras artísticas parecem ter suas vontades e seguir os caminhos da própria existência humana. A dor, que estabelece relação contrapontística com o prazer para compor a dinâmica da vida, não poderia ficar de fora do espetáculo sem que sua ausência não fosse notada.
Assim, os movimentos dos bailarinos desencadeiam uma condensação da passagem do tempo, representada por nascimento, crescimento e maturidade. O espetáculo pretende ser como morfina para esta dor, uma hora em que a dura e incontornável realidade pode ser vista em terceira pessoa, diluída na precisão e beleza dos movimentos da dança. Gestos que remetem ao funcionamento do relógio, o contraste provocado pela presença do corpo do bailarino de 13 anos, tudo transmite a sensação da impermanência humana, revelada no próprio processo de envelhecimento.
O entorpecimento aparece cenicamente como elemento necessário para a transição do self. A lisergia, encarada como possível reconfiguração do real, coincide temporalmente com o meio-caminho entre a infância e a velhice. A trilha sonora, que surgiu depois de boa parte da coreografia, revela também o mesmo princípio. As músicas de pós-rock — e por proporem composições líricas na sonoridade própria ao rock — cumprem bem o papel de sublinhar as tensões e relaxamentos coreográficos do espetáculo.
A obra foi um desafio por ser uma tentativa de sair do consolidado “Decalque”, que permaneceu por dois anos nas mentes e corpos dos bailarinos da CIA. Ballet de Londrina. O novo espetáculo busca novas direções, baseando seu norte em trabalhos mais antigos da companhia em que o movimento, em detrimento do enredo, é o principal elemento constitutivo da obra.
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CIA — O Ballet de Londrina é um grupo profissional de dança contemporânea formado por 13 bailarinos. Criada em 1993, a Companhia já montou e apresentou 22 espetáculos de dança contemporânea, fez 11 turnês nacionais e 9 viagens internacionais. O grupo é mantido pela Fundação Cultura Artística de Londrina (Funcart), uma organização não governamental cujo principal objetivo é democratizar o acesso à formação e produção cultural de qualidade, por meio de uma ampla rede de projetos.

Um comentário:

Brendinhah disse...

A dança é sentimento......
Se não dançar com isso a dança não significa nada.....
A dança tem que ser reconhecida como uma profissão e não como um hobby.....
Obrigado....