terça-feira, 31 de julho de 2007

A “boa” fúria da platéia


Marcela Benvegnu


As poltronas tremeram. O coração acelerou e o público gritou tanto, que quase não se ouviu o anúncio dos trabalhos de dança de rua conjunto avançada que iriam se apresentar no palco do Centreventos Cau Hansen, na noite de domingo. Essa era a atmosfera do espaço, afinal, foi à vez da dança da sincronia, da emoção, do ritmo e das batidas entrar em cena. No palco: a rua de diversas maneiras; cada uma com sua marca, explosão e vontade de mostrar a cara de sua tribo. Sabe-se que a dança de rua é uma manifestação que surgiu na época da grande crise econômica dos Estados Unidos, em meados de 1929, quando os músicos e dançarinos que trabalhavam nos cabarés ficaram desempregados e foram para as ruas fazer seus shows. No Brasil, esse movimento foi popularizado em 1991, pelo Dança de Rua do Brasil, de Santos, e de lá para cá, só se vê progresso, inovação e conceito. De fato, dançar vem sendo um verbo bem conjugado por essas trupes.
Na noite de domingo, os trabalhos "da terra", como "Enquanto Houver Dança Haverá Esperança", de Juliana Ramos, da Companhia Joinvillense de Dança de Rua e "Raízes", de Nilberto Lima de Souza, do grupo Fúria das Ruas, ambos de Joinville (SC), foram os mais aplaudidos da noite. Não foi à toa. Juliana levou ao palco uma boa pesquisa de movimentos e figurinos - os intérpretes usavam meias listradas da cor da blusa - que fazia bem aos olhos. (Só não valeu uma intérprete arrumar os cabelos em cena.)
Souza inovou no cenário. No lugar dos usuais grafites, "Raízes" apresentou como pano de fundo uma paisagem urbana em tons pastéis que se assemelhava às ruas do subúrbio de Nova York. Em meio aos prédios e pontes, uma placa indicava um bailarino em movimento; ali era o espaço da dança. Uma forma inteligente de abordar a contemporaneidade aliada a seqüências bem trabalhas que priorizaram sincronia e velocidade.
Vale dizer que os trabalhos de dança de rua apresentados na segunda parte da noite fizeram com que o Centreventos ficasse lotado mesmo com a chuva que caia na cidade. Só havia espaço para aplausos e flashes. Infelizmente, na primeira parte da competição destinada às apresentações das coreografias de dança contemporânea, (solo feminino e duo sênior, solo feminino e trio avançado) centenas de cadeiras ficaram vazias. Onde estava o público?
O coreógrafo Ricardo Sheir, com “Não Existe o Lugar...”, pelo Grupo Corpo Livre, de Valinhos (SP), na categoria de dança contemporânea trio avançada, mostrou um trabalho que usou muito bem o espaço cênico do palco e tem em seu contexto uma poética evidente. O mesmo aconteceu com, “Sussuros”, da Cia de Dança do Teatro Alberto Maranhão, de Natal (RN), assinada pelo coreógrafo-intérprete Tomás Quaresma. Contudo, não foi uma noite de grandes surpresas no gênero. Tomara que para 2008, alguns professores pesquisem mais sobre o verdadeiro sentido da dança contemporânea, que vai muito, mais muito além de uma seqüência de aulas transformada em pseudocoreografia com trilha sonora impactante.


Nenhum comentário: