segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A reinvenção da dança popular

Marcela Benvegnu

Com mais de 30 anos de estrada, o Balé Popular do Recife mudou a cara da dança pernambucana, abriu um amplo mercado de trabalho e, por meio da valorização da arte e dos artistas populares, aproximou a sociedade da sua própria cultura. Para comemorar essa trajetória de sucesso, o grupo montou um novo trabalho, que marca a reinvenção do balé em termos de linguagem. Intitulada “As Andanças do Divino”, a montagem poderá ser vista pelo público piracicabano hoje, às 20h, no Sesc Piracicaba, e integra a programação especial da 9ª Bienal Naïfs do Brasil 2008.

Com direção artística de André Madureira e roteiro de Antonio José Madureira mais conhecido como Zoca o espetáculo propõe um diálogo com o teatro de bonecos e outras vertentes da dança, e resulta em uma obra integrada, que apresenta a trajetória de Simão Maranduera, mestre mamulengueiro, que sai do sertão rumo ao litoral, encenando “A Paixão de Cristo” com seus bonecos; e também de Jesuíno, um típico nordestino, misto de ícones do messianismo brasileiro, como Antônio Conselheiro e Padre Cícero, com a figura de Lampião e do próprio Jesus Cristo.

O espetáculo tem como objetivo falar da luta apaixonada de mártires da história de Pernambuco e da cultura popular, porém afastando-se do perfil folclórico que caracterizou os primeiros trabalhos do Balé do Recife. Segundo André Madureira, esse espetáculo marca a reinvenção da companhia. “Demos um passo à frente na consolidação da linguagem brasílica da dança, que é uma metodologia própria desenvolvida pelo grupo. ‘As Andanças do Divino’ vem coroar essa pesquisa de passos, movimentos coreográficos e mímicos, mas agora representada de outra forma”, fala Madureira, em entrevista ao Jornal de Piracicaba. “O público poderá ver o xaxado, o frevo, o maracatu, o caboclinho, a ciranda, o coco de roda, o pastorio, e várias outras manifestações da cultura popular em um outro contexto de linguagem, mas sem perder a identificação.”

As “andanças” do balé durante esses 30 anos foram intencionalmente inseridas em alguns momentos do trabalho com o objetivo, segundo o autor e o diretor, de revisitar a trajetória e valorizar a memória cultural pernambucana. “Esse espetáculo está sendo pensado por nós desde 2003. Precisávamos renovar nossa linguagem e fundamentos e para isso houve muito estudo”, revela Madureira. “Meu irmão (Zoca) compôs a trilha sonora da peça e hoje posso afirmar que o Balé tem um grande trabalho em mãos. Estreamos em abril de 2008 com a sensação de missão cumprida”, fala o diretor, que se apresentou em Piracicaba há mais de 25 anos. “Acho que estivemos aí com o balé em 1981, quando fizemos uma turnê pelo Estado de São Paulo. Estou adorando a idéia de voltar”, diz.
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LINGUAGEM CONSOLIDADA
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O Balé Popular do Recife foi fundado no dia 20 de maio de 1977. Naquela época, o grupo era conhecido como Grupo Circense de Dança Popular e era composto por 12 bailarinos. O primeiro espetáculo montado foi o “Brincadeiras de um Circo em Decadência”, que logo conquistou o público e a crítica, acabando por levar a trupe de brincantes a um circo de verdade, armado no cais da Rua da Aurora: o Circo da Onça Malhada. E foi justamente nessa época que o grupo ganhou o nome de Balé Popular do Recife, batizado pelo então secretário municipal de Educação e Cultura, o escritor, jornalista e dramaturgo Ariano Suassuna. Em seus primeiros meses de existência, o balé contou com a subvenção da prefeitura do Recife, passando em seguida, e até hoje, a manter-se com recursos próprios.

O grupo tem como finalidade a preservação, divulgação, documentação e recriação dos autos e folguedos populares do Nordeste e em particular do Estado de Pernambuco. No decorrer de sua trajetória conseguiu catalogar mais de 500 passos de dança, além de criar novos. Centenas de bailarinos foram e ainda são formados por essa rede social, que instituiu um método próprio de trabalhar as danças populares, a metodologia Brasílica. Sendo assim, o grupo conquistou uma linguagem própria, que o diferencia de outros grupos de dança popular do Nordeste, inspirando ainda a formação de novas companhias de dança, como é o caso da Cia. Trapiá de Dança, Balé Brincantes, Maracatu Nação Pernambuco e Companhia de Arte da Cidade Alta de Olinda.

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