domingo, 8 de março de 2009

O Amado Brasil


Marcela Benvegnu
publicado no Jornal de Piracicaba, em 6 de março de 2009 / caderno Fim de Semana

Os aspectos mais corriqueiros da vida popular do povo baiano, seus costumes, modo de ser, agir, religiosidade e estratégias de sobrevivência foram mais do que traduzidos por um escritor da terra: Jorge Amado (1912-2001). Entre suas mais de 30 publicações, destaca-se “Tieta” (1977), espécie de espelho de algumas representações da identidade do povo brasileiro, que depois de ter sido tema de novela e filme, será pela primeira vez na história narrada em forma de musical, pelas mãos de uma mulher, a diretora e adaptadora Christina Trevisan. E para comemorar o Dia Internacional da Mulher, a montagem “Tieta do Agreste — O Musical”, estrelada por Tania Alves, será apresentada amanhã, às 21h, e domingo, às 19h, no Teatro Municipal “Dr. Losso Netto”, com apoio do Jornal de Piracicaba, na abertura da temporada 2009 do espaço. Piracicaba é a primeira e única cidade do interior a receber a montagem que fez temporada em São Paulo e agora excursiona pelo país.

Amado conseguiu expressar em palavras a essência da Bahia. Nas ruas do centro de Salvador ou nas plantações de cacau de Ilhéus, narrou conflitos e injustiças sociais, maravilhas e peculiaridades do seu Estado natal, além de construir personagens que esbanjavam sensualidade, como Tieta. “Quando a produção me procurou para que eu adaptasse a obra em um musical eu fui taxativa e afirmei que não faria algo estilo Broadway. Porque o que era preciso fazer com a obra de ‘Tieta’ era trazer à tona a sua brasilidade”, fala Christina.

Segundo a diretora e adaptadora da montagem, o musical revela um subtexto que vai além do seu regionalismo. “São anseios comuns de qualquer cidade pequena nesse Brasil. É a religião, os conflitos de sexualidade reprimidos, as relações familiares”, revela Christina. “E dentro desta proposta, me aliei ao Pedro Paulo Bogossian, que é o diretor musical, e a Rosely Fiorelli, a coreógrafa, para adaptarmos isso juntos. Eu retirei as letras das páginas do livro de Amado, o Bogossian musicou e a Rosely criou as coreografias. Não apresentaremos um show à la Broadway, porque temos um corpo brasileiro, somos irreverentes, cínicos, entusiasmados. De Broadway só temos o padrão de qualidade”, fala.
Em cena o público verá composições e coreografias que enfocam o forró, samba de roda, xaxado e até o tango. Tudo ao vivo. A banda é formada por seis instrumentistas, que acompanham o elenco em todas as apresentações. “Tenho certeza de que as pessoas se surpreenderão com o trabalho. A prosa de Amado é lírica, tem ritmo, rima. Cada hora nos encontramos em um personagem e aprendemos mais sobre outro. Por isso, Amado nos revela tanto nossa própria identidade e nos permite encontrar muitas Tietas”, atesta Christina.
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CONTEXTO HISTÓRICO
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Nas primeiras cenas do romance, assim como no musical, Sant’Anna do Agreste, pequena vila do interior da Bahia, vive dias de grande expectativa enquanto se prepara para receber Tieta, filha da terra que retorna depois de 25 anos morando no sul do país e trabalhando como cafetina. Aos 17 anos, Tieta (Tania Alves) viverá aventuras amorosas que escandalizaram a população e, denunciada pela irmã mais velha, Perpétua (Maria do Carmo Soares), é expulsa de casa pelo pai Zé Esteves (Osvaldo Raimo).

Desde a sua partida, o único contato de Tieta com a família era por meio de cartas que tinham como remetente uma caixa postal em São Paulo. Além da correspondência, controlada por Carmosina (Neusa Romano), funcionária dos Correios, Tieta também enviava ajuda financeira para o pai, as irmãs, Perpétua e Elisa (Emanuelle Araújo/ Vyvian Albouquerque) e os sobrinhos. Perpétua acredita que Tieta é proprietária de uma butique famosa em São Paulo e que da morte de seu esposo, um comendador, provém a sua riqueza. Quando Tieta retorna a Sant’Ana do Agreste, acompanhada de Lenora (Tânia Paes), que apresenta como sua enteada —, mas na verdade é sua protegida no bordel —, é recebida com grande pompa. O que as pessoas não imaginam é que ela esconde um grande segredo.

“Alguns estudiosos consideram Tieta uma síntese de todas as mulheres de Jorge Amado. Ela é uma mulher da natureza, que cresceu com as cabras e sua referência de sexualidade é a dos animais. Isso gerou liberdade no seu espírito”, fala Tânia Alves. “A trama revela uma história cheia de dramas e preconceitos. O fato de o pai ter batido nela com um cajado e de ela ter ido embora provocou uma grande dor na personagem”, fala. A atriz e cantora revela que em Sant’Ana do Agreste, Tieta é uma espécie de lenda. “Ela volta influente e tem uma posição política ativa. Regressa para perdoar, se reconciliar com a família”, completa Tânia.
A presença de Tieta em Sant’Ana do Agreste deixa marcas profundas. Enquanto a cidade se transforma pela chegada do progresso — Tieta é responsável por levar luz da Hidrelétrica de Paulo Afonso até a cidade — ela se envolve com o seu sobrinho Ricardo — seminarista e filho de Perpétua—; Lenora e o prefeito apaixonam-se, industriais querem sediar uma fábrica de titânio na praia do Mangue Seco, e Elisa sonha em morar com a irmã na cidade grande.

“Elisa é uma típica personagem de Amado. É a irmã mais nova de Tieta, que é casada com um homem que ela julga pacato e que sonha em se mudar para a cidade grande. Com a chegada de Tieta ela enxerga essa possibilidade de mudar de vida”, fala Emanuelle Araújo, que na novela A Favorita, da Rede Globo, viveu a personagem Manu, uma prostituta, assim como Tieta. “Elisa é apaixonada pela vida e é obrigada e enfrentar a educação rígida imposta pelos pais”, completa a atriz, que afirma que a montagem é um verdadeiro presente à cultura brasileira.

Talvez Elisa não consiga realizar seu sonho, pois quando o segredo da vida de Tieta é revelado, ela é obrigada a partir novamente. Mas, Sant’Ana do Agreste e seus habitantes nunca mais serão os mesmos e nunca serão esquecidos por ela. “Interpretar Tieta tem sido algo marcante na minha vida. Gosto de trabalhos ricos e desafiadores. A personagem exige várias nuances e estabelece uma série de relações com o pai, o sobrinho com quem ela tem um caso de amor, que exige muito de mim como atriz”, fala Tânia, que dedica o espetáculo a Jorge Amado e Zélia Gattai (1916-2008). “Certa vez encontrei com os dois e eles me disseram que gostavam do meu trabalho. Então, onde estiverem, minha Tieta é para eles”, completa.
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IDENTIDADE NACIONAL
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A proposta de Jorge Amado e outros modernos foi definida pelo crítico literário Antonio Candido como “ir ao povo”. Amado, de fato, parece não somente ter ido ao povo, como ter feito parte dele para escrever textos que fossem reflexos de pura brasilidade. Segundo a antropóloga llana Seltzer Goldstein, consultora da editora Cia. das Letras para o relançamento das obras do baiano — até 2012 a editora relançará os 32 livros do escritor — e autora do livro “O Brasil Best-seller de Jorge Amado: Literatura e Identidade Nacional” (Ed. Senac), Amado era um grande observador da realidade, que se relacionava com vários extratos sociais. “Com essa capacidade de trânsito, ele foi capaz de ter uma síntese do Brasil muito particular, que tem relação direta com a imagem que ele fez do país”, fala.

Para Ilana, o escritor conseguiu uma penetração tão ampla na forma de o brasileiro olhar o país que acabou formando opiniões. “A literatura dele estava a serviço da nação”, atesta a pesquisadora, que aponta características similares nas obras do autor, pós-década de 50, quando ele abandona a militância política. “A primeira é a força das personagens, que sabem conviver com a diferença, o que é uma característica do brasileiro. A segunda é a mestiçagem, seguida da força da cultura popular. Ele acreditava que a cultura popular deveria inspirar artistas eruditos e sempre dizia que apesar de ter feito direito, nunca foi buscar o seu diploma. Sua faculdade havia sido a do Pelourinho”, conta Ilana.

Entre os pontos também figura o amor do brasileiros a festas, a força dos sentidos e o jeitinho brasileiro de ser. “Ainda incluo uma outra característica à literatura de Amado pensando em ‘Tieta’, ‘Teresa Batista’ e ‘Gabriela, Cravo & Canela’, que é a violência. Violência de diversos níveis, seja física ou entre o arcaico e o progresso. Essa briga entre o velho e o novo está presente em ‘Tieta’. A questão de gênero também. Embora ele seja acusado de colocar a mulher mulata como objeto na maioria dos seus livros, nesses três que citei, ele mostra mulheres que rompem com a convenção. Tieta foi assim”, completa Ilana.
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SERVIÇO — “Tieta do Agreste — O Musical”, com Tania Alves, Emanuelle Araújo e grande elenco. Amanhã, às 21h, e domingo, às 19h, no Teatro Municipal “Dr. Losso Netto”. Ingressos custam R$ 50 (inteira); R$ 35 (Clube JP, Unimed e Acipi); R$ 25 (estudantes, idosos e professores estaduais). A peça é recomendada para maiores de 12 anos. Data, local e horário foram enviados pelos organizadores. Mais informações (19) 3434-2168.

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