quarta-feira, 9 de maio de 2007

O Espaço de Duschenes



O recém-lançado documentário “Maria Duschenes — O Espaço do Movimento”, de 17 minutos, dirigido pela crítica de dança do jornal “Folha de S.Paulo”, Inês Bogéa, e por Sérgio Roizenblit, revela um pouco da personalidade de Maria Duschenes, que nasceu em Budapeste, na Hungria, no dia 26 de agosto de 1922, mas foi a mais brasileira das bailarinas de dança moderna. Duschenes introduziu no Brasil os métodos do músico suíço Emile Jaques Dalcroze (1865-1950) e do alemão Rudolf Laban (1879-1958) para afirmar uma técnica que coloca a dança à disposição de todos.O documentário é na verdade uma coreografia permeada por vozes em movimento dos alunos de Dona Maria — como ela carinhosamente é chamada —, que no vídeo aparecem dançando como estão hoje. Como diz a diretora, “quem dançou um dia não pára de dançar jamais”. Dona Maria partilhava, com seus mestres, do conceito de que a dança não deveria ser propriamente um trabalho em busca de perfeição, mas sim uma interrogação do espaço, de sua estrutura e suas possibilidades. Relutava, assim, em produzir uma formalização marcada dos gestos, mais interessada nas diferenças e identidades que podem surgir de cada um. A trilha sonora especialmente composta pelo pianista André Mehamari embala a vida difícil de Dona Maria, que mesmo sendo acometida pela poliomielite aos 22 anos, usando os conceitos de Laban — que analisa os componentes rítmicos e espaciais e a ação da gravidade sobre o movimento, e observa que o mesmo movimento pode ser efetuado segundo qualidades diferentes ligadas ao espaço — e a ajuda de Ruth Metzner, professora de ginástica corretiva, voltou a dançar. Algumas de suas coreografias que marcaram época, como “O Sacro e o Profano: Muitas são as Faces do Homem” (1965) e “Mixed Media” (1971), que inova a relação entre dança e artes plásticas, podem ser vistas no vídeo, que recebeu o prêmio Funarte Klauss Vianna de Dança em 2006. De 1992 para cá, Dona Maria vem sofrendo do mal de Alzheimer. Pouco a pouco seu universo de contatos vem se suspendendo, o que a levou para um tempo fora do tempo — ou fora do nosso tempo —, regido numa outra ordem, alheia as nossas paixões, nossos relógios e que mesmo assim não pára de dançar.


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